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25 de agosto de 2018

Eu Vi: Jogador Nº 1

Ready Player One

Entre o final dos anos 70 e a primeira metade dos anos 80, Steven Spielberg e seu círculo interno de amizades (George Lucas, Robert Zemeckis, Richard Donner e outros) forjaram o cinema-pipoca, colossais peças de entretenimento capazes de mobilizar multidões para as bilheterias. Tubarão, ET, Guerra nas Estrelas, Indiana Jones, De Volta Para o Futuro, Poltergeist... foram tantos filmes que marcaram a época que eles continuaram sendo reverenciados e referenciados nas gerações seguintes, para não dizer reciclados em uma Hollywood que olha mais para os lucros do que para a inovação e para um público que se tornou cada vez mais embriagado por nostalgia.

Nada mais natural, então, que Spielberg seja o encarregado da adaptação de Ready Player One, a "inadaptável" sacola de referências de Ernest Cline, um livro-lista de PowerPoint que se tornou a Bíblia da Nerdologia.

Infelizmente, influenciado ou não pelo material original, o vetusto diretor entrega um de seus trabalhos mais burocráticos e sem vida. Se Spielberg sempre experimentou com efeitos especiais e foi um mago da fantasia e do deslumbre, o que ele novamente concretiza em Jogador No. 1, ele também se caracterizava por injetar emoção (ás vezes em excesso) e carisma em seus personagens, o que lhe foge completamente de perspectiva desta vez.

Jogador No. 1 se esquece de que um dos pilares que tornaram todos aqueles filmes do passado tão inesquecíveis era sua história bem estruturada e sua empatia com os seres humanos que estão ali. Han Solo, Luke Skywalker, Leia Organa são tão ou mais importantes que os efeitos do sabre de luz ou naves uivando no vácuo do espaço. Elliot e seus amigos são peças fundamentais para o fascínio do extraterrestre de dedo luminoso. É uma lição que Goonies deixa bem clara: não são seus escassos efeitos especiais ou maquiagem que o tornam um filme que mora no coração de muitos. São os Goonies.

Spielberg dirige a toque de caixa, sem quase nenhum traço de sua genialidade com a câmera. Parece interessado tão somente no seu cheque no final do dia. Mesmo nas sequências de ação, ápice do filme, entrega uma overdose de visuais, onde o espectador que pisca perde várias referências fugazes, o que termina por transformar tudo em um gigantesco Onde Está Wally? de personagens e elementos de obras mais duradouras do que essa. Ainda caçamos um Robocop na tela, três décadas depois e sorrimos com sua presença. Pode-se dizer que faremos a mesma coisa com Parzifal, Aeche, Art3mis e os dois estereótipos orientais do filme?

Ready Player One - Time

Essa grande fanfic cinematográfica é uma montanha-russa que atinge seu ápice na longa luta que vira a balança no final do filme. De um lado temos cenas fantásticas e hilárias que lembram muito as fantasias que qualquer nerd já teve na vida: o que aconteceria se o personagem X encarasse de frente o personagem Y? Do outro lado, os cortes confusos e muito rápidos não permitem visualizar decentemente essas mesmas cenas que oferece e você precisa consumir de maneira tão veloz que não há tempo para se assimilar nada.

O contraponto dessa correria virtual é um marasmo no mundo real, em uma trama repleta de furos inexplicáveis. Como funciona a economia nesse mundo se as pessoas passam tanto tempo no Oasis? Como é possível que os cinco melhores jogadores do planeta morem na mesma cidade? Como aqueles trailers foram empilhados uns em cima dos outros? Cadê a polícia que só aparece nos últimos minutos para limpar a sujeira?

A química entre os dois protagonistas é pífia e ainda assim Spielberg tenta nos convencer que os dois estão apaixonados. Mais uma vez o personagem negro é usado como alívio cômico. Mais uma vez o vilão beira o caricato.

Em meio ao caos do mundo real e dos relacionamentos e emoções reais, o personagem que efetivamente brilha é Halliday, o criador de tudo. Habilmente retratado como um inventor na beira da completa inépcia social, ele brota na trama não apenas como um fio condutor na extremamente expositiva narrativa mas também como uma figura que suscita tristeza. Palmas para Mark Rylance, em sua terceira colaboração com o diretor. Esse dono da fantástica fábrica de chocolate digital busca um sucessor na medida em que finalmente se dá conta dos erros que cometeu na vida. Sua história é dolorosamente trágica em um enredo até então escapista e, ironicamente, é o oásis desse mundo estéril.

Halliday - Parzival

Ouvindo: Sopor Aeternus & The Ensemble Of Shadows - Where The Ancient Laurel Growse
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