Estava conversando com meu filho ontem de noite sobre como recentemente jogamos e terminamos três jogos tristes: Submerged, Brothers - A Tale of Two Sons e Papo & Yo (análise em breve). Contei para ele que existem jogos sobre quase todo. Tem jogos que te fazem pensar, tem jogos que são tristes, tem jogos que dão medo.
E tem jogos felizes.
Tcheco in the Castle of Lucio é um destes títulos felizes. Talvez um dos mais felizes que já passou por aqui, porque claramente seu único desenvolvedor se divertiu pra caramba em produzi-lo e esperava que você tivesse um sentimento latente de despreocupação, enquanto desbrava este estranho castelo onde nada faz sentido, onde a insanidade trabalha em prol da diversão.
Mais do que um jogo feliz, Tcheco é uma homenagem sincera a um tempo em que não havia jogos tristes, nem jogos que te faziam pensar. Uma época em que a lógica dos mundos era largada de lado e um encanador bigodudo que nunca consertou uma descarga na vida podia se tornar um herói de uma geração esmagando tartarugas, fugindo de balas gigantes e disparando bolas de fogo enquanto procurava uma princesa em outros castelos. Uma época em que ouriços azuis corriam em alta velocidade e todo mundo achava normal.
Neste Castelo do Lúcio (ou do Sarney, como era originalmente, mas cujo nome mudou para evitar problemas, provavelmente) nenhuma sala se conecta com a outra, nenhuma tela possui um tema unificado. Você desvia de nadadoras com sobrepeso, do fantasma de Groucho Marx, invade um cofre de banco e sai pelo nariz de uma estátua gigante. Espere o inesperado.
Sem saves, sem checkpoints, o desafio aqui é vencer as 65 salas de uma vez só. Algo que alguém com talento para plataforma pode fazer em 12 minutos. A paciência do meu filho se esgotou talvez na quarta sala. O nível de dificuldade que o Tcheco exige é demais para sua sensibilidade de quem nasceu já no século XXI. A curiosidade nos impeliu. Eu jogava. Ele assistia. O "jogo do Tcheco" virou uma piada interna nossa. Antes de cada sessão de jogo eu sempre pergunto para o meu filho: "o que você quer jogar?". Independente da resposta dele, eu fingia escutar "jogo do Tcheco" e clicava no simpático ícone que traz a cara do protagonista. Cinco, dez minutos depois, meu progresso era mínimo (ou nulo), mas rendia boas risadas. E assim, fomos progredindo talvez até a sala 20 (o nível depois das nadadoras - só cheguei lá uma vez e morri tão rápido que nem lembro sobre o que era).
A piada se acabou quando resolvi ver no YouTube o quanto ainda faltava. Faltava muito. E algumas salas, só de olhar, eu sentia que nunca teria a capacidade física e mental de passar. Não que eu tivesse a pretensão de concluir as aventuras de Tcheco, mas ter a verdade ali escancarada na minha frente foi um baque bem forte.
Chega a ser irônico que o herói aqui tenha um constante olhar de sofredor. Porque, no final das contas, Tcheco in the Castle of Lucio é um jogo feliz. De uma época mais feliz. De um desenvolvedor feliz com seu trabalho totalmente amador, mas totalmente apaixonado (e apaixonante). E com um preço tão camarada que também pede um sorriso.
Cowabunga!
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