Lone Survivor deveria ter feito parte do Outubro do Horror por aqui. De fato, eu comecei a jogá-lo antes de Outubro, mas só consegui conclui-lo no começo desta semana. Por quê? Lone Survivor é insuportável, em todos os sentidos da palavra.
O fragmento de pesadelo que pode ser descrito como um Silent Hill 2D foi concebido inteiramente por Jasper Byrne, um desenvolvedor inglês que já havia criado... um Silent Hill 2 em 2D. De sua mente perturbada saíram a história, os gráficos, a música e a programação de Lone Survivor, uma prova incontestável de que é possível arregaçar as mangas e produzir algo que é superior em muitos aspectos a 90% dos jogos de survival horror.
Com gráficos sujos que não lembram em nada o colorido comum da estética 8-bit, forte uso de desfoque e uma trilha sonora de arrepiar, Lone Survivor conta o tormento de um personagem que pode ser o único sobrevivente de uma praga que transformou a raça humana em monstros disformes. Isolado em seu apartamento, ele precisa encontrar uma forma de sair do prédio, de sair da cidade, de sair de tudo em busca de um lugar melhor. No seu caminho, uma avalanche de mistérios, medo constante e uma enigmática moça de azul que pode ou não ser importante para ele.
A atmosfera de Lone Survivor é opressora. Ao carregar o título pela primeira vez, minha impressão foi de total falta de imersão. "Nem em um milhão de anos eu vou levar este visual a sério" e "isso é a resolução máxima?" foram pensamentos que cruzaram minha mente. Minutos depois, estava roendo as unhas, suando frio e desejando uma paz que jamais viria. Assim como em Amnesia - The Dark Descent, é impossível conduzir uma sessão de mais de uma hora de jogo. Se na obra da Frictional Games, o medo era a emoção mais forte, Jasper Byrne nos apresenta à angústia, um lento e devastador sentimento gerado pela dúvida e pela incapacidade de compreender. Depois de jogar Lone Survivor, eu precisava reunir fôlego para retornar. É uma experiência masoquista. A corrida desenfreada no porão já é um clássico do terror.
Não é apenas o horror que marca presença, mas também o survival. O protagonista do jogo precisa se alimentar e precisa dormir para continuar seguindo frente. É um jogo estranho onde encontrar um bule para poder fazer um café nas ruínas da civilização serve de momento de alívio. A fome e o cansaço serão seus companheiros de jornada. Assim como os monstros, aberrações que não podem ter sido geradas apenas por uma doença. Há algo sobrenatural em ação. Ou insano.
Silent Hill não é a única referência dentro da mente de Byrne. Há altas doses de surrealismo e inexplicado, inspirados na obra do cineasta David Lynch. Uma das alucinações (?) sofridas pelo protagonista é uma clara citação de Twin Peaks.
E foi nesse ponto que minha conexão com Lone Survivor se perdeu de vez. No meio da narrativa me dei conta de que NADA seria explicado. Byrne estava lançando enigmas para todos os lados para pavimentar um atalho para meu cérebro, mas não tinha a menor intenção de fornecer respostas. Eu estava jogando um título tenso onde não via qualquer sinal de redenção ou final positivo para seu protagonista. Depois de um tempo, parei de me importar. Só queria me livrar daquele pesadelo.
Lone Survivor, assim como Silent Hill 2, traz mais de um final e a conclusão deriva não de suas decisões nos últimos dez minutos, mas da forma como você jogou desde o começo. Seus atos denunciam seus objetivos e selam seu destino. O título de Jasper Byrne ainda nos brinda com um relatório de comportamento depois dos créditos finais, enumerando tudo que você fez (ou deixou de fazer).
Acordo com um sabor de estranheza na boca.
Pontos Positivos de Lone Survivor: atmosfera onírica, trilha sonora impecável, enredo que prende. Pontos Negativos de Lone Survivor: excesso de bizarrices, falta de originalidade, final(is) incompreensível (is).
26 Comentários
A história desse jogo é um tipo de Silent Hill 2 em esteroides, o que não é necessariamente uma coisa boa. Boa atmosfera, mas bem curto. Depois que se escapa dos apartamentos o medo se dissipa bastante...
kkkkk
Ri muito quando li isso...
kkkkk
O pessoal desse blog realmente diverte meu/minha dia/noite.
"Qual a nota do jogo?"
Acho que o Aquino não vai dar o braço a torcer dessa vez...
=/
Breno, sobre a parte de jogar furtivamente, você quis dizer o jogo inteiro sendo jogado dessa forma??
De qualquer forma pretendo termina-lo porque achei a trilha sonora absurdamente boa.
E agora sem ter nada relacionado ao post: após ler seu review corri atrás de legends of grimrock durante a sale de outono!
Aquino e Breno, gostaria de saber qual seria a opnião de vocês sobre os diversos finais. Levando em conta todos os desfechos, acham mesmo que tudo não passou de um delírio?
Segue o link:
http://lonesurvivor.wikia.com/wiki/Endings
Por um bom tempo durante o jogo eu acreditei que tudo não passaria de um delírio do protagonista. A cena da festa é uma prova concreta que algo não está certo na realidade ou na percepção da realidade do protagonista. Outro dado que me incomodou durante o jogo foi o título: por que Lone Survivor se, claramente, o personagem principal não é o "único sobrevivente"?
Joguei Lone Survivor de ponta a ponta sem consultar nenhum guia ou análise. Queria sentir a o mesmo nível de confusão do protagonista. Concluído o jogo, pesquisei algumas opiniões e... bem, não há qualquer unanimidade ou teoria que seja capaz de explicar tudo. A ideia do delírio seria a mais fácil, mas também a mais cafajeste. O autor não explicita no final, então, continua em aberto.
Minha opinião? Não existe doença, não existem monstros. O protagonista sofre de alucinações e um grande trauma gerado pela perda da mulher de azul. O Homem Azul e o Homem com a Caixa na Cabeça são fragmentos de sua personalidade lutando pela dominância ou tentando dar conselhos. Mas o que seria o Diretor? O Homem da Face Branca? Não sei responder.
[SPOILER]
Concordo com a teoria de que o protagonista está vivendo um inferno psicológico só dele. As provas para isso são o laudo médico no final do jogo, mostrando todo o seu comportamento como em uma análise psíquica de um paciente, e no momento final em que você vê o protagonista ser preso em um quarto de hospital (seria sua sala no hospital psiquiátrico na vida real?).
O personagem "O Diretor", acredito eu, poderia ser uma pessoa de alta confiança do protagonista na vida real antes de ele ficar doente (um familiar talvez, ou somente uma "âncora" criada por sua cabeça com o propósito tentar resgatá-lo da completa insanidade, dando um pouco de esperança naquele mundo desolado. Isso pode ser provado pelas frases de insentivo que ele dizia ao protagonista como: ...The world is yours, kid. E também por toda a ajuda que oferecia.) ou até seu psicólogo. A morte do mesmo pelo boss "Mother" no final poderia ser uma representação de que a insanidade estaria vencendo novamente, derrotando sua unica chance de se recuperar.
Em um dos finais, que não me recordo qual agora, o protagonista aparece "curado" do seu respectivo "problema" e está em uma colina da suposta cidade devastada pela doença, porém, a cidade está normal. E, o mais intrigante, a "mulher de azul" aparece do lado dele; rola um diálogo entre os dois e dai vem o final.
Não somente nesse final acontece isso. Em outro final, eles estão juntos mas o diferencial se da pela cidade continuar devastada.
Talvez esse seja o diferencial do jogo; passando medo através da dúvida, da confusão, ao invés dos sustos em si.
Se ele entrou nesses delírios por causa da "perda", então porque ela insiste em aparecer nesses finais?
Para mim, nessa parte, minha opnião se divide:
Ou o final do suicídio é verdadeiro, gerando no fato dela realmente estar morta;
Ou ela ainda está viva e o fato dele estar delirando é por outro motivo.
Ainda existe a possibilidade de a infecção ser verdadeira e, por causa de todo o trauma passado por isso, ele começou a desenvolver as alucinações. Mas acredito que isso seria muito simplista para um final; ainda mais estando ao lado dos demais finais.
Você não verificava o rádio quando acordava?!
Nem foi visitar o bendito velho no apartamento?!
Você realmente é estranho, Breno. Rs.
Aquino, com ou sem notas, seus comentários de jogos sempre acabam influenciando algumas compras positivamente. Um dos primeiros desses casos foi um post falando de uma promoção de Psychonauts, lá no longinquo janeiro de 2010. O jogo foi comprado e estava esperando sua vez desde então, acabei de terminá-lo e vai ficar marcado na mente como um dos melhores jogos que eu já joguei na vida. Valeu! =)
No início demora um pouco pra engrenar, mas depois que começa a parte de entrar na mente dos outros, aparecem as sacadas geniais do schafer de como representar uma mente perturbada.