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26 de agosto de 2017

Precisamos Conversar Sobre a Valve

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Nessa sexta-feira a saga de Gordon Freeman encontrou um final. Não o final que todos nós desejávamos, não um final que nós pudéssemos participar, não um final que realmente coloque um ponto final definitivo em sua trajetória, mas definitivamente o mais próximo de uma conclusão que nós seremos capazes de ver, provavelmente.

É uma sensação estranha, de encerramento de uma espera, de encontrar o cadáver de alguém dado como desaparecido e poder fazer seu enterro adequado. Mas também é contemplar que sua partida não foi com um silêncio, mas com um estrondo. Que jogo seria o Episode 3, que montanha-russa, que portentosa conclusão.

Mas o encerramento da missão de Gordon Freeman não é o encerramento da Valve. Entretanto, deveria ser.

Half-Life 3 é mais do que a conclusão da luta entre a Humanidade e a Combine (ou a percepção da inevitabilidade da derrota e um gosto amargo). Half-Life 3 é o mítico grande jogo da Valve, onde a empresa outrora genial desfrutaria de sua inegável posição no mercado para nos apresentar um novo sopro de vida ao gênero FPS, um novo caminho para narrativas, um universo pleno de boas ideias, um exemplo a ser seguido, um motor gráfico aberto para outros sonhadores. Não um texto, por melhor que seja, publicado na internet.

A Valve não quis assim. Coube a um ex-funcionário, cansado de esperar, apaziguar da melhor forma possível o desalento dos jogadores. A carta, a missiva de "Gertrude", é para o jogador. É para cada um de nós, uma forma de dizer "adeus" e mandar um recado para seus amigos que ainda estão na empresa:

Tempo bastante se passou para que poucos se lembrarem de mim, ou o que eu estava dizendo quando eu falava pela última vez, ou o que precisamente esperávamos realizar. Neste ponto, a resistência terá falhado ou conseguido, não graças a mim. Velhos amigos foram silenciados, ou caíram no caminho. Eu não conheço nem reconheço a maioria dos membros da equipe de pesquisa, embora eu acredite que o espírito de rebelião ainda persista.

Chama Que Se Apaga

Todos os escritores que trabalharam em Half-Life 2 ou Portal já se foram da Valve. A empresa engorda suas finanças com o faturamento do Steam e com o sucesso de Dota 2 e Counter-Strike. É um modelo perfeito de gestão, por que mudar, certo? Foi-se a paixão? Foi-se a chama criativa? Onde estão todos aqueles assimilados pela coletividade?

Não que a Valve tenha sido sempre genial. Ricochet não nos deixa mentir. Mas era uma desenvolvedora capaz de enxergar o potencial de um determinado nicho e expandi-lo ao máximo. Não foi a pioneira do FPS, mas o transformou. Catapultou um subgênero com Left 4 Dead. Elevou um mod e forjou os MOBA. Revolucionou a cena competitiva com CS. A atual onda de jogos multiplayer baseados em times com habilidades não existiria sem a herança de Team Fortress 2. Fora da criação de jogos, mudou para sempre a face da comercialização de toda uma indústria. Não é pouca coisa, não são poucos méritos.

steam-machine

E então ousou revolucionar o próprio PC, com suas Steam Machines. Tentou ser um dos pilares da Realidade Virtual com o HTC Vive. Se foram tentativas falhas, se não eram os jogos que queríamos (ou apenas eu queria) pelo menos eram indícios que ainda desejava algo mais, que estava pronta para lutar.

Até anunciar Artifact. Um jogo de cartas, igual inúmeros outros, baseado em Dota 2. Nem mesmo a plateia de Dota 2, fãs de seu universo, conteve a decepção diante do anúncio. O teaser do jogo tem 12 vezes mais dislikes do que curtidas no YouTube.

Eventualmente, Artifact pode triunfar. Alguém lá dentro da Valve acredita que existe espaço no cenário para mais um título e é certo que a empresa não mobilizaria cerca de 100 funcionários (segundo rumores) para seu desenvolvimento se não acreditasse que poderia obter êxito. A menos, é claro, que tenham ficado cegos, que tenham cometido um outro erro. Não seria a primeira vez. Mas, até onde consigo enxergar, é a primeira vez que a Valve parece ter perdido algo pior que a visão: a coragem de ousar.

Enquanto os cofres se enchem, a indústria vai mudando gradativamente. Quem não se adaptar terá o mesmo destino dos dinossauros, é uma certeza em qualquer setor. A hegemonia do Steam ainda é absoluta, mas não é definitiva, não é imutável. O sucesso de Dota 2 e CS:GO? Ainda é forte, mas sofreu seu primeiro abalo em anos:

pubg

O que resta à Valve agora? Anunciar Half-Life Battle Arena?

O Futuro?

A Valve também é conhecida por sua péssima capacidade de se comunicar com o público. Relações Públicas, um grande investimento de empresas com um quinto do seu talento, não está no orçamento deles.

Por isso a sessão de perguntas e respostas com Gabe Newell no Reddit em Janeiro foi tão importante: uma oportunidade anual de tentar quebrar o enigma dessa esfinge.

gaben

Além de garantir que a colaboração cinematográfica entre a desenvolvedora e o cineasta J.J. Abrams ainda está em andamento, Newell jogou um pouco de luz sobre os próximos jogos da empresa. Mas do jeito dele...

Perguntado diretamente sobre se a Valve ainda está trabalhando em um jogo single-player completo, limitou-se a responder com um lacônico "sim". Se esquivou de uma pergunta direta sobre se haverá um novo Left 4 Dead. Declarou que a desenvolvedora está produzindo um jogo completo para Realidade Virtual, mas não disse qual. Perguntado sobre Half Life 3/Half Life 2 Episode 3, apenas brincou que "o número 3 não deve ser mencionado".

Obviamente, os internautas não iriam sossegar e outro usuário perguntou se haveria alguma chance de um novo título ambientado no universo de Half-Life/Portal. A nova resposta de Gaben? "Yep".

Então, talvez, talvez, exista um sopro de esperança no ar.

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6 comentários:

Luiz Antônio disse...

Excelente texto! Me recuso a aceitar que minha história com Half Life termine de maneira tão melancólica quanto essa... Prefiro acreditar que um dia a Valve vai fazer a conclusão de Half Life da maneira que todos os fãs sempre sonharam. Nem que seja num futuro distante na forma de uma iniciativa desesperada para se salvar da falência devido aos sucessivos investimentos em "bobagens" fracassadas...

Shadow Geisel disse...

Pro bem ou pro mal, minha história com a Valve acaba de começar. Mal terminei o primeiro Half-Life, ainda estou jogando o segundo e palavras como Episode 1 ou 2 são apenas opções a mais no menu principal do jogo, pra mim, então não sou afetado pelas tosqueiras da Valve nesse nível... ainda. Acho importante esse tipo de visão apresentada nesse texto, pois uma hora o jogador tem que se desapegar. Se o negócio da Valve não envolve mais fazer jogos, então as pessoas precisam seguir em frente. Existem outros jogos pra se jogar e não é justo a empresa ficar fazendo os fãs de refém dessa forma. Claro que torço pelo melhor, mas é bom, daqui pra frente, tratar a Valve com a mesma consideração que ela vem (des) tratando sua base de fãs.

disse...

Como eu disse nesses comentários em outro post, a Valve não vai fazer HL3 não porque eles não sabem que as pessoas querem esse jogo (imagino a reação do Gabe dizendo "espera, vocês queriam isso esse tempo todo? Cara, nós nunca cogitamos essa possibilidade") mas porque qualquer coisa que eles fizerem será um Duke Nukem Forever - que nem é um jogo TÃO RUIM ASSIM, mas nenhum jogo do mundo sobreviveria as expectativas nostalgicas nem sempre tão amparadas na realidade assim do que a série era

Shadow Geisel disse...

Esse raciocínio faz sentido, mas acho que seja mais o caso relatado no post (a empresa se acomodou com o sucesso e estabilidade da Steam e simplesmente não precisa mais fazer jogos). Não é do feitio da Valve, uma empresa que sempre teve muita confiança na qualidade de seus jogos, deixar de fazer algo por causa da expectativa dos fãs. Era mais fácil ela levar o jogo pra um rumo totalmente inesperado, pegando todos de surpresa.

Marcos A. S. Almeida disse...

C2,concordo plenamente com você.Não a parte do Gabe falando,claro,kkkkkkk. Mas é uma expectativa tão grande que nada que venha deixará os fãs satisfeitos. Quanto a Valve ela realmente me parece um tanto acomodada no que diz respeito a novos jogos,mas DOTA e CS:GO estão indo muito bem no cenário competitivo.Pra quem não gosta obviamente isso pouco importa mas são jogos com atualizações frequentes e cada vez mais depurados.O Steam é um ambiente que me satisfaz inteiramente como jogador.Além do mais, eu particularmente não espero ansioso por nada muito novo por conta de meu notebook limitado pra jogos, apesar de recentemente ter comprado um com uma GeForce.Será que,diante dos dados que ela possui,essa minha realidade não é a de muitos?Será por isso ela não quer investir em nada "revolucionário", visto as "galinhas dos ovos de ouro" dela que rodam em máquinas pouco potentes? Não sei se fazem muito sentido mas é algo que me veio a mente agora.

disse...

Concordo. A Valve está adotando o paradigma da Netflix: as pessoas adoram postar nas redes sociais da boca pra fora que elas assistem filmes tipo "A Lista de Schindler", mas a Netflix sabe que o que elas assistem realmente na intimidade do seu lar são as comédias do Adam Sandler. Então se programa de acordo.

A Valve faz a mesma coisa. Ela atende a demanda que os gamers querem NA PRÁTICA, com suas carteiras, não o que eles postam no Facebook que gostariam

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