Em 1982, eu tinha oito anos de idade. E assisti Tron. Em tributo àquele garoto que nunca deixou de existir, eu escolhi o dia do meu aniversário de 37 anos para assistir Tron: Legacy. O garoto olhou para a tela com leve enfado, seu rosto tão intacto quanto o de Jeff Bridges, preservado em memória, imaculado. Eu virei para o meu eu de oito anos e perguntei a ele o que achava. Ele respondeu com um riso rápido, olhou no fundo dos olhos de sua versão adulta e disse: "não esquenta não, meu velho; nós sempre teremos o primeiro guardado aqui dentro". Da última vez que eu vi, ele saiu gritando feliz da vida em cima de uma moto de luz só se movimenta em ângulos retos, me deixando sozinho para escrever esta análise. Pode conter spoilers.
Tron: Legacy é, ao mesmo tempo, fantástico e chato, respeitoso e covarde, descartável e clássico.
Antes de tudo vale dizer que, ao contrário do que se possa imaginar, Tron:Legacy não é um mero caça-níqueis engendrado pelos barões de Hollywood interessados em espremer o sangue de uma velha franquia. É notável o cuidado de respeitar o trabalho original, de trazer de volta os mesmos veículos, combates e conceitos do primeiro filme. Tudo também foi fortemente repaginado para agregar referências culturais e visuais de Tron, Matrix, Guerra nas Estrelas e seus respectivos clones. As lutas são mais frenéticas, mais picotadas, em mais dimensões. E Jeff Bridges voltou. Se o ator estava em ascendência em 1982, hoje em dia ele é uma lenda viva, capaz de roubar todas as cenas em que participa, seja na forma do Criador Kevin Flynn, seja em seu avatar maligno CLU. É patente sua felicidade em trabalhar na continuação.
Infelizmente, nada disso se sustenta dentro de uma história que, mesmo simplista, é mal resolvida. Há excelentes personagens em cena que poderiam render diálogos magníficos ou levantar questionamentos na mesma linha de Blade Runner e tudo isso é mero pano de fundo para fugas, lutas e luzes. O ator principal não se sustenta por muito tempo ou gera empatia, um hiper-rebelde Anakim Skywalker Sam Flynn que, aos 27 anos, ainda se comporta como tivesse 17. A seu eventual interesse romântico, que não se concretiza em nenhum momento, não é dada função alguma além de desfilar em roupa apertada e exibir um olhar de constante espanto (justificável, mas algumas linhas inteligentes de diálogo fazem falta). O vilão, uma brilhante sacada do roteiro, apresenta momentos de brilho alternados com discursos constrangedores e atitudes irracionais. Mesmo o Criador é mal-aproveitado e abdica de sua postura pseudo-zen em um piscar de olhos. Existe também uma figura no filme que consegue ser uma mistura de partes iguais de David Bowie, Hedwig e Merovingian, que rouba o foco em um dos mais socialmente interessantes cenários do filme e destoa de todo o resto. Tron:Legacy ainda comete o erro de subutilizar o ator Cillian Murphy, que só aparece em uma rápida cena como um programador com poucos escrúpulos.
E o que dizer do personagem-título? Se no primeiro filme, o programa Tron é um coadjuvante de luxo de Jeff Bridges, aqui ele é um mero figurante de luxo, exercendo injustamente pouca ou quase nula influência na trama.
Não que o filme de 1982 exibisse incríveis talentos dramáticos ou uma história intrincada ou instigante. Mas, quando você tem 28 anos para elaborar uma continuação, uma dose de capricho extra é esperada. O importante naquela época era o deslumbre, a abertura de uma janela para um horizonte totalmente alienígena.
O que sua continuação nos traz? Nos primeiros cinco minutos em que Sam Flynn é transportado para a nova versão do mundo virtual paralelo, eu saboreei avidamente cada fotograma, cada detalhe impecável da direção de arte. Também foi o tempo exato que levei para perceber que o filme que revolucionou minha visão havia sido hereticamente ultrapassado pelos jogos eletrônicos em sua capacidade de fascinar. Havia pouca coisa na tela que surpreendesse, que evocasse o espanto no coração de um adulto que já explorou uma construção dos Forerunners, já visitou a grandiosa Vivec, já viu o Sol nascendo sobre Faranga ou penetrou na Zona. A paisagem da Grade hipnotiza por um breve período de tempo e não se fixa na retina. Não há nada novo, não há nada ousado. É uma beleza que se esconde atrás do que já foi feito anteriormente.
Aquilo que marcou minha vida e apontou caminhos para um futuro digital perdeu sua capacidade de surpreender ou inspirar. Aqueles visionários do passado criaram uma tecnologia que não existia, imaginaram um universo que não existia. Eles ousaram. Caminhando sobre passos já dados, os criadores de Legacy capturaram tudo que havia no original com respeito, mas se esqueceram de seu dever de casa, de sua essência rebelde e de oferecer um novo futuro.
Em um ponto em que os jogos eletrônicos se aproximam do fotorrealismo máximo, se faz necessário que alguém apareça e diga em bom tom: "desprendam-se!". Desprendam-se da realidade! Com ferramentas capazes de criar mundos por que se ater aquilo que conhecemos, aquilo que já foi visto ou feito? Em 1982, eles mostraram algo jamais visto. Em 2010, eles perderam a oportunidade.
(minha esposa disse que ouviu um garoto de dez anos exclamar durante o filme: "que maneiro!". Então, esqueça tudo o que foi escrito. O bastão foi passado, um novo clássico nasceu. E a trilha sonora sozinha já valeu a tarde.)
5 Comentários
( Mário de Andrade )
http://www.gamesradar.com/pc/gothic-3/news/gothic-publisher-jowood-entertainment-files-for-bankruptcy/a-2011011118313994012/g-2006032714313970060
Ainda bem que é a JoWood, e não a Piranha...
Abração!