Você provavelmente não sabe, mas existe uma maldição no blog.
E como toda maldição, ela começou com um aspecto positivo. Tive a felicidade de conseguir fazer um bom trabalho por aqui e, como resultado, alguns leitores me ofereceram jogos de graça com um gesto de apreço. Eu não poderia imaginar é que isto viria acompanhado de um contrapeso quase macabro.
Nem todos os jogos eu tive ainda a oportunidade de experimentar. Mas algo estranho aconteceu com aqueles que consegui jogar:
- Rage foi uma doação do Carlos Wilson. E sequer rodou direito por aqui.
- O @magaiverpr me ofereceu o jogo Giants: Citizen Kabuto. Não me agradou.
- O mesmo @magaiverpr me apresentou a World of Warcraft. E não me agradou.
- Esse mesmo sujeito, um incansável otimista, comprou Little Big Adventure 2: Twinsen's Odyssey para eu jogar com meu filho. O garoto não gostou.
- Falando no menino, outro leitor (desculpe, não guardei seu nome!) comprou Monster Loves You, um título fofíssimo que tinha tudo para agradar meu filho. Ele não curtiu.
Há um padrão aqui ou estarei cedendo às garras da loucura?
Pois no mês passado, consegui colocar as mãos em Call of Duty: Modern Warfare, o primeiríssimo Modern Warfare e divisor de águas na franquia, para não dizer no mundo dos FPS. Depois de meses reclamando que a Activision jamais abaixava o preço para eu testar, uma promoção apareceu em um loja especializada em Mac, por cinco dólares. Ativava no Steam e no PC. Solidário da minha angústia, o camarada @raptorhawk comprou o jogo para mim.
E a maldição atacou novamente.
(não) Jogando: Call of Duty: Modern Warfare
Segundo este artigo da New Yorker, um dos pontos centrais para o sucesso dos jogos de tiro em primeira pessoa é a sensação de controle sobre o ambiente que o cerca. Dentro desta premissa, fica meio inexplicável o sucesso avassalador de Modern Warfare no mercado. Para muitos, e os números não mentem, este é o ápice do gênero. Acredito que seria muito mais sensato atribuir esta popularidade à jogabilidade emergente oferecida pelo modo multiplayer, que não experimentei.
Porque no modo single-player, você não tem controle de nada.
Entre o primeiro Call of Duty, um grande salto qualitativo para o mesmo time que criou o primeiro Medal of Honor, e este episódio, aconteceu alguma coisa nas entranhas dos FPS que fez com que eles se afastassem de mim. Acreditei que poderia testemunhar, com certo prazo, o ponto de virada da série, onde a ação frenética do primeiro título se casaria com sequências cinematográficas e o mundo moderno. Ledo engano.
Nos primórdios do gênero, você é aquele exército absurdo de um único homem, que carrega dez armas no corpo, farta munição e consegue por conta própria salvar o planeta. O cenário mudou com o tempo. Com a virada do milênio, você passou a assumir o papel daquele que faz a diferença, o líder da resistência que é um pouco mais sortudo e um pouco mais capaz do que a média dos soldados. A partir de Modern Warfare, você passa a ser o cara que quebra um galho, não fede e nem cheira. "Essa é a guerra", dizem por aí.
Se na Segunda Guerra Mundial, sem mim aqueles soldados russos entocados naquele prédio jamais sairiam dali com vida, em Modern Warfare, eu poderia muito bem ter ficado na base e a história iria se desenrolar da mesma forma.
Eu sou sempre aquele que anda atrás dos outros. Eu não abro portas. Os outros soldados matam todo mundo antes de eu chegar, a menos que o script diga que é a minha hora de fazer alguma coisa. De uma hora para outra, eles deixam ser máquinas de eficiência e ficam só esperando eu eliminar a oposição. Eu não posso escolher a posição de onde eu vou dar cobertura. Existe um ponto marcado para eu usar o sniper, depois que eu mato X inimigos, a ordem é seguir em frente, mesmo que mais inimigos estejam chegando lá embaixo. Se eu usar a flashbang fora de hora, ela não faz diferença. Quando o comandante manda ligar a visão noturna, eu podia muito bem ficar sem ela, porque dá para enxergar bem, até melhor. Não há espaço para improviso, para iniciativa, para surpreender o inimigo. Se você não mexer um músculo e seus aliados morrerem, uma nova leva deles vai chegar. Se você não avançar quando for para avançar, novos inimigos vão chegar também, em um infinito respawn.
Talvez seja emblemático que, em uma das cutscenes, você esteja no papel de uma vítima, indefesa e sem possibilidade de reação, além de mudar o campo de visão. Se fosse possível, o jogo inteiro seria assim. "Senta aí que eu tenho uma história ótima para te contar, mas não toque em nada!".
Modern Warfare tem gráficos belíssimos e posso dizer que não envelheceram. Mas você não tem tempo de ver nada, seu esquadrão já está lá na China e, se você não correr atrás, não vai nem conseguir matar um inimigo que seja. Tem um som excelente e uma trilha que tenta te empurrar para um estado de euforia épica. Mas quando você está tentando ainda achar seu lugar no grande esquema das coisas, é impossível se sentir um herói de verdade. Não me espanta mais que, em Call of Duty: Black Ops, você possa vencer uma missão sem disparar um tiro.
(não) Jogando: Mortyr III
O que me levou, em uma crise de irritação, a instalar Battlestrike: Force of Resistance. E, se você nunca ouviu falar deste jogo, não fará a menor diferença na sua vida.
Para mim, tudo começou com o primeiro Mortyr, que eu comprei em disco. Era um título polonês que tentava pegar carona em Return to Castle Wolfenstein e misturava nazismo com viagens no tempo. É uma bomba, mas foi um grande sucesso na Polônia. Talvez por nacionalismo, talvez pelo preço, talvez por oferecer uma oportunidade de extravasar um ódio ancestral da suástica e tudo o que ela representou para o país.
Apesar do desastre que foi, acabei adquirindo (ilegalmente) Mortyr II. A equipe de desenvolvimento da Mirage Interactive tomou uma overdose de Call of Duty e Medal of Honor e conseguiu entregar um título que deixa seu antecessor no chinelo e consegue a façanha de se equiparar a suas influências ocidentais. É um título que recomendo, com algumas sequências de tirar o fôlego, apesar de um primeiro nível sofrível.
Acreditei que o terceiro capítulo da franquia (comprado no Gamersgate) poderia melhorar meu humor em relação aos FPS militares. E matar nazistas nunca cansa.
Mas eu não sabia que "Mortyr III" não existe. A produtora City Interactive pegou um jogo de outra franquia, Battlestrike: Force of Resistance, e rebatizou como Mortyr III para vender na Polônia. Na minha desinformação, achei que tinha sido o caminho inverso. Enfim, este título não foi desenvolvido pela Mirage Interactive e isto está evidente no resultado final.
Apesar das cutscenes instigantes e da trilha épica, quando colocam a arma na sua mão o que acontece é um passeio por um mal-disfarçado corredor no meio da floresta, de onde nazistas pouco motivados brotam praticamente do nada. Sem cenários rebuscados, característicos do verdadeiro Mortyr anterior ou qualquer novidade, a série dá um gigantesco passo para trás movido pela ganância da produtora. Supostamente, você pode rastejar no meio do mato para que o inimigo não o veja. Mas ele continua enxergando você e atirando, enquanto a vegetação acaba completamente com a sua visão. É ruim nesse nível. Sem muitos lugares para se proteger, todo tiroteio termina em uma troca de balas entre oponentes expostos. O tédio impera e você fica torcendo para que aquela estrada acabe logo. E ela não termina...
Desinstalei os dois jogos. Chega de guerras, por enquanto.
E A Maldição?
Há outros jogos na minha biblioteca que foram presentes. Olho para eles com temor. Estarei condenado a não gostar daquilo que não foi comprado? A carregar a injusta fama de ingrato? Posso jurar que cada um destes títulos foi jogado além do limite que eu jogaria se eu mesmo tivesse comprado: eu estava ativamente tentando enxergar o mesmo que o outro viu, ter a mesma diversão, o mesmo encanto. Mas o destino apronta das suas.
O mesmo @magaiverpr me comprou uma cópia de The Walking Dead, a elogiadíssima e premiada adaptação realizada pela Telltale Games.
Será ela aquela que irá romper o ciclo maldito? Será?
Só 2014 sabe a resposta.

15 Comentários
Não é exatamente infatil, embora pela fofura presente pode ser jogado por crianças sem problema.
Aliás, recomendo que vc tente jogar sozinho Aquino, pois é um título extremamante charmoso e encantador que merece uma chance!
Marcos, na minha análise de To The Moon, eu evitei ao máximo usar o termo "jogo". Para mim, este tipo de produto digital precisa de outra classificação mesmo. Não imaginava era que houvesse todo uma tendência emergindo ali... Particularmente, nunca fui fã dos adventures à moda antiga ("combine 5 pombos, um saca-rolhas e um frasco de perfume para conseguir abrir o armário") e venci muitos apelando para um guia a cada quinze minutos.
Mas... acredito que deva haver espaço para todos os tipos de jogadores. Não me conformo com jogos que não tem uma seleção de dificuldade, cada jogador é único e o fácil de um é o impossível de outro. Assim como surgiram adventures mais tranquilos, tem que existir os hardcores também. Felizmente, me parece que a Daedalus está mantendo firme a tradição, enquanto a Telltale optou por suavizar a jogabilidade.
Michel, pelo o que eu li, do primeiro Modern Warfare para frente, a iniciativa do jogador vai só sendo reduzida mesma. E, se você reclamar, vai levantar uma dúzia para te dizer que ninguém joga o single-player! Rage é Doom em HD com carros? Estou dentro (assim que tiver um PC melhor)!
Ainda sobre facilidade x dificuldade: minha bronca com Modern Warfare não foi nem a facilidade, foi a inatividade. Os primeiros Delta Force eram bem fáceis, mas pelo menos era você no comando do massacre. Em contrapartida, de títulos indie que trazem na descrição frases como "brutally hard", "insanely hard", "like Super Meat Boy" ou algo assim, eu fujo!
Recomendo muitissimo o outro jogo da telltale no universo de fabulas, a historia foi muito bem contada no 1o episodio e parece que vai melhorar muito! =)
Merece um nitro mega penguin de presente.
;)
PS. Twinsen tem tradução.
GV
Ps.: reserve o ano de 2014 para juntar dinheiro e comprar uma máquina melhor. :D