Muitos jogos tiveram a dúbia fama de terem sido os responsáveis pela queda de suas desenvolvedoras. Orçamentos inchados, metas impossíveis, prazos absurdos, falta de liderança, muitos são os fatores que podem transformar um simples título em um destruidor de empresas. Mas neste caso, um jogo chegou muito perto disso por ser bom demais. Agradeça ao bom-senso por nunca ter ouvido falar em Tank Turn Tactics. Ele nunca foi lançado e provavelmente nunca será.
Durante sua palestra na última Games Developers Conference (GDC, para os íntimos), Luke Muscat, da Halfbrick, contou como Tank Turn Tactics mergulhou toda sua equipe em uma bizarra espiral de conspirações, traições e fúria.
Conhecidos por terem lançado títulos de sucesso como Fruit Ninja e Jetpack Joyride, os talentos da Halfbrick estavam trabalhando em um protótipo de um jogo simples de estratégia chamado Tank Turn Tactics. A ideia era criar um título massivo para múltiplos jogadores que fosse tão simples que pudesse ser jogado casualmente por qualquer pessoa dentro do escritório. Com o cenário dividido em um quadriculado de posições, cada participante controlaria um tanque de guerra, representado por um quadrado, com um único movimento por dia. O jogador poderia se mover pelo quadriculado ou tentar acertar um tanque rival e, a cada dia, um novo ponto de movimento seria concedido.
Tudo muito simples, fácil e tranquilo. Até que foi implementado um sistema que permitia ao jogador ceder seu ponto de movimento para outro participante em um quadrado vizinho.
Segundo Muscat, a ideia era oferecer um sentimento de incerteza ao que seria simplesmente um mata-mata. Aquele tanque que se aproxima vai tentar me atacar ou vai me ceder um presente?
Mas a mente humana é um labirinto imprevisível... Jogadores começaram a fazer alianças pelos corredores e organizar estratégias para ceder pontos para um único tanque, para que este obliterasse um tanque que não estivesse na "panelinha". Promessas de ajuda eram quebradas no instante em que o ponto de movimento trocava de dono. Funcionários passavam horas do dia planejando suas ações ou arquitetando golpes. Mesmo pessoas que não estavam no jogo passaram a atuar como "espiões", entreouvindo conversas de colegas de trabalho e repassando os planos de batalha para outros amigos.
Aparentemente, o jogo havia se tornado uma febre, o tipo de resultado que qualquer desenvolvedor sonha em conseguir. Mas começaram a surgir reclamações. Havia pessoas irritadas, muito irritadas, com as reviravoltas que o conflito estava tomando. As relações entre colegas de trabalho estavam se deteriorando e a moral da equipe caía vertiginosamente. Tinha gente que não queria mais aparecer para trabalhar. De acordo com Muscat, "as pessoas não estavam mais confiando umas nas outras e algumas estavam ficando genuinamente chateadas quando seus amigos armavam para destruir seus tanques". Em suas próprias palavras, "deixou de ser divertido". Mais da metade dos participantes respondeu em pesquisa que havia ficado irritada em algum ponto da experiência. Tudo isso em apenas nove dias.
Por decisão de seus criadores, Tank Turn Tactics foi engavetado. Para sorte da Humanidade.
6 Comentários
Continuo dizendo que as pessoas levam os jogos muito á sério.É entretenimento e diversão, nada mais.Existem alguns que conseguem nos entregar algo mais, como uma ótima música , uma ótima história , imagens belíssimas, como uma legítima obra de arte, mas são raríssimas exceções.Na imensa maioria são puro entretenimento e quando começam á despertar sentimentos como os descritos no texto o problema não é exatamente do jogo...
Engraçado. Caso de fogo amigo, também.