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8 de abril de 2016

Jogando: Deadfall Adventures

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Allan Quatermain, o personagem ficcional criado pelo escritor inglês H. Rider Haggard em 1885 carrega ao mesmo tempo um legado e uma maldição. Seu legado for ter criado um subgênero da literatura, a "aventura de arqueólogo", com civilizações desaparecidas, ruínas assombradas, tesouros sobrenaturais, muita ação, heróis maiores que a vida e tudo mais. Sem Quatermain, não haveria Indiana Jones e sua fantástica trilogia cinematográfica que, lamentavelmente, nunca teve um quarto filme. Sem Quatermain, não teríamos Lara Croft, Nathan Drake ou a nova Lara Croft. Em algum lugar deste vasto e desconhecido Universo, talvez Haggard sorria por aquilo que deixou na imaginação das pessoas: o deslumbre do passado e a vontade de desbravar.

Mas, nesse mesmo lugar, Haggard também se deprime com o que fizeram com Quatermain. Por que, se por um lado seus imitadores vicejam com sucesso e até mesmo o frescor de novas ideias, aqueles que ousam utilizar o nome de Quatermain chafurdam (em sua maioria) em obras que causam vergonha ao escritor.

As-Minas-Do-Rei-SalomãoO personagem Allan Quatermain foi levado aos cinemas pelas mãos canastronas de Richard Chamberlain nos anos 80 nos execráveis As Minas do Rei Salomão e Allan Quatermain e a Cidade do Ouro Perdido, dois filmes que eram presença garantida no Cinema em Casa do SBT. Ou Sessão da Tarde, a memória é falha.

O mesmo personagem foi reinventado com genialidade por Alan Moore em sua série em quadrinhos A Liga Exraordinária, apenas para ser o protagonista de uma adaptação cinematográfica morna que literalmente encerrou a carreira do astro Sean Connery, que entrou em conflito com o diretor e jurou nunca mais voltar a interpretar.

Definitivamente, Allan Quatermain tem uma maldição.

Mas isso não impediu a desenvolvedora The Farm 51 ir lá e tenfar fazer um jogo baseado no personagem. Afinal, a obra de Haggard já está em domínio público há décadas.

Infelizmente, as lendas são reais. Deadfall Adventures é uma nova vítima da maldição do personagem.

Espetáculo Técnico

Primeiro, permita-me confessar uma coisa: os gráficos do jogo me deixaram de queixo caído. A desenvolvedora da Polônia (que também cometeu Necrovision...) tira sangue da Unreal Engine 3 e produz um jogo que consegue ser visualmente impecável e ao mesmo tempo leve de rodar. Tecnicamente falando, é uma obra-prima da programação: carrega muito rápido e libera a memória de volta para o computador também muito rápido, roda sem bugs, dá uma lição de polimento em muito jogo de empresas bem maiores.

Um dos pilares do subgênero "aventura de arqueólogo" são os locais exóticos visitados. E aqui a The Farm 51 caprichou: de tumbas egípcias a templos Maias perdidos, tudo está recriado com uma paixão pelos detalhes que dá vontade de largar a aventura e ficar contemplando a arquitetura dos ambientes. São cenários deslumbrantes que remetem a um passado misterioso e, realmente, aumentam a adrenalina e o espírito explorador.

Não por acaso, foi um jogo que tirei a absurda quantidade de 83 screenshots e tive dificuldades para selecionar aquelas que apareciam nessa postagem:

Deadfall Adventures 03Deadfall Adventures 04Deadfall Adventures 14Deadfall Adventures 33Deadfall Adventures 59Deadfall Adventures 77

Zumbi Sem Alma

Então, o que deu errado em Deadfall Adventures? Todo o resto.

Ao pisar em terreno já explorado por outros jogos, livros e filmes, o título da The Farm 51 peca pela absoluta falta de inovação e pela falta de personalidade própria.

Se os cenários são magistralmente lapidados pela equipe de desenvolvedores, o inverso pode ser dito de seus personagens. O protagonista, o bisneto do Allan Quatermain original é o típico canastrão de frases de efeito, pensamento cínico e rápido no gatilho. Sua parceira não tem passado e cumpre apenas dupla a função de ser uma guia explicativa e uma donzela em perigo. Ela até atira contra os inimigos, mas é tão eficiente quanto os aliados de Uprising44: The Silent Shadows. O vilão principal da trama é caricato e suas motivações patéticas.

Deadfall Adventures 51Deadfall Adventures 63

Em nenhum momento do jogo você se importa com o enredo pífio ou com o destino de seus personagens. A trama se desenrola de forma burocrática e recorre a clichês abusados ao ponto do próprio protagonista reclamar que foi capturado pela segunda vez e separado de sua parceira pela segunda vez. Depois da metade do jogo, eu já não sabia dizer em que lugar do mundo eu estava, o que eu procurava ou qual era mesmo a nacionalidade dos meus inimigos. Eu só queria seguir em frente e terminar Deadfall Adventures, na vã esperança de que algo além da arquitetura conseguisse chamar minha atenção.

A animação dos personagens humanos durante as cutscenes é constrangedora. É perceptível que não foi utilizada captura de movimentos porque nenhum ser vivo se move daquele jeito. Talvez o termo melhor seja "perturbadora". Tão estranho quanto a tendência de Jen, a arqueóloga, de explicar os fatos parada fitando o vazio ou uma parede na sua frente...

Isso tudo até poderia ser relevado se a jogabilidade empolgasse. Mas também não é o que acontece. Misturando FPS com puzzles, o jogo consegue a façanha de não acertar em nenhum dos dois. Os combates são insossos, mesmo contra inimigos sobrenaturais e a evolução que o personagem pode conseguir ao coletar tesouros escondidos apenas corrige falhas graves de vigor para correr, tempo de recarga e precisão das armas. Os enigmas passam longe do que você encontraria em um título do gênero, como Portal, por exemplo. E, pelo menos no nível de dificuldade Normal, você é auxiliado com um caderninho de dicas que facilitam muito a resolução dos desafios.

Deadfall Adventures 06

Quando parece que Deadfall Adventures vai experimentar outras jogabilidades, a experiência se encerra rapidamente, como na sequência em que é necessário saltar sobre blocos de gelo flutuantes ou quando o herói se perde em uma nevasca. Você consegue enxergar ali o potencial e vê que a The Farm 51 preferiu se ater ao básico.

No final das contas, Deadfall Adventures termina sendo uma aventura genérica, condenada a viver sob a eterna sombra de Tomb Raider e Uncharted. Não decepciona ao ponto de você desejar abandonar o jogo, mas desperdiça uma boa oportunidade de se tornar memorável.

Deadfall Adventures 01

No seu descanso eterno,  H. Rider Haggard trinca os dentes e segura um palavrão. Ainda não foi desta vez que a maldição se quebrou.

Ouvindo: Therapy - Big Cave In
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Um comentário:

Thito Gianelo disse...

Bom saber, eu já ia desperdiçar uma grana nesse jogo. Rsrs

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