Retina Desgastada
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11 de outubro de 2017

Jogando: Two Worlds (Conclusão)

Quarenta e oito horas de jogo depois de ter iniciado Two Worlds, encerrei minha jornada com a cena final e uma sensação de vazio. Não exatamente aquela sensação de vazio que bate depois de um grande jogo, aquela incerteza do que fazer a seguir, o medo de não encontrar outra obra semelhante, mas um sentimento de... travessia não completada. A frágil linha da narrativa da missão principal conclui da mesma forma apática que começou, possivelmente com um dos maiores chefes banana da história dos chefes banana.

Eu nem encostei a mão nele.

Nem no subchefe imediatamente anterior, para ser honesto. Convoquei uma legião de criaturas e deixei que elas fizessem o serviço. Não porque temia seu poder ou o fracasso, mas apenas porque eu queria prolongar um pouco mais minha permanência naquele universo e também porque queria testar os limites daquela estratégia. Tinha plena convicção de que se puxasse minhas duas armas fortemente encantadas e encarasse os dois chefes finais, o confronto teria sido ainda mais rápido e frustrante do que foi. Do jeito que escolhi, com o incentivo do meu filho, foi até divertido.

Two Worls - Final Review 37

Hora da selfie! Perceba que dois dos meus guerreiros estão tão desinteressados na luta quanto eu

Mas o que dizer de um jogo que permite que você o vença com menos de dois minutos e meio?

ESTOU RICO!

A sequência final não é o principal defeito de Two Worlds, mas certamente um microcosmos do próprio jogo. De um lado, a liberdade plena para abordar os desafios da forma que lhe for mais prazerosa. Do outro lado, a completa ausência de um sentido mais épico para suas ações, seus oponentes e consequências de seus atos. Estão em jogo o destino do mundo, a ressurreição de um Deus antigo, uma guerra entre raças, intriga da corte e o ressurgimento de um perigoso segmento dos estudos arcanos, mas nada parece abalar os nativos e tampouco o protagonista.

Mesmo com sua irmã sequestrada, mesmo explorando os recônditos mais hostis do continente, nada abala a tranquilidade de nosso herói ou a felicidade de ver o ouro tilintando. Todos em todas as vilas sabem que ele é um mercenário e ele se comporta como tal, não mudando suas perspectivas um milímetro do começo ao fim do jogo. Que bela Jornada do Herói temos aqui... pelo menos, os gráficos deslumbram (quando não chove):

Two Worls - Final Review 01Two Worls - Final Review 30

Two Worls - Final Review 23

Na qualidade de rato coletor convicto, terminei o jogo novamente com mais dinheiro e poções do que seria humanamente necessário. Chegou a um ponto que meu filho falou para eu parar de catar coisas para vender. Na calada da noite, com a criança dormindo, saqueei uma cidade inteira, cujos habitantes haviam sido dizimados de uma forma tão desprovida de dramaticidade pelos desenvolvedores que só me restava vender os pertences de seus habitantes sem a menor cerimônia. Se é um mercenário que o jogo quer que eu seja, eu respondi ao desafio.

Minha meta era atingir meio milhão de moedas de ouro vendendo itens e foi o que eu consegui. Ainda sobraram muitos corpos pelo chão, principalmente dos invasores da cidade, e armas estocadas em um armário para "o caso de uma necessidade súbita de dinheiro". Dali pra frente não recolhi mais nada para vender e ainda consegui terminar o jogo com 435 mil moedas de ouro e gastando sem medo de ser feliz.

Irmã, Cadê Você?

Essa brincadeira ilustra no que Two Worlds se transformou para nós: um grande brinquedo de metas auto-estabelecidas. Quantos monstros conseguimos invocar ao mesmo tempo, quantos feitiços de invocação podemos conseguir, quantos encantamentos podemos colocar na mesma arma, a busca pelo equipamento perfeito, manipular os inimigos para brigar entre si, cruzar as distâncias a pé matando tudo que surgisse em nosso caminho.

Two Worls - Final Review 14Two Worls - Final Review 33

A desenvolvedora claramente se esforçou para dar um pouco mais de sentido ao seu universo e isso está nítido na primeira parte da missão principal: das cinco peças da relíquia sagrada que precisei reunir, a primeira consumiu quase metade de todo o tempo do jogo. Era uma fórmula que já havia visto em Gothic: conquistar a confiança de facções gradativamente, até obter acesso ao local onde o pedaço estava guardado, tomar decisões éticas de que lado apoiar e aguentar os resultados da minha escolha.

Mas eles abandonaram esse cuidado logo em seguida. O segundo fragmento ainda exigiu que eu realizasse algumas missões, mas eram tolas e desconectadas do local onde a peça jazia. Chegando lá, esperava um confronto com horrores inomináveis, que não se concretizou. Tirando um punhado de inimigos fracos, foi só uma questão de obter acesso, entrar e pegar. Não foi muito diferente para os outros itens, sendo que um deles estava guardado em um templo no interior do território Orc e outro em um ninho de dragão, mas, infelizmente, não foram nem um pouco tão emocionantes quanto suas descrições deixam transparecer, incluindo um dos dragões mais anêmicos da história dos RPGs...

Two Worls - Final Review 08

Apesar de ser a mola motriz do personagem, sua irmã, raptada no início do jogo, aparece muito pouco e não dá a impressão de que corre um perigo tão grande assim. A má qualidade da animação (inferior aos próprios modelos usados durante o jogo!) dá um ar... digamos estranho, para o relacionamento entre os dois. No final, Two Worlds tenta oferecer uma opção de final para o protagonista, mas, tendo falhado no desenvolvimento de sua personalidade ao longo de toda a história, por que ele não optaria pela conclusão mais óbvia de destruir os planos dos vilões?

O fato de eu estar até agora procurando o sentido do próprio título do jogo é um indicativo de que seus desenvolvedores também se perderam pelo caminho.

Two Worls - Final Review 04

Ouvindo: Sisters of Mercy - Phantom
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2 comentários:

Gledson disse...

O Games Done Quick do qual esse jogo participou foi sensacional! Nesse particularmente eu ri demais quando vi pela primeira vez ("Oh my god, what a god!" kkk).

Mas enfim eu só joguei o segundo da franquia e, tenho que dizer, lendo a descrição do plot principal e comparando com o do segundo, não vejo diferenças. É a mesma coisa: tu perde a irmã e tem que ir atrás dela. Periga ser até sobre os mesmos personagens. Depois dizem que a Peach que era incompetente.

Acho que o que chega a mudar é o final. Lembro-me que no segundo jogo tem um twist até interessante, mas é claro que não chega a ser sensacional: valeu muito mais a trajetória do que o resto. Ah! E as animações de luta até que não eram ruins (as do primeiro, pelo trailer, parecem um pouco repetitivas, mas não sei ao certo).

Enfim, qual será o próximo, Aquino? Ou vai usar da estratégia de pegar um randômico de novo e começar?

Raphael AirnMusic disse...

Não sei se foi impressão minha, mas apesar das coisas ruins do jogo, parece que vocês se divertiram muito com ele (48hrs!), então poderíamos dizer que vale a pena, mesmo com a história ruim?

Tenho uma sugestão pras próximas postagens de "jogando" que pode ser um pouco trabalhosa, mas interessante: anotar no primeiro o dia que começou o jogo e, no último, o dia que terminou, pra dar uma ideia de qto tempo levou a aventura. Eu, por exemplo, já joguei perto de 40 hrs de um jogo em pouco menos de dois meses e 40 hrs de outro em um período de quase um ano.

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