Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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18 de julho de 2017

Necromante Supremo

Romero

Neste Domingo, 16 de Julho, o mundo perdeu George A. Romero, um dos mais injustiçados diretores de cinema dos últimos 50 anos, subestimado por muitos, idolatrado por poucos. Ele não era o mais talentoso atrás das câmeras, não era um profundo conhecedor da fina arte de tirar o melhor de seus atores, seu nível de talento estava, talvez, um patamar acima dos cineastas B. Mas sua imaginação concebeu ao mundo uma maldição que irá sobreviver a sua morte, talvez por décadas, talvez por séculos.

Romero nos deu os zumbis.

Sem o ousado Night of the Living Dead, filmado em preto e branco em 1968, com baixíssimo orçamento e um elenco de amigos, não haveria Dead Island, Resident Evil, The Walking Dead, Left 4 Dead, nenhum jogo com mortos-vivos. Ou filmes. Ou quadrinhos. Ou séries de TV. As regras da criatura, o horror de uma infestação em larga escala, sua mórbida fixação em devorar os vivos e sua total falta de razão ou racionalização, saíram da cabeça de Romero.

Ele não era nem de longe o melhor diretor de sua geração. Entretanto, ele é um dos raríssimos casos que podem ser chamados de criadores. Ele invocou um gênero que se recusa a morrer, engendrou uma criatura que o coloca ao lado de Mary Shelley e Bram Stoker, como metáfora de uma era e fonte de pesadelos.

Jogos dos Mortos

Apesar de ser a fonte de onde todos beberam, Romero teve uma relação conturbada com os jogos eletrônicos.

No início dos anos 2000, por exemplo, ele foi cogitado pela Sony e pela Capcom para assumir a direção de um filme baseado em Resident Evil. Imediatamente, ele se entusiasmou pela proposta, mesmo não sendo um jogador. Assistiu outros jogando o primeiro jogo de ponta a ponta e escreveu em apenas seis semanas um roteiro que era fiel à história original, acrescentando algumas novas criaturas e mantendo o clima de horror e claustrofobia.

Foi sumariamente rejeitado. "O roteiro de Romero não era bom, então ele foi demitido", explicou o produtor da Capcom. Quinze anos de filmes realizados pelo medíocre Paul Anderson, com mais de um bilhão de dólares de faturamento, provam que a Capcom tomou a decisão certa? Jamais saberemos.

1110594 - RESIDENT EVIL:  RETRIBUTION

Romero também não foi bem-sucedido no caminho inverso, em transformar sua filmografia diretamente em jogo. A única tentativa foi o inacabado City of the Dead, um FPS exibido com cenas de extrema violência durante a E3 2005 e que seria lançado para PC, Xbox e PlayStation 2. Tom Savini, um dos mais fiéis colaboradores de Romero, seja como maquiador de monstros ou ator, emprestaria suas feições e voz para um dos personagens do jogo.

Mas City of the Dead foi cancelado em favor de Land of the Dead: Road to Fiddler's Green. Para fins comerciais, o título é o jogo oficial conectado ao filme Land of the Dead, que marcou o retorno de Romero ao universo dos zumbis que criou após décadas afastado por falta de financiamento.

Na prática, Road to Fiddler's Green se chamava Day of the Zombie e era um jogo completamente diferente que não fazia parte da franquia cinematográfica. Mas teve a sorte de estar em pleno desenvolvimento na época certa. Day of the Zombie já estava prestes a ser lançado quando foi mostrado para executivos da Universal Studios, que estavam cuidando da produção do filme no Canadá, na cidade de Toronto, onde também ficavam os escritórios da desenvolvedora.

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Após um breve acerto, os criadores do jogo alteraram o final e alguns elementos de jogabilidade para mudar o nome do jogo encaixá-lo no mesmo mundo visto nas telas de cinema. Por pressão do contrato, foi realizado também um port para Xbox e acrescentado um modo multiplayer.

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Tive a dúbia oportunidade jogar Land of the Dead: Road to Fiddler's Green até o fim, em versão pirata, antes de começar o blog e, ao contrário do que se pode imaginar, é um título sólido, com momentos de grande tensão e uma desesperadora luta pela sobrevivência. Peca pela falta de variedade de criaturas, alguns bugs e um final claramente apressado.

Embora Romero tenha ficado sem um jogo para chamar de seu, o cineasta seria homenageado em "Call of the Dead", o modo de zumbis de Call of Duty: Black Ops. Ele não apenas aparece na história, interpretando a si mesmo, um diretor de cinema obcecado pelos mortos-vivos, como também acaba se tornando o chefe final do modo, após um acidente que libera os zumbis durante as filmagens. Para encará-lo, ninguém menos que Sarah Michelle Gellar, Robert Englund, Danny Trejo e Michael Rooker.

Mas o cineasta também viveria para ver sangue do seu sangue, seu filho George Romero, emprestar o nome da família para batizar o espúrio Romero's Aftermath. Sem qualquer vínculo com o universo de zumbis do cinema, além das próprias criaturas, o jogo multiplayer de sobrevivência nada mais é que outro clone de DayZ, fabricado pelos mesmos picaretas responsáveis por Infestation: Survivor Stories (conhecido anteriormente como WarZ, até tomar um processo) e igualmente abandonado no meio do caminho.

Ele Vive!

Ainda que Romero não tenha deixado um legado direto nos jogos eletrônicos, sua marca, sua obra está presente em cada pixel podre que tomba de um cadáver, em cada mordida, em cada abominação eviscerada na tela ou avançando ameaçadoramente em nossa direção. Suas visões horríficas sobrevivem e ele deixa herdeiros.

Ouvindo: Atari Teenage Riot - Your Uniform Does Not Impress Me
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8 comentários:

Shadow Geisel disse...

"... a Capcom tomou a decisão certa? Jamais saberemos".
Tomou sim. A pergunta que fica é: pra quem?

Shadow Geisel disse...

É uma pena que Romero tenha desprezado os games enquanto mídia retratadora de apocalipses zumbi. Ele teria se deliciado com jogos como o próprio Resident Evil, Letf 4 Dead e Dying Light (meu jogo de zumbi preferido). Será que ele conheceu Zombies ate my neighbours? Não custa nada sonhar.

Marcos A. S. Almeida disse...

"... a Capcom tomou a decisão certa? Jamais saberemos
"Tomou sim. A pergunta que fica é: pra quem?"
Pra muuuuita gente!
Sem querer criar polêmica eu adotei o seguinte raciocínio quando há uma discriminação de filmes,como os Resident Evil,ou jogos,como o Infestation.Obviamente nenhum dos dois é um clássico do cinema ou dos jogos eletrônicos,os dois tem falhas,mas os dois conseguiram a proeza de angariar muitos fãs pelo mundo afora.o jogo inclusive está numa versão free-to-play,e conforme pude constatar,com algum dos problemas anteriores. A franquia RE nunca foi bem avaliada pela crítica especializada mas nunca ficou no prejuízo,pelo contrário.Ora,se muita gente gosta deles devem ter ter suas qualidades,e portanto um bom entretenimento.E particularmente desisti dos dois,mas o fato é que não podemos deixar de levar em conta os números que os dois arrebataram.
Quanto ao Romero,confesso que conheci muito pouco ou quase nada do seu trabalho,mas sempre o vi como um Sam Raimi,apesar dele certamente ter bebido fartamente da fonte do George Romero.

C. Aquino disse...

A Capcom buscou uma direção para Resident Evil que é de apenas se inspirar nos jogos e criar um produto que está mais próximo do cinema de ação do que do horror. Inegavelmente deu certo, para desespero dos fãs dos jogos. Eu gostei do primeiro, mas não conheço a franquia. Odiei o segundo e parei por aí.

É difícil dizer se Romero teria feito melhor, não só porque nunca vi seu roteiro mas também porque seus filmes pararam de me empolgar dos anos 90 pra cá (Land of the Dead acho sofrível e Diary of the Dead beira o pastiche, na minha opinião).

E, sobre Raimi e George Romero... é praticamente um caso de mestre e discípulo! :) http://rubysohoartprint.com/wp-content/uploads/2017/05/George-A.-Romero-and-Sam-Raimi-at-the-Cannes-Film-Festival-1982.jpg

C. Aquino disse...

Night of the Living Dead é o clássico irrevogável de Romero, talvez o único filme dele que recomendaria para quem nunca viu nada de sua obra. Envelheceu muito bem, é tenso até a raiz da alma e é a gênese de muito do que se tornaria padrão em histórias de zumbi depois. Está em domínio público porque Romero falhou em registrar na época, então nem pesa na consciência baixar por aí.

Shadow Geisel disse...

"A franquia RE nunca foi bem avaliada pela crítica especializada mas nunca ficou no prejuízo,pelo contrário.Ora,se muita gente gosta deles devem ter ter suas qualidades..."

Marcos, não vejo problema nenhum em admitir guilty pleasure com uma porcaria que gosta. Mas usar números de bilheteria e lançar a questão no ar (Ora, se muita gente gosta...) não serve de justificativa. Sua frase se encaixa perfeitamente na situação de lixos como 50 Tons, Crepúsculo ou Transformers: filmes horrendos que renderam montanhas de dinheiro. Se muita gente gosta, nesse caso é um sinal de que existe muita gente com mau gosto que nem faz ideia de onde os filmes vieram. Acho que esse raciocínio é mais lógico do que achar que os gamers que não gostam da franquia são chatos ranzinzas que não entendem nada de cinema.

Shadow Geisel disse...

E outra: você em discriminação o fato das pessoas rejeitarem uma obra que não tem qualidade, e que também não tem quase nada a ver com a franquia dos jogos? Desculpe, mas acho que você está usando a palavra discriminação de forma banal. Seria preconceito dos fãs se eles criticassem sem nem ter assistido. Assistir uma coisa e achar ruim (com boas razões) não é discriminação, é opinião, ela concordando com a nossa ou não.

disse...

Verdade seja dita, as ideias dos filmes de RE são boas: pinçar elementos dos jogos e usa-los em outra mídia. É assim que se faz uma boa adaptação - porque videogames não são "filmes interativos", você tem que entender muito pouco de cinema para dizer isso.

O problema foi que de boas intenções... mas, bem, se funcionou para eles e deixou muita gente feliz, o que se há de fazer? Cest'la vie

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