Quem é Lara Croft? Para muitos jogadores, ela foi o primeiro ícone feminino de poder, uma heroína, um exemplo a ser seguido. Para outros, foi um dos primeiros ícones sexuais saídos de um jogo eletrônico, um fetiche digital que ganhou forma de culto e as formas de Angelina Jolie. Para muitos, uma decifradora de enigmas, uma exploradora de tumbas e mistérios, uma solucionadora de puzzles, uma aventureira.
Lara Croft foi tudo isso e mais um pouco.
Agora, a mesma empresa que colocou a personagem no mundo resolveu reinventar Lara Croft. Os tempos mudaram, a arqueóloga também.
Tomb Raider, o jogo, é uma maratona frenética de sequências de ação, sem tempo para muitos diálogos, sem tempo para enigmas, sem tempo para fetiches e tempo de sobra para perigos, tiroteios, pulos impossíveis, ossos quebrados, feridas e mortes, muitas mortes. Essa definitivamente não é a Lara Croft dos anos 90, nem no começo do jogo, quando ela é uma moça frágil, mas determinada, insegura e até ingênua, nem no final do jogo, com duas centenas de mortes nas costas e apenas meia dúzia de tumbas mais ou menos exploradas.
Com muito sofrimento, mas muito sofrimento mesmo a protagonista ascende da posição de donzela em perigo para o papel de John McCLane da selva. Chega um ponto em que os inimigos passam a ter medo dela e admitem que a miúda Lara Croft e seu arco é um perigo a ser eliminado. O que não faz o menor sentido, mas ainda assim é delicioso, um survival horror às avessas, onde você é o predador e os outros suas vítimas. A própria arqueóloga se assusta com a facilidade com que passa a matar sem sentir remorso.
Mas os roteiristas não tem pena da personagem ou do jogador e enfileiram ameaças após ameaças no caminho. Alguns momentos são de tirar o fôlego e não fariam feio nos primeiros filmes da série Duro de Matar. Para evitar que tenhamos uma crise de pressão alta, Tomb Raider intercala esses momentos com cutscenes, exploração e o bom e velho, mas às vezes cansativo, tiroteio básico. Para logo em seguida jogar Lara Croft de alturas inimagináveis em paisagens belíssimas ou exigir reflexos de ninja para não sermos contemplados com detalhadas e violentas cenas de morte e mutilação. Tomb Raider peca pelo extremo e chega a beirar o gore.
Em minha análise preliminar, reclamei das cutscenes, dos QTEs e do respawn frequente dos inimigos. Como se tivessem lido minhas queixas e voltado no tempo para consertar, a turma da Crystal Dynamics pisa no freio em todos esses quesitos logo depois e deixa o jogo rolar macio.
No final da via crucis, nasce uma sobrevivente. Para o bem ou para o mal, Lara Croft se torna novamente relevante para o cenário e seu próximo jogo chegou a propiciar uma confusa guerra de exclusividade entre plataformas.
Não conheci a Lara Croft do passado. Mas gostei de entrar em sua nova pele, sangrar com ela, realizar o impossível e sair do outro lado salvando o dia. Podem ter existido várias Lara Croft, e essa é justamente a natureza dos mitos.
4 Comentários
Mas achei o Roth bacana e senti a morte dele. Ou do capitão do navio. O resto do elenco está meio apagado mesmo.