Retina Desgastada
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2 de outubro de 2017

Jogando: Tooth and Tail

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(originalmente publicado no Gamerview)

O simpático jogo de estratégia da Pocketwatch Games traz a brutalidade de uma guerra civil e o lado selvagem das revoluções para o mundo fofo dos contos de fadas. Com personagens que são ratinhos, lobos, porcos, camaleões e outros bichos em versões antropomórficas, seu universo funciona como um cruzamento de Revolução dos Bichos, de George Orwell, com a truculência de um Warhammer. O resultado são texugos de metralhadora, corujas que regurgitam um pelotão de ratos assassinos, esquilos pinguços, um rato general de uniforme claramente nazista, arame farpado, minas terrestres e fome. Eu falei que tem canibalismo?

Nessa estranha realidade, a fome é a mola mestra da revolta popular, onde quem tem poder se alimenta, quem não tem pode acabar parando na mesa. A desenvolvedora leva esse mundo-cão a extremos que mostram o exército vencedor se fartando com um banquete de carne no final da batalha e é melhor você não perguntar de onde veio tanta comida, se fazendas de vegetais são o seu principal recurso no jogo.

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Nada como o cheiro de napalm pela manhã...

Tooth and Tail se reveste então de atmosfera, com uma trilha sonora instigante que remete a hinos revolucionários ou marchas militares, enquanto barbaridades são cometidas em nome dessa guerra civil. Os personagens ocasionalmente falam, revelando mais detalhes sobre os bastidores, alguns hilários, outros sombrios. E os gráficos em pixel são muito mais vivos que meras telas deixam transparecer, com grama se movendo, água fluindo, folhas caindo das árvores e belas colorações para as estações do ano. E as ilustrações dos menus e das unidades são de uma riqueza de detalhes que deslumbra.

Nada de novo no front

O que Tooth and Tail tem de complexo em sua construção de universo e personagens, tem de raso na hora que as balas começam a voar. A começar pelo seu único recurso: fazendas de alimentos. Com alimentos, o jogador precisa construir mais fazendas, adquirir novos moinhos (que servem de ponto central para as fazendas), erguer tocas para suas unidades e convocar as próprias unidades. Comida é tudo, faz parte da temática do jogo, é o motivo da Revolução desses bichos, mas também acaba agindo como uma limitação para quem desejaria um jogo de estratégia com mais administração de produção.

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Recrutando as tropas!

As unidades são cuidadosamente ilustradas e tem um pequeno histórico sobre suas habilidades e motivações. Mas a variedade é questionável: as forças podem ser facilmente divididas em quatro categorias e cada unidade dentro da mesma categoria apresenta muito pouca diferença em relação a outra, se tornando muitas vezes mais uma questão de gosto pessoal colocar essa ou aquela em campo. Também não é possível dividir suas forças em pelotões e posicioná-los em tarefas ou localizações diferentes: seu comandante pode dar ordens para todas as unidades de um determinado tipo, sem exceção, ou para o exército inteiro de uma única vez.

E aqui cabe um adendo curioso: o jogador não controla um cursor que se move pela tela, mas um comandante real, que convoca suas tropas, dá ordens e pode sofrer danos ou mesmo morrer, para renascer pouco depois. Porém, o comandante não possui nenhuma forma de ataque próprio.

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Normalmente você não vê tantas tropas alinhadas assim, mas meu filho e eu concordamos com uma trégua provisória.

Com essas decisões de design, a Pocketwatch Games tem um objetivo muito claro em mente: partidas simples e rápidas, muito rápidas. Essa baixa gama de opções táticas associada a um mapa relativamente pequeno e randômico empurra as forças oponentes para um confronto imediato, frequentemente disputado pelas forças mais baratas e vencido pelo jogador mais ágil. Ou seja, quem rusha vence. Não deixa de se encaixar na temática sugerida por sua atmosfera, mas poderá frustrar os estrategistas mais ponderados.

Viva La Revolución

No modo campanha, é possível conversar com praticamente todo mundo antes de cada missão, obter fofocas e vislumbrar a vasta trama de conflitos de classes e espécies existentes nessas terras. Há muito da História da própria Humanidade pincelada nesses diálogos.

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Esse proletário não confia na burguesia...

Entretanto, a campanha é irregular, como o são a maioria das campanhas em jogos de estratégia. É uma plataforma hostil para contar histórias e estabelecer missões, mas a desenvolvedora se esforça. Não apenas é a oportunidade para se conhecer melhor as intrincadas relações entre os animais que compõem seu universo como também uma espécie de tutorial colossal para suas unidades e seus usos.

Infelizmente, a própria natureza randômica dos mapas acaba gerando situações em que algumas fases se tornam exaustivas ou quase impossíveis, enquanto outras são quase um passeio pelo campo. Frequentemente, algumas delas precisarão ser repetidas diversas vezes até que as estrelas se alinhem e a sorte sorria para o jogador. Na maioria das batalhas, um pequeno erro pode levar a uma espiral irreversível de derrota.

Há bônus em cada fase, condições especiais que precisam ser alcançadas para se atingir o status de Heroico, o que deverá saciar a sede de desafio até mesmo do mais masoquista dos estrategistas. Infelizmente, isso apenas agrava o impacto que o azar pode ter em cada cenário.

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Carga da lagartaria!

Band of Brothers

O modo multiplayer do jogo virou um deserto uma semana depois do lançamento. Em três tentativas de me conectar com outro jogador, qualquer jogador, em qualquer canto do mundo, de qualquer nível, ranqueado e não ranqueado, me vi sozinho no silêncio, apenas observando a interface de busca por intermináveis minutos. Felizmente a Pocketwatch Games inseriu em Tooth and Tail dois recursos que poderão preencher essa lacuna: multiplayer local e combate contra a IA.

No primeiro caso, é possível até mesmo plugar um controle no PC e jogar contra ou ao lado de alguém que controla o teclado. E posso dizer que o comando da tropa no controle está perfeito. Talvez tenha sido esse o motivo da desenvolvedora ter sacrificado muito de uma possível complexidade, como acontece em jogos de estratégia exclusivos para computador. Entretanto, Tooth and Tail faz sua escolha e sua escolha é em prol de uma jogabilidade rápida, fácil de aprender e que permite uma vitória (ou derrota) em dez ou quinze minutos.

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Gráficos e festim de carne ao fundo...

A Inteligência Artificial parece ter uma compreensão da natureza de suas lutas melhor que eu: ela ataca com agressividade e velocidade. E isso no modo Easy. Existe, mais outros três níveis de dificuldade acima e apenas imagino que o nível final seja um banho de sangue. Após o término da batalha, seja contra outro jogador, ou contra a IA, não apenas é possível visualizar um gráfico de evolução das forças, como também assistir a partida inteira em um replay, visualizando os movimentos do inimigo e aprendendo o que deu errado (ou certo).

Tooth and Tail escavou um nicho para si, algo que poderia ser pejorativamente chamado de RTS casual, com ênfase em nervos de aço e reflexos de relâmpago. E construiu uma obra única: um jogo steampunk de animais antropomórficos que cita a Revolução Russa. Não é para qualquer desenvolvedora. Da minha parte, esperava um número maior de opções militares e decisões mais analíticas e menos instintivas. Mas qualquer título que traga um javali de lança-chamas merece sua atenção.

Post-Scriptum

Para minha grande surpresa, após a conclusão da análise e a publicação no Gamerview, meu filho se tornou fissurado no jogo, ao ponto de eu tirar o atalho da minha área no desktop e passar para a dele. Oficialmente, Tooth and Tail deixou de ser um jogo "do pai" para ser um jogo "do filho" e acho que é a primeira vez que eu largo um título e ele assume. Pior: ele joga melhor do que eu e é plenamente capaz de me derrotar na maioria dos confrontos (um dos motivos para eu preferir o cooperativo, já que o guri é implacável). Enquanto utilizo décadas de experiência para construir um exército equilibrado, uma cadeia de produção, ele me atropela com tudo que tem como uma máquina invencível.

Posso afirmar que ele perde somente por tecnicalidades, como ao se descuidar da quantidade de alimentos disponíveis e matar o próprio exército de fome. Em outras palavras, eu não venço meu próprio filho em Tooth and Tail. Ele perde pra mim.

Quando perde.

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Um comentário:

mr.whale disse...

Tinha visto esse jogo no Steam, mas como tenho um filho de 1 ano e poucos e o pouco tempo que tenho pra jogar usa pro Heroes of The Storm, foi bom ter uma opinião sobre o Tooth&Tail.

Curti, vou seguir seu blog! Valeu o review!

ps.: Já pensou numa parceria, deixar outras pessoas escreverem reviews no seu blog?

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