(Publicado simultaneamente no Gemind)
Recentemente Star Wars Galaxies, LEGO Universe Online e Earthrise se juntaram a Matrix Online, Earth & Beyond, The Chronicles of Spellborn e tantos outros MMORPGs que tiveram seus servidores desligados. Persistência parece ser a qualidade mais dúbia dos jogos massivos. Ainda que os malabarismos da tecnologia possam fazer com que um jogo de trinta anos atrás continue sendo jogado em computadores atuais, um MMORPG só existe enquanto serviço, só respira enquanto seus servidores permanecerem ligados. Não é raro ver uma comunidade de jogadores sobreviver a um tÃtulo extinto, incapaz de voltar a trilhar os caminhos que tanto conhecia.
A eternidade é possÃvel? Ou somente nas lembranças?
Desafiando a lógica comercial e o destino de vários de seus sucessores, o primeiro de todos os MMORPGs ainda está ativo. Desde 1996.
Jogo Imortal
Meridian 59 é considerado por muitos como o primeiro jogo gráfico 3D para múltiplos jogadores online. Sua história em si daria um bom filme. Ou jogo. No inÃcio dos anos 90, os irmãos Andrew Kirmse e Chris Kirmse, jovens estudantes de tecnologia americanos, estavam fascinados por um RPG eletrônico chamado Scepter of Goth, um MUD de texto puro que os acompanhou durante a adolescência. Após um estágio na Microsoft e acesso à s versões preliminares do Windows NT e do Windows 95, eles concluÃram que o futuro não estava mais em telas escuras com texto em branco. O futuro era gráfico.
Durante o verão de 1994, os irmãos Kirmse investiram todos as suas economias em poderosos equipamentos de desenvolvimento: um par de Pentiums 66 com 16MB de RAM cada e discos rÃgidos de 500 MB. O irmão mais velho tinha 21 anos. O mais novo, 19. Apesar de serem programadores, nenhum deles tinha conhecimento profundo sobre gráficos ou redes. E estavam tentando criar algo inédito: era Meridian 59. Seguiram em frente. Com a ajuda dos também irmãos Mike e Steve Sellers, eles conseguiram a grana necessária para fundar a Archetype Interactive. No ano de 1995, o time cresceu. Entre os novos entusiastas estavam Damion Schubert e Rich Vogel, ambos hoje na equipe de produção do multimilionário Star Wars: The Old Republic.
Meridian 59 também crescia junto com a empresa: quando o primeiro servidor foi ligado para testes, o jogo só aceitava quatro jogadores; a versão alpha, lançada no final de 1995, suportava 35 usuários; a versão beta, de 1996, aceitava centenas de jogadores. E eles vieram. Com uma propaganda boca a boca se espalhando pela internet, centenas e centenas de jogadores já estavam online quando o beta foi ligado. Ao contrário de MUDs gráficos da época, que apenas exibiam imagens em 2D, Meridian 59 provava que era digno de DOOM e trazia cenários em 3D, com sprites de monstros e personagens, um recurso popularizado por Duke Nukem 3D somente no ano seguinte.
A ousadia dos Kirmse chamou a atenção da produtora 3DO, que comprou a Archetype Interactive por 5 milhões de dólares em ações, colocou Meridian 59 em uma caixa para vender e passou a cobrar 10 dólares mensais de assinatura. O lançamento comercial foi em 27 de Setembro de 1996. O termo MMORPG ainda seria cunhado por Richard Garriott e seu famoso Ultima Online quase um ano depois, mas Meridian 59 já tinha sido o pioneiro.
Infelizmente, nem tudo foi um mar de rosas para Meridian 59. A 3DO estava em seus últimos anos de vida, após uma fracassada tentativa de lançar um console. Os cinco milhões de dólares em ações pagos à Archetype Interactive desvalorizaram 75% no ano seguinte. Nenhum investimento em marketing foi feito, nenhum reforço da 3DO em termos de mão de obra foi enviado para a Archetype, os contratados tiveram que ser mandados embora. Desanimados, os irmãos Kirmse saÃram em 1997. Os demais funcionários partiram aos poucos e, em 2000, não havia mais ninguém na equipe que tivesse trabalhado no desenvolvimento do jogo. Embora o MMORPG tivesse a impressionante marca (para os padrões da época) de 10 mil assinantes, a 3DO cancelou o tÃtulo em 31 de Agosto de 2000. Três anos depois, a própria 3DO abriria falência, sem pagar os funcionários.
Meridian 59 poderia ter se juntado a tantos outros universos extintos se não fosse a dedicação dos fãs e de dois programadores.
Enquanto os fãs americanos migravam em massa para servidores alemães que continuavam operando sob um contrato antigo da 3DO, Rob “Q” Ellis II e Brian “Psychochild” Green, ex-desenvolvedores da Archetype Interactive, fundaram a Near Death Studios, no ano de 2002. A dupla fez o inesperado: comprou de volta os direitos de uso da franquia. Eles não queriam apenas religar os servidores oficiais, mas atualizar a engine do jogo, que já dava sinais de cansaço após tantos anos. Retrabalhando os gráficos para algo compatÃvel com o Direct3D, a Near Death Studios fez Meridian 59 pular de um visual tÃpico de 1994 para algo menos inadequado em 2004, quando foi relançado.
Mas o momento de Meridian 59 já havia passado e o hiato de 4 anos em sua existência foi cruel com a base de usuários. Para piorar as perspectivas, o cenário dos MMORPGs seria permanentemente abalado naquele ano de 2004, com a chegada de World of Warcraft. A Blizzard deixou claro que nada mais seria como antes. Mesmo assim, essa Nova Era de Meridian 59 conseguiu arrematar 2 mil assinantes em 2005, o suficiente para que a Near Death Studios contratasse mais cinco profissionais para cuidar do jogo.
Durante um tempo, a empresa implementou mudanças e novidades em Meridian 59 e uma continuação chegou a ser planejada. Mas não saiu do papel. Em 2010, a Near Death Studios anunciou o impensável: iria fechar as portas. Em uma reviravolta que parece tirada de uma história de ficção, Meridian 59 retornou para o controle dos irmãos Kirmse. Mais: ficou decidido que o primeiro MMORPG seria gratuito para todos os usuários, sem taxas escondidas, sem microtransações, nada. Todas as despesas seriam pagas com doações espontâneas ou com o dinheiro do bolso dos Kirmse. Para uma pequena e fiel comunidade de usuários, estão sendo mantidos dois servidores permanentemente ligados nos Estados Unidos.
No exato momento em que escrevo esta postagem, o site oficial do Meridian 59 está inacessÃvel, ainda que o serviço Down For Everyone or Just Me informe o contrário. O último cache do Google data de 26 de fevereiro. Um fim melancólico para a epopeia? Não ainda. Não para Meridian 59. Entrei em contato com Greg Shaver, responsável pelo fórum oficial e ele me garantiu que o jogo está funcionando normalmente ("Still alive and kicking").
Gigante Envelhecido?
World of Warcraft, o lÃder do gênero, assinala, pela primeira vez em sua carreira de quase 8 anos, uma evasão significativa. A perda de 100 mil assinantes entre Novembro de 2011 e Fevereiro de 2012 pode parecer pequena diante de um universo de mais de 10 milhões de usuários, mas também significa que o crescimento do gigante foi interrompido. Pior: um milhão de novas assinaturas foram obtidas através do novo passe anual, que traz como atrativo o futuro Diablo III de graça no pacote. O buraco atual de World of Warcraft pode ser mais profundo a longo prazo. Longe se foi o tempo do recorde de 12 milhões de assinantes em 2010.
Com o número de participantes ainda na casa dos 8 dÃgitos, é inegável que o MMORPG da Blizzard ainda tem muito fôlego pela frente, com pelo menos uma expansão planejada para prolongar a jogatina. Será eterno? Sobreviverá por 16 anos como Meridian 59? Teremos dois servidores rodando o jogo em 2020? Se depender da paixão de boa parte de seus assinantes, todas as respostas são “sim”. Mas o tempo costuma ser um implacável inimigo… Que o digam Star Wars Galaxies, Shadowbane, Tabula Rasa, Dungeon Runners, Earth & Beyond e outros tantos sepultados em máquinas formatadas para sempre.
12 Comentários
http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2012/02/blizzard-demite-600-funcionarios-nos-estados-unidos.html
A questão é que WOW já declina em numero de assinantes faz tempo, tanto que nem me espanta essas demissões.
Agora, a Blizzard assim como a VALVE só lança produtos de qualidade, o problema é que demora muito também pra lançar alguma coisa!
A Blizzard nadava em dinheiro com o WOW, tanto que se lixava pra lançar jogos novos...talvez agora se obriguem!
Quanto á Blizzard e seu WOW eu vejo isso com naturalidade.A oferta de MMORPG gratuito só faz crescer e é mais que óbvio que uma hora ele iria começar á cair.Alguém dirá que a qualidade dos gratuitos não é a mesma de uma "superprodução".Pode ser , mas eu encaro jogos como uma fonte de diversão e entretenimento e se ele proporciona isso , dane-se gráfico realista , fÃsica realista , história altamente elaborada ou qualquer outro argumento que alguns usam para engrandecer um tÃtulo em detrimento de outro.
Uma expansão pode ser um DLC mas um DLC nem sempre é expansão!
Tem muito jogo onde o DLC é uma arma, uma skin, um carro, etc...
Já uma expansão são novas fases, novos cenários, novos inimigos, etc... ás vezes com duração similar ao do jogo principal.
Recentemente baixei um jogo chamado Spiral Knights pelo Steam e FREE. OK , é um jogo até que legal com caracterÃsticas de RPG mas eu só posso ir descendo os niveis se tiver , se não me engano, moedas.Iniciamos com uma quantidade limitada dessas moedas e quando elas acabam - geralmente com 1 hora de jogo - só podemos continuar jogando se comprar-mos com dinheiro "de verdade" mais moedas.Ou esperar o dia seguinte.Quer dizer, quem criou o jogo disse - "sim , é grátis, mas você só pode jogar até onde deixamos.Ou então pague pra jogar mais um pouquinho nosso jogo gratuito"".É claro que não gostei.E pra piorar ontem eu vi que existe um DLC pra ele á US$ 3,99. DLC pago pra um jogo capado que se diz gratuito?alguns dirão "-Tadinhos, eles têm que se manter de alguma forma!" e eu digo , sim é verdade , por isso é que eles criam essas "arapucas" pra nos pegarem.E ainda vêm o criador de Infinity Blade dizer que estamos na "era de ouro dos games".Sim, é verdade também, jogos a preço de ouro.Desculpem-me o excesso , mas acho que nem o preço alto da gasolina me deixa tão indignado.Ou talvez porque não tomei meu tarja preta ainda.