Eu Li: Killing is Harmless

Spec Ops: The Line é um dos títulos mais significativos do gênero FPS, lado a lado com Bioshock em sua busca em subverter para compreender os mecanismos que impulsionam o jogador dentro desse universo geralmente unidimensional. A ilusão da escolha é trabalhada de diferentes maneiras nas duas narrativas, com um intervalo de cinco anos entre os jogos.

Killing is HarmlessMuito já foi debatido sobre o impacto cultural quase nulo da jornada de Martin Walker em uma Dubai soterrada pela areia e pelo horror. Se havia alguma tentativa de auto-crítica ou mensagem de alerta, ela se perdeu ao longo dos anos.

O subgênero FPS militarista não apenas continua presente como se tornou praticamente a espinha dorsal de produtoras inteiras, com resultados anuais e vendas progressivamente mais expressivas. O conflito armado no mundo não cessa de nos chocar e o próprio Oriente Médio se tornou um cenário para disputas progressivamente mais sangrentas. Spec Ops: The Line ainda antecipou o impacto climático e cada dia que se passa parece mais inevitável a aniquilação da vida humana sob o punho cerrado de catástrofes ambientais progressivamente mais frequentes.

É nesse estado de niilismo que revisitei o jogo pela ótica de Brendan Keogh, em seu livro "Killing is Harmless". O crítico dissecou Spec Ops: The Line capítulo por capítulo ao longo de 178 páginas. É a análise mais profunda que já li em minha vida e uma análise que deixa o leitor tão exausto e marcado ao seu final quanto o próprio jogo.

Em muitos pontos, Keogh peca pelo exagero, enxergando vieses ou simbolismos improváveis. É a primeira e única vez em que vi a expressão "dissonância ludonarrativa" utilizada de forma não-irônica. Entretanto, essa verborragia é como a areia onipresente na Dubai ficcional. Por um lado, ela nos soterra pelo excesso. Por outro lado, ela se infiltra nos lugares mais improváveis. É impossível sair da leitura sem a sensação de que Keogh acertou na vasta maioria de suas palavras, ainda que ele talvez pudesse ser mais sucinto.

Com imenso detalhismo, Keogh aponta momentos e cenas que me fugiram à percepção enquanto acreditava estar lutando pela minha vida contra inimigos vindo de todos os lados. Esse distanciamento da adrenalina da jogabilidade abre horizontes de compreensão e interpretação. Desta forma. Spec Ops: The Line se torna inegavelmente uma obra de complexidade maior do que eu já imaginava. E essa é a função magna do crítico, independente da mídia: ilustrar, através de sua própria experiência e/ou conhecimento prévio, caminhos de apreciação ou entendimento que teriam passado despercebidos pelo leitor de outra forma.

Painting

O arquivo PDF de "Killing is Harmless" está disponível de forma gratuita no acervo da Queensland University of Technology, na Austrália. Não tenho certeza de que essa distribuição é intencional ou acidental. De qualquer forma, o próprio Brendan Keogh disponibiliza o livro de forma paga em sua página no Itch.io, em diferentes formatos digitais. É uma leitura obrigatória para todos aqueles que ainda se sentem assombrados pelo jogo, estudiosos das possibilidades narrativas dos jogos eletrônicos ou qualquer um que acredite que uma análise de jogo pode ser muito mais do que uma nota numérica solta em uma página repleta de anúncios.

Ouvindo: Syder Arcade - Outer Space Pilot

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