Nove anos atrás fui encantado pela magia de um pequeno jogo independente chamado Submerged. A desconhecida Uppercut Games surpreendia com um belo apocalipse, de gráficos exuberantes, jogabilidade suave e uma trama simples, porém cativante. Nessa quase década, a desenvolvedora lançaria alguns títulos para dispositivos móveis e sua única investida no PC e nos consoles seria o nervoso City of Brass, o exato oposto das aventuras ecológicas da jovem Miku. O tempo passou e o estúdio resolveu retornar a águas mais plácidas com uma continuação.
Para todos os fins, Submerged: Hidden Depths é exatamente o que se poderia esperar de uma continuação. A desenvolvedora não modificou nada daquilo que fez o primeiro jogo tão prazeroso de se jogar. Esse é o maior mérito e a maior falha do novo trabalho.
Se nada foi alterado para a continuação, infelizmente nem a indústria nem esse jogador permaneceram imutáveis. O que soava como um frescor de brisa marítima no título original, aqui me pareceu uma reciclagem de ideias. A movimentação entre ruínas de prédios que antes era satisfatória agora sofre ao ser talvez a milésima vez que me penduro em beiradas assinaladas por uma cor em específico. Se antes até a exploração e a descoberta de novos lugares me trazia uma sensação de deslumbre, agora ganha um ar de pontos a serem preenchidos em uma lista de objetos colecionáveis. É como se o trabalho da Uppercut Games tivesse sido preservado em uma cápsula do tempo e o próprio jogo fosse um artefato resgatado do fundo do oceano.
Por outro lado, tudo isso podem ser resmungos de um jogador calejado, talvez calejado demais, talvez um dependente eletrônico que necessita de novidades constantes ou doses mais fortes para atingir os mesmos picos de satisfação de outrora? Ou seria cansaço? O primeiro Submerged foi fechado em menos de quatro horas de jogo, enquanto o segundo exigiu mais de 9 horas, entre idas e vindas, para pegar todos os fragmentos de sua história.
Navegar é Preciso
Entretanto, Submerged: Hidden Depths guarda muitos méritos e a beleza é um deles, como as imagens podem atestar. A Uppercut Games entregou um colírio para os olhos em 2015 e entregou outro em 2024, ultrapassando o padrão dos gráficos de suas respectivas eras (e também exigindo um pouco mais do hardware). São poucos os deméritos nesse upgrade visual, notavelmente nos modelos dos personagens humanos, que parecem mais cartunescos agora, e nos giros inesperados de câmera que acontecem aqui e ali. Ainda assim, tudo se derrete diante de um dos sóis mais belos dos jogos eletrônicos.
A trilha sonora continua encantadora, discreta, mas marcante. Novamente, o jogo utiliza muito pouco o recurso dos diálogos, então toda sua trama é contada através de páginas ilustradas, que acabam compondo duas lendas: a história dos dois irmãos em busca de um lar e a história maior dessa cidade, atormentada por uma decisão muito errada no passado.
No encerramento de minha análise do primeiro jogo, escrevi: "Infelizmente, quando Submerged acaba, você fica esperando mais: mais enredo, mais lugares, mais criaturas, mais respostas". Foi uma maldição, sua sequência entrega exatamente tudo o que eu pedi, sem desviar um centímetro dessa rota. Fui um tolo. A Uppercut também. Na eventual terceira parte, eu desejo somente uma coisa: mais liberdade, minha para explorar e da desenvolvedora, para ousar.
Ouvindo: Cannibal Ox - Iron Galaxy
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