Em 3991, o mundo está dividido em três grandes impérios que travam uma guerra de atrito que já dura milênios. Dezenas de holocaustos nucleares transformaram boa parte do planeta em território inóspito e irrecuperável. Com pouca terra fértil disponível, a fome é uma constante entre a população civil sobrevivente. A máquina militar continua sua infinita produção de novas armas de guerra, por que interromper a escalada é demonstrar fraqueza para o inimigo e fraqueza é punida com um ataque. Armistícios são violados em questão de horas e exércitos inteiros são aniquilados pela força de bombas atômicas. Não há esperança. Não há paz.
Se você achou que o parágrafo acima é o resumo de um novo filme ou livro de ficção-científica barata, errou redondamente. É uma história verídica em um universo virtual até pouco tempo atrás confinado no computador de um certo Lycerius. Por dez anos, esse jogador tem conduzido a mesma campanha em Civilization II.
A princípio, ele queria ver o quão longe no futuro o jogo poderia continuar avançando suas civilizações e o que poderia advir disto. O resultado é um save game único onde o mundo estagnou em uma guerra sem fim entre três superpotências e que resiste fatidicamente a toda e qualquer tentativa de pacificação. Celtas, Vikings e Americanos (estes controlados pelo jogador) são os últimos povos que sobraram, os demais assimilados em diversas conquistas. Os dois primeiros são Teocracias e os Americanos agora são uma nação comunista. Ironicamente, Lycerius preferia manter a Democracia como forma de governo, mas a lentidão do Congresso estava atrapalhando seus planos de guerra.
No estado atual em que o jogo se encontra, todas as civilizações já desenvolveram todas as tecnologias e o equilíbrio de guerra permanente se estabeleceu. Nenhuma potência tem superioridade sobre a outra. Com o derretimento das calotas polares pós-guerra nuclear, boa parte do planeta está inundado e/ou radioativo. 90% da população mundial morreu de fome ou por contaminação. Para corrigir o problema do solo, seria necessário alocar engenheiros para a tarefa, mas os engenheiros estão ocupados demais construindo estradas para os tanques atingirem a linha de batalha. As estradas são bombardeadas constantemente, então o trabalho dos engenheiros nunca termina. A vida nas cidades também não é fácil: espiões inimigos plantam dispositivos nucleares que causam destruição em massa. Em um jogo normal de Civilization II, este ato de terrorismo tem como desvantagem colocar todas as nações do mundo em estado de guerra contra o praticante. Como este já é o status quo do mundo, não há entraves para o uso generalizado de terrorismo atômico.
Lycerius sonha nos próximos anos conseguir restaurar a paz. Transferir os engenheiros para drenar os pântanos, descontaminar o solo e permitir a construção de fazendas, repovoar.
A bizarra saga deste planeta aparentemente sem solução apareceu originalmente no Reddit. Em poucas horas já tinha milhares de visualizações, no dia seguinte ganhou sua página própria no sistema. Uma comunidade de voluntários se construiu para tentar devolver a paz pelo menos para este mundo virtual. Já existem mais de 14 mil inscritos no grupo. Se fala na produção de um livro, as histórias pipocam por todos os lados. Foi criada uma petição para que The Eternal War seja fornecido como um DLC para Civilization V. Versões abandonware do jogo para PC e Mac estão sendo oferecidas na cara-dura. O save game que deu origem a tudo está disponível para quem quiser se aventurar neste impasse.
Sid Meier, o gênio por trás da série Civilization, se revelou surpreso com a odisseia de dez anos deste mundo distópico. "Meu primeiro pensamento foi 'caramba! Eu não acredito que alguém está jogando Civ II por tanto tempo'. Faz mais de quinze anos desde que nós lançamos aquele jogo, e eu não acho que nenhum de nós esperava que uma partida de uma década de duração fosse sair daquilo". Meier ainda aproveitou para vender seu peixe e afirmou que este tipo de cenário assustador também poderia ser obtido dez anos depois com Civilization V, o mais recente título da franquia.
Quero acreditar que, em algum lugar entre os bits e bytes do computador de Lycerius, um virtual Winston Smith se questiona a quanto tempo dura esta guerra e quem são seus inimigos.
15 Comentários
Aquino, eu gostaria de ver você descrevendo uma partida de PONG; a riqueza de detalhes que você consegue extrair de simples pixels animados é impressionante! Ou então a minha imaginação é mais infértil que cachorro castrado, pois eu não consigo enxergar a riqueza de detalhes que você consegue enxergar (ou descrever , no caso).
Se ele não tivesse disponibilizado o savegame pra qualquer um baixar e ver com seus próprios olhos,eu acharia que esse "impasse mundial" estaria sendo ligeiramente provocado.
O pequeno mas mortífero pixel branco cruza o vazio escuro. Um movimento mal calculado e será o fim de tudo. O ângulo de escape é inglório e a barra oposta se estica ao máximo, como se pudesse, por mágica, aumentar o seu inexorável tamanho. Mas não é possível. Nunca foi, nunca será. Então ela voa em direção ao pixel que avança implacável. No último espaço possível, a rebatida é feita, enviando a ameaça de volta para seu inimigo. A barra e seu jogador exibem um sorriso passageiro de triunfo. Este foi rebatido, mas é apenas uma breve trégua em um confronto simples mas infindável. O pixel retorna.
P.S: já tava sentindo falta dos posts.
Eu estou ciente de que jogos de estratégia não são minha praia, mas esse texto me deixou com vontade de ver como é esse Civilization II.
Me lembro de Master of Magic,que é Civilization em formato de fantasia! O quantitativo de diversão e complexidade que vc pode extrair de um joguinho de uns 10 megabytes de 1992 não ta no gibi!
Breno eu sei que você não valoriza apenas os gráficos , pelo contrário , e você já deixou isso evidente em diversos comentários seus (sim, eu os leio).Mas confesso que o meu primeiro pensamento foi igual ao seu:será que o cara não conseguiu, em 10 anos, contornar esse impasse?Ou será um bug do jogo?Não sei desde quando o savegame dele está disponível, mas acho que alguém ou confirmará o impasse ou descobrirá um jeito de contornar.Vamos aguardar.
com relação a gráficos, é claro que um jogo não pode se basear apenas nisso. é só ver o caso do cinema. quando os recursos eram escassos os criadores tinham que suar a camisa para compensar a falta de "gráficos" com bons roteiros. hoje em dia, na era do "tudo é possível", o que se vê é o oposto: roteiros nada criativos embalados em três dimensões.
Uma coisa é certa, se a industria de jogos continuar nessa obsessão por simplificação e minimo denominador comum, talvez daqui a uns 10 anos Modern Warfare seja lembrado pelo seu publico alvo como o equivalente de Doom!