Jogos com ambientação medieval com zero traços de magia são extremamente raros. Meses atrás, atravessei A Plague Tale: Innocence, um título que trazia uma magistral recriação da sociedade e dos cenários da Idade das Trevas, porém com um forte elemento sobrenatural presente. The First Templar, da búlgara Haemimont Games, tem os dois pés firmemente calcados no realismo histórico (uma especialidade do estúdio), porém aborda um tema misterioso que nos persegue por séculos: o Cálice Sagrado.
Entretanto, ainda que o pilar central de sua narrativa seja um elemento fantástico (com direito a uma reviravolta interessante no último terço da aventura), o jogo foge em todos os outros momentos de qualquer fator místico ou sobrenatural. Não há magia ou mesmo milagres (com a usada e abusada exceção da prece que cura). Não há monstros (com a exceção de alguns inimigos deformados, maiores e mais fortes do que o normal, mas talvez a genética explique). A todo momento, a desenvolvedora puxa o enredo de volta para a realidade. Em dada fase, há rumores de um "lobisomem" assombrando uma floresta. A criatura não é real, embora exista uma ameaça bastante palpável em nosso caminho.
A busca por esse rigor histórico se manifesta mais forte nas lápides encontradas pelo caminho. São os colecionáveis de The First Templar, por assim dizer. Cada lápide traz um fragmento da história real da Ordem dos Cavaleiros Templários, uma aula completa extraída a partir de trechos de documentos verídicos de sua época. Encontrá-los não afeta a jogabilidade em absolutamente nada, mas acrescenta à sua atmosfera e funciona de uma forma muito mais didática do que qualquer Assassin's Creed lançado.
Apesar desse cunho histórico, a Haemimont Games tinha um jogo para vender e jogos possuem uma linguagem própria que extrapola as muralhas rígidas do realismo. Isso significa que, ao longo da aventura, iremos esbarrar em uma quantidade absurda de inimigos, facilmente vencidos por uma dupla improvável de heróis, iremos esbarrar em armadilhas inacreditáveis que exigiriam prodígios mecânicos impensáveis para sua época e que não possuem qualquer paralelo arqueológico, iremos desfrutar de jarros de água que restauram a vitalidade assim como iremos esbarrar com baús com bônus de atributos e habilidades distribuídos pelos mapas. The First Templar não tem vergonha de ser um videogame na concepção mais lúdica da definição.
Controlamos então o nobre Templário Celian d'Arestide e a formosa dama assassina Marie d'Ibelin, ambos buscando o destino do Cálice Sagrado, em meio a conspirações de todos os lados, em um período histórico conturbado. É possível alternar entre os dois a qualquer momento e também é possível jogar de forma cooperativa, embora eu não tenha experimentado esse recurso. Apesar da capa do jogo, Marie não utiliza uma besta e suas vestimentas são bem mais ousadas, porque estamos falando de estereótipos de quinze anos atrás. É possível encontrar vestimentas novas como colecionáveis, mas nenhuma delas é a roupa da capa do jogo.
A jogabilidade é majoritariamente de combate. Toda a árvore de habilidades dos personagens está focada em técnicas de batalha. The First Templar é mediano em todos os seus aspectos, mas o combate acabou me pegando. Não é especialmente complexo, nem fácil demais. Aprendi o ritmo certo para pulverizar hordas inimigas e ansiava pela próxima luta a cada esquina virada. Os momentos em que os personagens interferem no resultado de uma batalha em larga escala no Oriente Médio são o ápice da criatividade de seus desenvolvedores. Cada confronto termina com uma finalização orquestrada que nunca deixa de ser épica.
Ainda assim, The First Templar também traz seções inteiras focadas em escapar de armadilhas bizarras e irreais. São fases tediosas, justamente por fugir tanto da proposta pé no chão da desenvolvedora. É uma clara concessão ao léxico dos jogos eletrônicos. Em outras seções, o jogo exige furtividade e esses são de longe as fases mais desafiadoras, uma vez que as ferramentas que permitem que o jogador seja furtivo não são precisas. Serei avistado? Não serei? As respostas não são óbvias e os resultados negativos costumam ser devastadores.
The First Templar acabou me surpreendendo de forma positiva. Não é um título que irá concorrer a melhor do ano em nenhuma categoria (nem mesmo como Surpresa), mas é um jogo competente em sua proposta, didático sem ser chato e até mesmo divertido com um combate macio.
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