Em um comentário em um post recente, Marcos A. S. Almeida me pergunta se eu acho que um jogo pode ser arte. Confesso que essa polêmica já estava no fundo da minha mente desde o começo do Retina Desgastada, ainda que de com pouco foco. Com a bombástica declaração de Roger Ebert de que jogos NÃO podem ser arte, o assunto ocupou as páginas de sites por todo mundo por um bom tempo. Eu tentei encontrar uma resposta, formar uma opinião, alguma posição definitiva que pudesse esclarecer a questão, nem que fosse somente para mim. Diversas abordagens me passaram pela cabeça e este é um post que eu já reescrevi mentalmente inúmeras vezes. Eu tinha um começo de resposta até que eu vi o filme Tempos de Paz e seu magnífico manifesto de amor ao teatro e o poder que sua Arte pode exercer sobre nós. Minha resposta se modificou. Não tive tempo para escrever e refleti novamente. A resposta escapou furtivamente e desapareceu no horizonte, sem perspectiva de retorno.
Então, para minha surpresa, o Continue publicou um texto intitulado "A Arte dos Videogames Está no Limbo". Saudado como "o texto definitivo sobre videogame enquanto arte em língua portuguesa", acreditei, então, que alguém já tinha respondido à pergunta, certamente de uma forma que eu jamais conseguiria formular. A princípio, faço minhas as brilhantes palavras de Pedro Burgos:
"Videogame pode ser um meio, como fotografias, palavras e imagens em movimento. Meio. Nem toda foto, texto ou filme é arte. Mas eles podem ser usados para alcançar isso."
O texto é extenso e bem argumentado, e vale mesmo a lida. Mas ainda não é a minha resposta. Discordo de Burgos em vários pontos e, lendo os comentários, me dou conta da verdade final: não há resposta para esta pergunta. Não há uma definição precisa para o que seja Arte ou arte, ela parece se modifica de acordo com as experiências e expectativas de cada indivíduo. Existem, portanto, seis bilhões de opiniões sobre o assunto. Escolha a sua.
Logo, seja para Ebert ou para Burgos, está preparada uma armadilha fatal e tentadora: cair na pretensão de alcançar a unanimidade, de produzir o artigo definitivo e encerrar o debate. É como discutir Deus, política ou futebol. E, se é impossível rotular o que é arte, como tentar enquadrar outro conceito dentro do "inrotulável"?
Respeitando minha própria conclusão, fujo desta armadilha e apresento a vocês algumas reflexões que podem (ou não) levá-lo a sua própria conclusão sobre se os jogos são (ou não são) arte (ou Arte).
O Que (Não) é Arte
"Arte é tudo aquilo que é belo". Você certamente já ouviu essa definição em algum lugar. Outro dia mesmo, entre colegas de escritório, alguém disse que não gostava de livros que o deixavam deprimido, preferindo histórias mais tranquilas. Para este tipo de indivíduo, a Mona Lisa é uma obra de Arte incontestável, assim como o trabalho dos naturalistas citados por Burgos ou filmes de tirar o fôlego como Avatar ou Senhor dos Anéis. Infelizmente, esta posição deixa de fora outras obras, como Guernica de Pablo Picasso ou os cubistas, ou filmes mais circunspectos como Dogville ou mesmo Tempos de Paz. Se aplicarmos esta teoria aos jogos eletrônicos, o fotorrealismo de Crysis (quando possível) ou a emulação de aquarela de um Okami seriam legítimos exemplares artísticos. Nenhuma chance para a bidimensionalidade gótica de Limbo ou o gore de Dead Space.
E a sabedoria popular diz que "quem ama o feio, bonito lhe parece". O que nos leva à próxima teoria:
"Arte é tudo aquilo que provoca uma resposta emocional". É uma variação da teoria acima, geralmente aplicada àquilo que nos faz chorar ou nos faz sentir bem. São elementos que existem para serem sentidos, não para serem analisados. O problema desta classificação é que ela abrange desde ganhadores de Oscar como A Vida é Bela e a Lista de Schindler até grandes e controversos sucessos de bilheteria como a saga Crepúsculo, passando por clássicos da literatura como Romeu e Julieta e terminando em novelas das oito. Se aplicarmos esta teoria aos jogos eletrônicos, estamos muito próximos deste patamar (ou já atingimos com o Half-Life 2: Episode Two). Ficam de fora desta classificação a plasticidade fria de Matrix ou as reviravoltas intelectuais de um Amnésia, assim como o já citado Crysis e sua emotividade chumbo-grosso.
"Arte é tudo aquilo que faz pensar". É o oposto da teoria anterior e é uma resposta relativamente esnobe para as fãs de Robert Pattinson, do movimento emo e congêneres. A acusação de que a reação destas pessoas a suas respectivas manifestações culturais não seria fruto de uma reflexão profunda e derivaria, inclusive, de uma suposta falta de bagagem intelectual. Adeptos desta teoria citam de James Joyce a Chuck Palahniuk, cultuam manifestações das artes plásticas nascidas da metalinguagem ou a partir de movimentos sociais, como o Modernismo, o Surrealismo ou o Cubismo. Por este prisma, o urinol de Duchamp encontra seu lugar como Arte. Jogos que levam a profundos questionamentos morais ou filosóficos podem ser abraçados por esta teoria: Bioshock, Baldur's Gate 2 ou a série Fable.
"Arte é uma representação do Homem em seu tempo". Por este ponto de vista, a arte ganha um status de registro histórico, uma tradução subjetiva daquilo que não cabe nos documentos formais. Assim, Guernica captura o horror dos bombardeios nazistas, Senhor dos Anéis se torna uma representação de todo o conflito da Segunda Guerra Mundial, Crepúsculo é uma metáfora para o dilema do sexo antes do casamento no século XXI e GTA: San Andreas é um retrato caricato de tudo que havia de errado na cultura americana nos anos 90. O problema dessa classificação é que, naturalmente, toda obra, de arte ou não, vai se tornar um reflexo das condições e da época em que ela foi produzida.
O que me deixa agora com a implacável tarefa de concluir este post. Sei que não expliquei coisa alguma, apenas confundi ainda mais, repetindo a velha máxima de Chacrinha. Como desculpa esfarrapada, escondo-me atrás da impenetrável e inquestionável barreira da Wikipédia:
"Arte é um fenômeno cultural. Regras absolutas sobre arte não sobrevivem ao tempo, mas em cada época, diferentes grupos (ou cada indivíduo) escolhem como devem compreender esse fenômeno."
4 Comentários
Mas , cá entre nós Aquino, que você ficou " em cima do muro" ficou...Eheheheheeh! Abraços.