Eu Vi: Hardcore - Missão Extrema

hardcore-henry-posterHardcore Henry (no original) não é uma adaptação de nenhum jogo eletrônico em específico e, mesmo assim, consegue ser a melhor transposição de um FPS já realizada pela Sétima Arte. Qualquer pessoa que se empolgou minimamente com a sequência em primeira pessoa do execrável Doom: A Porta do Inferno ficou imaginando como seria conduzir um filme de ponta a ponta usando aquele tipo de perspectiva.

O fato é que filmes realizados em primeira pessoa são incomuns, mas de forma alguma são inéditos ou mesmo modernos: A Dama no Lago já realizava esse feito em 1946, antecedendo em décadas os próprios jogos eletrônicos. O clássico chega a receber uma referência, em forma de poster, em um dos cenários de Hardcore Henry. E, em última análise, essa é a perspectiva mais natural de todas, uma vez que todo ser vivo enxerga o mundo em primeira pessoa.

O que diferencia Hardcore Henry de outros filmes similares vai muito além do ângulo de visão: esse é um filme que está profundamente conectado com a cultura dos jogos de tiro em primeira pessoa. Colocar uma câmera mecanicamente acoplada no rosto dos vários dublês que encarnam o protagonista não é apenas um truque de engenharia cinematográfica, mas o começo de uma homenagem a um gênero e seu vocabulário.

Desta forma, o filme é uma obra de ação intensa do começo ao fim, que não larga a visão em primeira pessoa em momento algum (o que talvez possa provocar vertigem em espectadores desacostumados). Somos apresentados a um fio condutor muito fino: nosso protagonista é um ciborgue fabricado por uma cientista, que também é sua esposa. Um vilão (com poderes telecinéticos!) invade as instalações e ela é sequestrada. A partir desse ponto, o filme enfia o pé no acelerador e não larga até o último segundo, com situações e conflitos se sucedendo em um ritmo que foge completamente do padrão hollywoodiano, até mesmo para filmes de ação, mas se aproxima da cadência exata de uma geração de jogos de tiro frenéticos. Nesse sentido, Hardcore Henry está mais próximo de um Doom (2016) do que até mesmo de um Call of Duty. Se a franquia de guerra da Activision se apropriou da estética cinematográfica, Hardcore Henry dá a volta outra vez, renega o cinema e se apropria da adrenalina infinita dos jogos de tiro.

Hardcore Henry - FPS

Temos então o momento em que é necessário pular em cima de prédios, como em Assassin's Creed; temos o momento em que precisamos defender uma "carga", enquanto hordas de inimigos surgem de todas as direções; temos o momento em que precisamos deter um comboio na auto-estrada; temos o momento em que precisamos derrubar reforços que chegam de helicópteros… são situações vistas e jogadas muitas vezes na última década dos jogos de tiro. Até que tudo culmina em uma batalha desesperadora no alto de um prédio, em que o próprio diretor admite que foi inspirada na batalha final no telhado do hospital de Left 4 Dead. Essa sinergia se espalhou de volta para os jogos e Hardcore Henry recebeu um DLC para PayDay 2, jogo que também é referenciado com easter-eggs dentro do filme.

A trama lança personagens insanos na tela, sem perder muito tempo para explicação. O único momento em que o espectador pode finalmente ter um momento de paz e ficar atualizado com a trama acontece depois de dois terços de intensos tiroteios, fugas com parkour, matanças desconexas extremamente brutais e perseguições com veículos. É o instante em que o filme pausa e explica como foi possível que a situação chegasse nesse ponto.

Sharlto Copley

Uma vez que o protagonista é uma folha em branco (afetado pela amnésia do procedimento cirúrgico), mudo e sem rosto, o filme transfere para o personagem de Sharlto Copley a tarefa de ser a face dessa loucura. Copley é notório por papéis de grande intensidade (Distrito 9, Elysium), porém é possível afirmar, sem risco de exagero, que aqui ele atinge seu ápice. Graças a um detalhe de enredo, ele tem a oportunidade de exibir um alcance interpretativo impressionante. Sharlto Copley abraça a insanidade e adiciona volume a uma narrativa que já era hiperbólica.

Hardcore Henry é uma declaração de amor aos jogos de tiro de uma era que se levava menos a sério, colocando no mesmo balaio trans-humanismo, paranormalidade, cyberpunk, fetiche por armas e o que mais couber em apenas noventa e poucos minutos. É o remake de RoboCop que Hollywood jamais teria coragem de filmar e apenas meia dúzia de russos e um sul-africano (que nem queria ser ator) conseguiriam fazer.

Ouvindo: Faith No More - Falling to Pieces

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