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15 de novembro de 2016

Who Watches the Watch Dogs?

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Watch Dogs 2 lançou hoje para consoles (a versão para PC foi adiada para o dia 29) com a missão de passar uma borracha no jogo original e estabelecer uma franquia. O Watch Dogs anterior decepcionou muita gente, com uma história genérica de vingança e gráficos e funcionalidades abaixo do anunciado. Mas também cativou um número de jogadores o suficiente para assegurar uma continuação, ainda que em uma cidade totalmente diferente, com um novo protagonista e uma nova atmosfera. Sabe que outro jogo da Ubisoft teve uma recepção morna na estreia e ganhou uma sequência com outro protagonista, outra cidade e outra época que formou o alicerce da franquia? Assassin's Creed e hoje a série virou um monstro em derivados, popularidade e faturamento.

Saem de cena o sisudo Aiden Pearce e a fria e cinzenta Chicago. Entram para salvar a pátria o mais jovem e descolado Marcus Holloway, em uma San Francisco com muito mais cores e vibrante. É só comparar a arte oficial acima com a arte oficial abaixo para entender que a Ubisoft girou o timão 180 graus nessa continuação:

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Outra mudança drástica de direção seja mais difícil de perceber. Para Watch Dogs 2, a desenvolvedora parou de tentar adivinhar o que os hackers fazem e recriar do zero a cena baseada apenas em clichês de cinema e mergulhou de cabeça na cultura do hacktivismo da San Francisco real.

Para isso, a produtora recrutou o auxílio da jornalista Violet Blue, nascida e criada na cidade, especializada no embate entre privacidade digital e liberdade de expressão e profunda conhecedora do submundo hacker e suas nuances. Por dois anos, Blue atuou como consultora da Ubisoft e intermediadora de diversos encontros entre os desenvolvedores e membros legítimos da mesma cultura que o jogo pretendia adaptar.

Violet Blue deu uma longa entrevista para o site Venture Beat e contou sobre sua experiência durante a criação de Watch Dogs 2. Parte desse material, transcrevo abaixo.

Conte mais sobre sua experiência.

Violet Blue: Eu sou uma autora, eu escrevi um livro sobre privacidade digital chamado The Smart Girl’s Guide to Privacy. Eu sou jornalista por profissão. Eu escrevo sobre hacking e cybercrime  - crimes de computadores especificamente. Eu fui chamada para dar consultoria em Watch Dogs 2 sobre a cultura hacker,  a história hacker e hacking em San Francisco. 

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Violet Blue, durante evento de divulgação do jogo

Você entrou para o time depois do Watch Dogs original?

Blue: Sim, eles se aproximaram de mim depois do primeiro jogo. Foi bastante divertido, eu tive que levá-los para lugares e encontrá-los em conferências e coisas desse tipo. Eu os apresentei a pessoas diferentes. Mais ou menos como uma curadoria, de forma que eles pudessem visualizar de cima a baixo e lado a lado diferentes aspectos de como é a cultura hacker. As diferentes motivações de diferentes tipos de hackers, coisas assim. E a diversidade da cultura hacker.

Eu tenho dificuldades para separar algumas das diferentes subculturas. O Vale do Silício gira em torno de tecnologia e engenharia. Está sempre associado com abertura como uma causa. Ecossistemas fechados e plataformas fechadas são algo que ninguém parece gostar. Mas existe uma parte da subcultura que é mais... anarquista, talvez? Eu não sei como descrevê-la.

Blue: Isso está muito preciso. Diferentes cantos da comunidade de hacking tem suas próprias motivações e razões. O que as pessoas chamam de hacktivismo é imediatamente associado com algo tipo Anonymous, mas há muitos tipos diferentes de pessoas que se identificam como hacktivistas. É fácil pintá-las todas com a mesma paleta em relação a coisas como anarquia, especialmente uma vez que nós não temos muitos diferentes retratos de hackers e grupos hackers.

Existe uma incrível diversidade de hackers - tudo de hobbyistas a criadores a pessoas que querem dar aulas ou montar empresas para encontrar vulnerabilidades de segurança. Todos esses fazem parte da cultura hacker e de grupos hacker, mas nós nunca vemos isso retratado na televisão. Nós nunca vemos isso nos filmes. Nós apenas vemos os mesmos estereótipos de novo e de novo. E na mídia e no jornalismo, nós tendemos a ter o retrato de um criminoso de capuz, sabe? Aquela diversidade não é mostrada. Tem todos os gêneros, todas as cores, todas as orientações. É muito frustrante.

O que vocês estavam tentando comunicar sobre isso, então, através do jogo? Que eles não são apenas esses criminosos idênticos?

Blue: Exatamente. Essa foi uma oportunidade incrível para trabalhar com a Ubisoft nesse sentido. Não apenas eu tive uma oportunidade para mostrar a eles uma cultura hacker acurada - quem eles são e como se parecem - mas também mais realismo em outras áreas.

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Eu ouço falar mais e mais sobre cidades inteligentes a cada grande evento de tecnologia em que eu vou. Empresas estão circulando com essa ideia, e elas não parecem estar recuando.

Blue: Pois é, né? Não há ninguém dizendo a eles que isso poderia ser uma má ideia - colocar tantos ovos na mesma cesta. Watch Dogs enquanto franquia tem sido bastante presciente.

Uma das grandes subtramas parece ser essa ideia de que os hacktivistas mantém as corporações sob controle, em oposição a somente o governo.

Blue: Essa é a esperança, certo? Se existe uma esperança no hacktivismo, é que as pessoas sejam tipo um Robin Hood da informação. Houve um hacker que derrubou uma empresa de hacking, uma empresa que estava vendendo vigilância para governos despóticos, de forma que eles poderiam rastrear seus cidadãos através do Facebook e coisas assim. Esses caras estavam faturando muito dinheiro fazendo isso, vendendo para o Sudão e lugares como esse. Um hacker publicou tudo sobre eles online e trouxe tudo isso à tona. (nota: Violet Blue deve estar se referindo ao incidente do Hacking Team). Isso despertou as pessoas para esse tipo de ethos hacker. Eles escreveram um guia sobre como fizeram, como eles invadiram essa empresa. O título era algo como "Para Pessoas Que Não Podem Esperar por Informantes".

Sobre o jogo, olhando para o produto acabado, você o reconhece como uma representação do mundo real?

Blue: Muito. É insano o quanto eu posso perceber. Quando eu vi o jogo pela primeira vez, eu pensei: "eu conheço essas pessoas. Esses são meus amigos. Todos eles parecem com pessoas que eu conheço". Todo mundo usando buttons - há esse tipo de estilo punk-rock dos anos 90 em torno do hacking. Adesivos no seu laptop. Muito preto. Também a forma como eles capturaram minha cidade é de explodir a cabeça. Eles entenderam completamente que cada vizinhança tem sua própria aura e estilo.

Com os hacks que eles fazem, eles não fizeram nada que é irreal, na verdade. Eles usam equipamento que está disponível, coisas que você pode comprar. Até agora, não há nada que eu saiba que seja tipo aquilo que você vê em CSI ou algo assim, algo super-falsificado.

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Você tem uma opinião forte forte sobre o que os heróis de uma história como essa deveriam ser? Há um bocado de formas de você retratar um protagonista hacker.

Blue: É perto do que eles fizeram com Marcus. Marcus realmente reflete de forma acurada não apenas as pessoas que eu conheço mas... eu realmente detesto a forma como pessoas como Edward Snowden ou Julian Assange foram transformadas em heróis sem nenhum tipo de pensamento crítico em relação a eles. Nas comunidades hacker, há um bocado de críticas a pessoas como eles, um bocado de consideração crítica, mas você não ouve sobre isso. Eu sinto que a idolatria a heróis é perigosa. Ela remove uma importante avaliação crítica. Ela implica crença ao invés de se basear em fatos, o que é uma forma muito hacker de pensar. Eles preferem fatos e precisão acima de tudo.

Marcus é um anti-herói e eu acho que esse é um tipo muito mais acurado de herói do que simplesmente uma espécie de salvador.

Ouvindo: Grendel - B.a.a.l. (Deliver Me)
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