Retina Desgastada
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11 de julho de 2019

Jogando: Riverbond

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(publicado originalmente no Gamerview)

Era uma vez uma terra mágica e colorida onde os animais falavam e viviam suas vidas construindo coisas e sendo felizes. É claro que você já viu isso acontecer antes e sabe que algo de ruim vai interferir nessa harmonia e lá vai você consertar essa bagaça.

Enredo não é o forte de Riverbond, mas isso não impede que seja extremamente divertido quebrar tudo no reino para salvá-lo, onde cada árvore, cada arbusto, cada construção pode ser despedaçada em pixels com dezenas de armas diferentes.

É Perigoso Ir Sozinho, Leve Isso

Não que Riverbond não tenha uma historinha. Na verdade, ela é até complexa, envolvendo espíritos da floresta que foram corrompidos, criaturas antes fofas agora transformadas em oponentes violentos, templos sagrados, vilas saqueadas ou atormentadas por invasores e tudo mais.

Na verdade, na verdade, os aldeões que você encontra pelo caminho estão todos dispostos a explicar um pouco mais sobre tudo que está rolando e você pode desbloquear conquistas falando com as pessoas certas. Entretanto, essa parte é completamente opcional: os objetivos de cada mapa são bastante simples, não dependem da trama e o enredo mesmo não vale o investimento.

(Exceto pela Mana Bomba. Sempre escute o que a Mana Bomba tem a dizer. Eu queria mais jogos com Mana Bomba.)

Entretanto, vamos falar sério aqui: você veio em Riverbond para destruir coisas. É quase um Broforce para crianças, com o visual de Minecraft. Você pode quebrar aquela árvore ali, pegar o tronco caído e jogar em um inimigo. Você pode pegar o próprio inimigo atordoado no chão e arremessá-lo longe (inclusive em abismos mortais na beira do mapa).

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Para tornar tudo ainda mais divertido, a desenvolvedora Cococucumber espalhou pelos mapas baús que contém as mais variadas armas, o que incentiva bastante a exploração. O jogo é dividido em regiões, cada região com seu próprio conjunto de armas, que podem ser divididas em armas de longe, armas de dano em arco, armas de dano frontal, armas de dano por esmagamento e armas rápidas de mão. Embora os tipos sejam limitados, a criatividade e a simpatia correm solta na hora de criar as armas propriamente ditas, onde você pode encontrar uma pistola que dispara abelhas, um lápis gigante afiado que serve de lança, um par de cursores de mouse que você encaixa nas mãos e várias outras.

A mesma criatividade e simpatia aparecem também na variedade de inimigos, únicos para cada região, com estratégias de ataque diferentes e visuais que seriam fofos se eles não estivessem tentando te matar. Cada oponente é feito de cubinhos, como cada pedaço desse mundo isométrico e até mesmo o seu personagem, o que dá uma tridimensionalidade retrô à experiência toda. Os chefes e mini-chefes são um espetáculo à parte e chega a dar pena de quebrá-los, mas é a vida… o jogo precisa avançar.

Com nossa boa-vontade já conquistada com um sorriso nos lábios, a Cococucumber foi além e chamou vários parças para participarem da brincadeira em Riverbond. Seus desenvolvedores devem ter bons contatos com a cena independente, porque você pode encontrar e desbloquear personagens de vários outros jogos. Desta forma, você acaba jogando com o Kid de Bastion, com o lutador de Guacamelee, com o arroz-de-festa Shovel Knight (você realmente achou que ele iria perder a chance de ampliar seu currículo?), com o Raz de Psychonauts e mais. Infelizmente, nenhum deles conta com habilidades especiais, mas é sempre divertido ver essa relação entre os estúdios.

Há Algo De Podre No Reino Das Coisas Doces

Quando você menos espera, Riverbond acaba. Não é uma saga que atravessa gerações, te deixa pensando naqueles minutos antes de dormir ou te motiva a retornar e concluir o épico. É um relaxante passeio por um mundo bastante colorido que calhou de ter uns bichos fofos que são hostis. E há escopetas escondidas em baús. Por mais que o jogo até tente te convencer de que há um folclore nas entrelinhas, ele é tão desvinculado da jogabilidade que não importa. Só importa avançar: as regiões nem mesmo são ordenadas ou bloqueadas, você pode fazê-las na ordem que quiser. Acredito que seja possível até mesmo pular logo para a região final e ver a cara do chefão responsável por essa bagunça toda. Por força do hábito, meu filho e eu atravessamos a campanha no que seria uma ordem “natural” em qualquer jogo, indo da esquerda pra direita, de cima para baixo, na lista de regiões.

Se você explorar cada canto do mapa, encontrar todos os baús, correr atrás de cada moeda (que não tem valor prático algum no jogo), ainda assim é possível “zerar” Riverbond em cinco horas. Eu sei, porque meu filho é desses. Sozinho, sem usar o modo cooperativo local, os mapas devem se tornar um pouco mais longos. Serão cinco horas bastante divertidas, mas que passam voando. Será que é assim que um jogo funciona quando você tira todos os elementos de grinding ou farming? Nesse sentido, Riverbond é simpatia destilada, mas sua dosagem pequena pode decepcionar alguns jogadores.

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Quem procura por desafio também vai sair frustrado. As comparações com Broforce param na porta: é literalmente impossível perder em Riverbond. A morte é rara de acontecer em combate (apesar de alguns inimigos desequilibrados que atiram de longe) e, mesmo quando acontece, suas consequências são risíveis: você irá ressuscitar no checkpoint mais próximo sem nenhuma perda. Com mapas pequenos, até mesmo os checkpoints se tornam redundantes, você pode muito bem passar por eles sem ativá-los e renascer no começo do mapa se necessário. As batalhas com chefes não trazem qualquer traço de frustração, eliminando o peso da morte.

Por outro lado, é  difícil apontar essa proposta como um defeito de Riverbond. Se o objetivo da Cococucumber era oferecer um título divertido para toda a família, sem stress, ser fácil é um passo bem dado nessa direção. O que pode realmente ser apontado como defeito são os controles. A movimentação é extremamente confusa, mesmo para os padrões de um quase twin-stick shooter. Frequentemente, você irá se ver andando de lado ou atacando na direção que não queria. Acertar o pulo nessas condições é meio chato às vezes, mas felizmente Riverbond não exige precisão de plataforma em nenhum momento e as batalhas são fáceis e sem consequências graves. Nem eu, que joguei no teclado, nem meu filho, que jogou no gamepad, se sentiu à vontade controlando seu personagem. Há jogos com a mesma perspectiva e mecânicas em que você não se sente arrastando uma carcaça pelo cenário.

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O que definitivamente deve ser apontado como o defeito é a trilha sonora insípida. Um título tão simpático como Riverbond merecia uma trilha sonora à altura que ajudasse a impulsionar a diversão. Lamentavelmente é o que não se percebe aqui. Desmontando Riverbond, nós temos uma aventura tranquila, colorida e divertida, mas nem um pouco inesquecível. Ele é algo que anima uma ou duas tardes de final de semana, antes de ser substituído pelo próximo reino onde os animais falavam e viviam suas vidas construindo coisas e sendo felizes, até que um mal se instaurou e lá vamos nós de novo.

Ouvindo: Chemlab - Exile on Mainline
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Um comentário:

  1. Ola tu poderia fazer uma review do Lonely in the Winter, não sei se faz seu estilo de jogo mas as reviews que você faz dos jogos me agrada muito.

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