Escrever sobre a impressão inicial de um jogo é sempre um negócio arriscado. Pequenos detalhes que incomodam no começo podem se tornar irrelevantes para a experiência final, espanto diante de um novo universo que se abre pode virar naturalidade, entraves na jogabilidade são superados com o hábito, características legais podem ser destruídas pela repetição. Dito isso, trago aqui a uma análise da minha primeira hora do primeiro Assassin's Creed, do remoto ano de 2007. Desde então, a franquia deu uma guinada, já está se encaminhando para o seu quinto título e se tornou a galinha dos ovos de ouro da Ubisoft. Altair, o protagonista do primeiro jogo, nem é o mais importante da saga, sendo substituído sem nenhuma pena por Ezio. Mas eu acredito que se começa pelo início. E o preço da Fullgames 100 era imperdível.
E a edição vendida pela Fullgames é a chamada Director's Cut, exclusiva para PC e com alguns extras que ainda não sei quais são. Para uma versão "exclusiva" para PC, fica claro desde a primeira mensagem de "Press Any Key" que se trata de uma conversão do console. Toda vez que eu começar o jogo, terei que apertar uma tecla a mais porque ele não começa direto no Menu Inicial, como se eu tivesse algo mais a fazer do que ficar olhando para a mensagem. Mas nada se compara à infinita sucessão de botões para pressionar para sair do jogo. Até selecionar novamente o perfil criado eu preciso fazer para voltar ao desktop! Tem horas em que dá vontade de apelar para o ALT+F4.
O tutorial é possivelmente um dos piores já vistos, com um excesso de informação jogado em cima de você em tempo mínimo. Assassin's Creed tem mais opções de ação do que seu jogo tradicional (e isso é bom), mas a orientação é um rápida e boa parte dos comandos são esquecidos minutos depois. Para complicar a situação e a compreensão da trama, um dos grandes trunfos da série, a Ubisoft escolheu produzir o jogo sem legendas. Mesmo aqueles que conseguem entender inglês de ouvido terão pela frente um de seus maiores desafios: sotaques estrangeiros, conversas entreouvidas e abafadas, alguns termos medievais. Quem não consegue tirar de ouvido, vai atravessar o jogo sem entender nada e há muito para se entender.
Minha falta de familiaridade com os controles gerou até uma cena digna de pastelão. Caminhando pela cidade, incumbido de furtar um documento importante de um mercador, ao invés de "marca-lo" para executar a ação, acabei por desferir um impactante e direto soco no queixo de uma pobre mulher que nada tinha a ver com a história. Obviamente, os guardas ficaram enlouquecidos e pediram a minha pele...
Para um título com quase 5 anos de idade, Assassin's Creed traz gráficos de cair o queixo. A grandiosidade das paisagens e o detalhamento das texturas já valem a viagem. Graciosamente, a Ubisoft não se contentou em produzir somente um prodígio técnico, mas também há em ação uma direção de arte que sabe o que está fazendo. O uso do "glitch" na imagem para indicar que existe um outro ângulo de câmera disponível na memória de Desmond Miles é uma das boas sacadas que combinam a narrativa com a arte, assim como o uso ofuscante (e opressor) de branco nas sequências do mundo real, os suaves tons de azul dentro do Animus enquanto se faz a transição e a preponderância do marrom e do sépia nas partes do passado (como que emprestando realismo ao seu universo). É uma pena que ocasionalmente a sincronia labial dos personagens deixe a desejar e quebre a imersão conquistada pelo ambiente.
Ao misturar ficção-científica com um período histórico raramente explorado pela maioria das mídias, a Ubisoft surpreende com um enredo pouco comum que abre muitas possibilidades a se explorar. A presença de legendas ajudaria na compreensão, mas o que eu consigo capturar demonstra que o jogo tem um foco satisfatório na história. A simples utilização de um cenário não-ocidental e cercado de mistérios já garante um ponto pelo risco. Mas parece que temos também uma jornada de personagem: Altair, arrogante e impulsivo, aprende uma dura lição no começo e perde boa parte de suas habilidades, obrigando o jogador a se colocar no papel de alguém que precisa recuperar sua honra, suas armas e forças e aprender a ser humilde. Enquanto o clichê dos jogos sempre apresenta um improvável herói frágil que começa com uma faca de cozinha e uma missão impossível e vai crescendo depois disso, aqui temos um protagonista pleno, o melhor no que faz, que perde tudo e é obrigado a recomeçar no nível mais baixo. Faz um pouco mais de sentido do que um Batman, veterano da guerra contra o crime, que "desbloqueia" golpes sem razão aparente.
Ainda tenho muito chão, muitas conspirações e muitos botões para apertar pela frente. Por enquanto, esse mergulho na memória genética do pobre Desmond Miles tem sido, apesar dos solavancos, uma viagem enriquecedora.
36 Comentários
Apesar de caprichar nos detalhes, o jogo em si é repetido ao extremo, parece a mesma missão do começo ao fim.
Além de não se ter a opção de legendas, se não me engano é impossível pular os enormes cinematics também...
Tempos depois baixei o AC2 para o meu filho jogar, olhei de longe, desinstalamos e nunca mais baixei ou comprei nada dessa série, o sucesso dela por algum motivo não me seduz!
Aquino, sei que você têm o Dead Space 2 e já fechou o 1.Acabei de fechar o segundo e só te digo o seguinte: é INCRÌVEL!Com certeza é melhor que o primeiro (apesar deste já ser ótimo também).
também senti os mesmos problemas que você quando joguei o jogo pela primeira vez, em 2009. a falta de legendas é algo que me irrita profundamente em um jogo. a essa altura do campeonato, os desenvolvedores já deviam saber que um jogo sem legendas é um jogo incompleto, pois até mesmo os nativos da língua vão perder algumas coisas (como o caso das expressões medievais que você citou).
quanto ao Batman, acho que você foi meio cruel com o cavaleiro das trevas (acho que o Aquino não gostou mesmo desse jogo). mesmo sendo um super ninja treinado em todas as artes marciais conhecidas, o Batman está dentro de um jogo, com regras e mecânicas próprias. é o mesmo caso do Megaman: ele coleciona as armas dos inimigos só pra perdê-las no jogo seguinte (um caso crônico de memória volátil). totalmente sem lógica. mas qual seria a graça de um jogo de megaman em que você não pode colecionar as armas dos inimigos porque ele já veio com todas as armas do outro jogo?
Só uma coisa, Altair está longe de ter a simpatia dos fãs e Carisma que Ezio tem, mas é o personagem mais importante da trama depois do (infelizmente chato) Desmond, conforme for jogando a continuação verá. É uma das minhas fanquias preferidas nessa geração apesar da forma mercenária que a Ubi está cuidando dela, lançando um por ano praticamente.O mais recente, Revalations decepcionou muita gente e a empresa vai ter de suar pra continuar inovando com prazos tão curtos. Pessoalmente preferiria que os jogos seguissem a linha do Livro "AC Renascença" contando apenas a história de uma geração sem mencionar a viagem que é esse lance da mamória genética de Desmond
Marcos, estou louco para jogar Dead Space 2. Mas são tantos jogos para escolher...
Shadow, algumas mecânicas de jogo funcionam bem, outras quebram a imersão. Até hoje eu não engulo qualquer caça por troféus e itens escondidos em cenários! Mas Batman AA ainda é superior a Assassin's Creed em diversos outros aspectos, pelo que pude perceber até agora.
Breno, reparei justamente nisto! Como o Altair fica escondido na multidão com uma espada na cintura e uma besta pendurada nas costas? Mais faquinhas espalhadas pelo corpo?
Jimmy, a respeito do Dear Esther: eu joguei o mod no ano passado, mas não consegui avançar muito. Sem legendas, não entendi o propósito. Alguém sabe se o jogo "completo" tem legendas?
LocoRoco, mandou bem! Assassinar foi muito chato. E fiquei impressionado o quanto pode falar um homem à beira da morte. Legal é a consideração dos guardas ao redor que esperam o moribundo dizer tudo que precisa dizer antes de caírem em cima do Altair!
Quanto a parte que Aquino cita sobre o jogo já ser um longincuo jogo de 2007,de la para ca os graficos não evoluiram em nada ou quase nada,bem como outras caracteristicas complexas como AI,fisicas,etc...! Decepcionante...
E sobre Dear Esther,pelo que eu vi aquilo não é um jogo e sim um screensaver com historia!
http://www.youtube.com/watch?v=pSLfxGOPuaA&hd=1
Por algum motivo que não consigo compreender, o youtube diz que este meu vídeo de 5 minutos tem 13 minutos algumas vezes.
Enfim, recomendo o a todos Dear Esther. É uma experiência única.
Um jogo de Stealth baseia suas mecanicas na furtividade durante todo o jogo! Alguns exemplos são as séries Splinter Cell,Metal Gear e Thief(um dos melhores)
O ultimo titulo demorou muito pra lançar e foi bastante criticado por aderir a uma jogabilidade de ação!Talvez seja isso...
"Aliás, alguma franquia já passou bem por 5 episódios"?
Pode-se abordar essa questão na parte financeira e de qualidade,mas como não sou executivo eu vou pela qualidade!
Que eu me lembre teve as series Ultima(Até o 7 titulo,o oitavo foi mediano e o nono um desastre),Wizardry(a empresa fechou no ultimo titulo,mas os fãs sempre gostaram da série),Final Fantasy serie principal(Aclamado até o 12 titulo,criticado no 13),Mario,Ninja Gaiden,etc..
Não falei que AC era um jogo stealth "puro", mas acho que ele se enquadra sim nessa categoria.
Pode até ser que Conviction seja um bom jogo de ação na linha de Gears of War,mas a questão é que ele não deveria ser um jogo de ação e sim um jogo de stealth!A franquia alcançou o pico de qualidade com o Chaos Theory,e de lá pra cá só desandou,além do jogo ter as piores mecanicas de Furtividades do genero(levando-se em consideração o contexto do jogo,não vale comparações com Metal Gear de meados dos anos 90)!
P.s.não joguei Double Agent por ser muito inotimizado para PC!
Eu cheguei a jogar AC1 também em meados de 2010. Joguei por pouco tempo(3 ou 4 hrs) e realmente não me animei nem um pouco em continuar jogando. Era bonito, e o universo exuberante e inexplorado do oriente médio medieval ajudava muito( e não o típico oriente médio que temos em demasia onde você está dentro de um tanque cheio de "camaradas" americanos portando armas pesadas pra inúmeras guerras sem razão aparente em CoD).
E assim como qualquer jogo novo do mario que eu jogo muito casualmente, me sinto totalmente desmotivado a jogar qualquer AC que seja. Também acho abusivo por parte da Ubisoft tornar AC um caça-níqueis e lanças quase 2 titulos por ano, a série perde muito com isso,mas fazer o que, é uma tendência do mercado, é nesse tipo de atitude que a arte conflita com o monetarismo dentro dos jogos. O único mario que realmente valeu a pena(e muito!) minha curiosidade foi o épico mario de N64. E espero sentir a mesma coisa com AC2, mas vou me recusar a jogar o AC1, vou ler o resumo da história em sites e deixar o jogo de lado.
Breno, costumava ver meu primo jogar Thief, e me lembro pelo nome "Thief Gold", é o mesmo? E faz pelo menos 8 anos isso. O jogo é do início da década passada? Realmente estou curioso com relação a ele!
Também com relação ao Charada, que decepção! Eu sou um fã de carteirinha dele desde que me lembro comprando 'gibis' há mais de 12 anos! Desanimei bastante com o último batman depois dessa.
E Aquino, se há um jogo que eu acredito que você possa gostar, é Zeno Clash. O universo é exuberante e tão característico que sinceramente, eu aposto todas minhas fichas de que vai gostar! Ele foi o único jogo que em plena época de vestibular me fez começar a jogar ás 8 da noite e só parei quando reparei o sol nascer, as 9 da manhã. Que tal fazermos um acordo? Eu te dou ele de presente pelo steam e você o analisa quando puder, ok? (:
Acabou que ele está lá, iniciado há anos, justamente pela preguiça de retomar devido a todos os problemas apontados na análise inicial. Só cheguei até Damasco e não fui adiante.
Quem sabe um dia eu junto coragem e volto pro oriente médio? A única motivação é a vontade de jogar os outros que são muito elogiados, mas não gostaria de fazer isso sem ter terminado o primeiro antes.
Poa: Thief Gold é a versão expandida de Thief The Dark Project,com missões ineditas e versões expandidas das misões antigas. O jogo foi lançado em 98(Gold em 99) e é na minha opinião a melhor franquia de Stealth existente(ainda nem terminei o primeiro,mas o que eu já joguei é tão bom que me faz ter essa confiança,pois poucos são os jogos que me fizeram ficar tão impressionado como Thief)!Enfim,recomendo!