Acreditei que poderia escrever uma única vez sobre Legend of Grimrock, ao terminar o jogo. Subestimei o poder do jogo e dias depois ainda estava no começo da jornada, cada nível conquistado uma vitória suada digna de ser comemorada. A cada nível mais baixo na descida também vinha a certeza de que do próximo não passaria. Senti que estava na hora de falar deste clássico instantâneo. Mas sempre ponderava minhas opções: escrever sobre a montanha ou retornar para a montanha. Retornar para suas catacumbas escuras e guiar meu determinado grupo de fugitivos sempre vinha na frente. Estou agora na metade do RPG e não dá mais para adiar esta postagem...
Legend of Grimrock toma para si a difícil tarefa de conciliar o passado e o presente. De um lado a jogabilidade passo a passo de um Eye of the Beholder, de um Dungeon Master, onde sua movimentação acontece aos solavancos por um espaço limitado. Difícil de descrever. Se você ainda não viu o trailer oficial, eu recomendo. Do outro lado, gráficos de ponta dignos de jogos caríssimos e uma atmosfera imersiva que te prende como um quinto prisioneiro da montanha maldita. Teria sido fácil para a Almost Human, uma pequena guilda de quatro desenvolvedores finlandeses, ter pego o caminho mais fácil da direção de arte pixelada e embalar tudo com o selo de retrô. Felizmente, eles preferiram atualizar a embalagem e preservar somente a mecânica de vinte anos atrás.
O jogo vai direto ao ponto. A cena de abertura é curta o suficiente para estabelecer a premissa: Grimrock é uma montanha repleta de mistérios e criaturas que foi escavada, transformada em presídio e onde seus quatro personagens são jogados por um buraco no topo para apodrecer ou morrer. Se conseguirem alcançar a base da montanha, descendo todos os treze níveis de armadilhas e monstros, conquistarão a liberdade e o fim da aventura. O tutorial é um dos mais curtos que já vi nos últimos anos e, de fato, não há muito para se aprender de suas engrenagens. O complicado mesmo é sobreviver ao desafio.
Com delicioso saudosismo criei meus quatro prisioneiros: Karkaz, um guerreiro humano; Nacnar, um mago humano; Murky, um guerreiro minotauro; e Skales, um assassino reptiliano. Qualquer semelhança com um RPG convencional termina por aí. Não há interação entre os personagens (exceto aquela que acontece em minha cabeça, mas eu gosto de fazer isso). Não há diálogos, NPCs e nem mesmo a tradicional loja de compra e venda de itens: se um artefato não serve mais pra você, jogue fora. Não há escolhas que afetam o seu destino ou do universo (pelo menos, não ainda). Legend of Grimrock é um jogo tático, onde cada combate é uma questão de vida ou morte, onde é preciso ser rápido para decidir qual é a melhor abordagem, onde a posição dos seus personagens é tão importante quanto a direção de onde vem o inimigo. Tampouco se trata de um festival de cliques! Para minha satisfação, a Almost Human soube capturar o equilíbrio exato entre lutas e corredores mal-iluminados, entre a incerteza a cada esquina e a fuga desesperada em busca de um bom lugar para travar uma resistência.
Fossem os habitantes de Grimrock o único obstáculo entre os prisioneiros e a liberdade, este seria um título menos interessante. Amantes de quebra-cabeças vão atingir o clímax nesses níveis, com diferentes combinações para liberar uma saída e armadilhas de fundir a cabeça. Completando o prazer da exploração, temos segredos bem escondidos que revelam novas armas e itens que irão suavizar a aspereza das batalhas. Descobrir cada segredo existente é quase impossível.
Cercado de corredores de pedra sujos e ouvindo os gemidos e sussurros que parecem brotar de lugar algum, esqueço das horas e de minha sala. Enquanto desço cada vez mais fundo em direção a horrores ainda não vistos, sonhos revelam que há algo mais aprisionado em Grimrock, uma trama que rasteja com lentidão ao meu encontro.
Tenho minhas dúvidas se vou realmente querer ir embora.

13 Comentários
mas quando você diz "não há dialogos" é uma verdade? ou só estava dando enfase na frase? hehe
uma pena de diablo 3 vai ser lançado logo e já não tenho aquele tempão pra jogar várias coisas.
mas gostei, ta na minha lista.
Têm até Mechs!
Quanto tá o dólar hoje mesmo?
Aliás, havia um jogo de super nintendo(se souber o nome por favor se pronuncie XD), que seguia esse mesmo sequema old school, com a mesma câmera(aliás, alguém sabe o nome desse tipo de câmera? Não acho que seja primeira pessoa por que nem mostra mãos nem nada).