Retina Desgastada
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28 de dezembro de 2018

Jogando: A Hat in Time

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A Hat in Time foi o presente de aniversário do meu filho esse ano, quando ele completou onze anos. Esse simples fato dá a dimensão exata da expectativa que ele tinha em relação ao título de plataforma que vinha namorando havia meses pelo YouTube. Para a felicidade dele e a minha, o jogo de estreia da Gears for Breakfast entrega exatamente o que promete: uma jogabilidade deliciosa que evoca clássicos do passado, mas também contém uma personalidade própria e cativante.

Depois de apresentar o jogo para o guri, deixei ele solto por lá, uma vez que ele já caminha com suas próprias pernas já tem um tempo. A Hat in Time não seria o primeiro título desafiador que ele completaria sozinho e foi o que ele fez com bastante empolgação.

O jogo teria passado despercebido por mim se a Gears for Breakfast não tivesse introduzido nesse semestre um recurso muito bem-vindo: um modo cooperativo por tela dividida. Depois da euforia que meu filho demonstrou pelo título, não fiquei espantado quando ele insistiu em jogar tudo de novo, mas desta vez ao meu lado. Embora plataforma, 3D ou 2D, não seja exatamente a minha praia, quem era eu para negar uma experiência dessas?

Pela primeira vez em anos, senti-me transportado de volta àquela época desafiadora mas feliz de Billy Hatcher and the Giant Egg. As similaridades são muitas: vastos mapas com múltiplos caminhos em 3D, perspectiva em terceira pessoa, pulos duplos e habilidades especiais desbloqueadas através de itens específicos, humor afiado, personagens carismáticos e trilha sonora que gruda. A dificuldade tampouco foi esquecida, mas tenho quase certeza de que A Hat in Time é menos brutal, mas minhas impressões jamais serão exatas nesse sentido.

A grande verdade é que qualquer dificuldade que o jogo pudesse ter foi atropelada pelo meu filho, que conhecia exatamente onde ir e o que fazer em nossa jogatina cooperativa. Eu era pouco mais do que um espectador, incapaz de realizar muitos dos pulos precisos que ele fazia, mas responsável justamente por ressuscitá-lo quando ele se excedia na ousadia. Joguei assim como uma espécie de "vida extra" consciente, um passageiro que assumia o volante ocasionalmente em uma jornada maravilhosa. Essa discrepância nos níveis de habilidade era ainda mais evidente nos combates contra chefes, onde eu invariavelmente era o primeiro a tombar nos momentos iniciais. Os papéis haviam se invertido e o aprendiz era o mestre agora.

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Essa dualidade de funções serviu também para eu prestar atenção no que talvez seja a falha mais gritante de A Hat in Time: o jogo não foi pensado ou sequer adaptado para ser jogado em dupla. Não apenas sua dificuldade despenca com dois personagens em cena como tampouco há qualquer momento que exija um colaboração fina entre os jogadores. Não é possível nem mesmo catapultar um jogador para longe, fazer combos de habilidades ou ajudar alguém a realizar um pulo mais difícil, como costuma acontecer em títulos cooperativos do gênero.

Além disso, há falhas graves de câmera para o segundo jogador. Ou talvez elas sejam específicas para quem utiliza o controle, como aconteceu com meu filho. E bugs onde o segundo jogador cai para fora do mapa ou fica travado em objetos sólidos. Recentemente, o jogo ganhou também um modo cooperativo na mesma tela e nós não conseguimos sequer imaginar como alguém conseguiria jogar assim, quando é possível que os personagens estejam virados para direções diferentes mas a câmera é a mesma para os dois.

Apesar dos problemas do modo cooperativo, avançamos sem empacar em praticamente nenhum momento. Meu filho me mostrava novos mundos e eu retribuía traduzindo os diálogos e explicando as piadas.

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Em A Hat in Time você controla uma (ou duas) menina(s) que navega(m) pelo espaço-tempo em uma nave que sofre um acidente na periferia de uma dimensão ou algo assim e seu combustível, ampulhetas de controle do tempo, vaza por toda parte. É a desculpa para se visitar os planetas mais exóticos possíveis procurando reunir todos os artefatos, assim como reunir os novelos de lã necessários para criar chapéus que habilitam super-poderes. Como todo bom jogo de plataforma, a lógica é o que menos importa. O que realmente tem algum significado é a criatividade para gerar um mundo controlado por uma Máfia incompetente, um outro mundo que é uma versão distorcida de Hollywood dominada por pássaros falantes, outro que se inspira em histórias de terror e mais. Em suas viagens você irá esbarrar em corvos detetives, um gato cozinheiro frustrado, guaxinins sonâmbulos flutuantes (?!) e outras esquisitices, incluindo aí uma terceira menina, de bigodes, que se torna um ponto importante no desenrolar do enredo.

Nada disso funcionaria sem o charme injetado nesses mundos e seus habitantes. Carisma é a alma do negócio e a desenvolvedora tem domínio da técnica. Ainda assim, não há como não mencionar a escorregada forte na fase da mansão mal-assombrada, que exagera na tensão e se torna um segmento mais perturbador do que precisava ser e a única fase em que meu filho, jogando sozinho, teve dificuldades de passar, a ponto de me pedir a ajuda e uma consulta em um walkthrough.

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Entretanto, mesmo as coisas boas tem um fim e A Hat in Time acabou se mostrando mais curto do que eu imaginava. Parte dessa sensação tem a ver com o ritmo pesado que meu filho impôs em nossa caminhada, mistura de experiência prévia e precisão absurda nos saltos. Ainda assim, a campanha é bem menor do que outros jogos similares, principalmente se o jogador não está interessado em platinar nada, somente em seguir o enredo. Há até níveis extras de desafios, mais abstratos e sem NPCs, mas seu foco em mecânicas os tornaram desinteressantes para mim e meu filho.

Expandindo os Horizontes

O que nos leva ao DLC oficial Seal the Deal, oferecido gratuitamente por 24 horas no lançamento. Como pão-duro convicto e sempre atento a ofertas, peguei a expansão no minuto que foi liberada.

O novo mundo reúne em um único cruzeiro pelo alto mar quase todos os principais personagens anteriores, funcionando como uma espécie de episódio especial de férias de A Hat in Time. E introduz novos e carismáticos NPCs, como as foquinhas fofas que são funcionárias atrapalhadas do navio e o capitão, uma morsa mal-humorada, mas de bom coração.

O mapa é satisfatoriamente grande e o DLC é dividido em três capítulos, separados por eventos. Lamentavelmente, foi o momento de saturação para nós. O segundo capítulo obriga os jogadores a realizarem uma sequência de tarefas de "pegue-isso-entregue-ali" espalhadas por todo o barco com um limite de tempo frustrante.  Nos fóruns do jogo, não são poucas as reclamações sobre o mesmo episódio. Após quase dez tentativas de completar a fase, com variados resultados e desgastes, concordamos de bom tom em terminar por ali nossas aventuras em A Hat in Time.

Só que não.

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A Hat in Time é um jogo bom demais para se despedir com o gosto amargo de um DLC desbalanceado e resolvi instalar também um punhado de fases extras do Workshop do Steam. Felizmente, a comunidade não decepcionou, ainda que o tempo de carregamento de cada mapa seja absurdamente alto. A falta de novas histórias ou personagens foi compensada por níveis divertidos de jogar, ainda que curtos. Não por acaso a intenção da Gears for Breakfast é combinar os melhores mods e lançar na forma de um DLC 2.

Nossa estadia por aqui terminou, mas uma nova espera começou: por um mítico, mas desejado A Hat in Time 2.

Ouvindo: Dave Gahan - She Said
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Um comentário:

  1. Lendo sobre sua dificuldade na hora dos saltos sincronizados, eu me lembrei de um jogo que estava há um tempinho nas minhas pendências mentais: Crypt of the Necrodancer, já ouviu falar? Acabei de testá-lo, está em promoção no STEAM por menos de R$6. É um baita joguinho legal e possui opção para duas pessoas jogarem simultaneamente. Duvido que seu filho não vá curtir. Muito bom pra treinar a sincronia entre ouvido e dedos.

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