Retina Desgastada
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2 de fevereiro de 2016

Cemitério Maldito

Tínhamos um Escorpião Gigante. Também tínhamos um colossal Golem à Vapor recém-criado que nunca vimos em combate. Tínhamos três coelhos, um de cada cor: Creminho, Flocão e Sombra. Tínhamos um Golem-Melancia. Estávamos com quatro Chocobos. Carregávamos uma espada de diamante encantada com chamas. Além de um galinheiro, um estábulo de vacas, um cercado de ovelhas, uma plantação, uma casa, uma torre de observação.

E o cemitério.

Em menos de 15 minutos de Minecraft, perdemos tudo isso.

Menos o cemitério.

Para entender essa história, é preciso voltar para um aspecto menos conhecido do que batizei de Mundo Maldito, talvez por dramaticidade, talvez por honestidade. O que eu não mencionei antes é que meu filho insistiu em construir um cemitério nos fundos de nosso terreno.

Existe um mod chamado Project Zulu que acrescenta muitos aspectos interessantes à Minecraft, como construções, criaturas, plantas e artefatos. Uma destas construções é um cemitério assombrado onde você pode obter alguns ítens interessantes de um baú protegido por armaduras fantasma. Mas o que o meu filho gosta mesmo é de roubar as lápides. Depois de saquearmos um cemitério em nosso mundo anterior, construímos nossa própria versão, com direito a uma capela, lápides com inscrições sombrias sobre uma maldição imaginária, flores sobre as tumbas..

E uma árvore. Cuja utilidade meu filho questionou. Eu respondi que cemitérios assustadores sempre tem uma árvore morta. "Mas essa aí está viva", ele lembrou. Dei de ombros.

Coincidência ou não, no mesmo dia em que demos por concluída a construção do cemitério, um tornado passou raspando por nossa base. É um evento medonho gerado por outro mod, que arrasta construções e seres vivos e espalha por todos os cantos, com a força destruidora de seu similar no mundo real. Estávamos naquele mundo havia semanas. Nunca um tornado havia se formado tão perto de nossa base. Chegou a arrastar alguns blocos e animais. Atribuí o incidente à coincidência.

Era um aviso.

Ao remover nossa base daquele mundo repleto de bugs e transportá-la para um mundo novo usando o MCEdit, houve uma confusão de blocos e todas as lápides foram substituídas por blocos de outro mod. Parecia que nosso cemitério estava fadado a perder o sentido, com ou sem maldição.

Mas somos teimosos. Mexemos com forças que desconhecemos e, em outras andanças, esbarramos em outro cemitério nesse novo mundo. Roubamos as lápides. Reformamos o nosso próprio cemitério.

Neste Domingo, os ventos sobraram mais fortes. Uma tormenta parecia se aproximar novamente. Olhei para o lado de fora de nossas muralhas e vimos com horror o turbilhão levantando um Ent, um Homem-Árvore que já havia me acostumado a ter como vizinho de porta. Vimos nossos Chocobos e coelhos levantarem do chão. O desastre havia nos encontrado.

Corri o mais rápido que pude para o abrigo subterrâneo, uma câmara criada para mineração mas que poderia nos proteger da destruição. Um Fantasma estava nos aguardando no local. Em uma sala iluminada que nunca havia dado spawn de monstros antes, no pior momento possível, enfrentamos uma criatura com poderes de fogo. O Fantasma caiu. O fogo continou a nos consumir. Sem água por perto, a morte nos encontrou.

Em Minecraft, quando você morre, você reaparece no último local em que você dormiu. Que era nossa cama. Na superfície. A casa toda tremia, castigada pela força da tormenta. Em desespero, corri para fora para tentar voltar ao abrigo. Gritei para o meu filho, que controla o botão de correr. Ele respondeu que estava apertando. Mas o vento nos empurrava em direções diferentes. Vimos vacas subindo aos céus, pedaços da casa e, segundos depois, nosso pobre Steve era içado aos ares a uma altura absurda.

Do alto, o retrato da devastação. Depois a queda. E a nova morte.

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Sem a cama para renascer, arrancada do chão pela força do tornado, ressurgimos no ponto inicial do jogo, algumas dezenas de metros de distância. Retornei correndo para ver minha base, construída durante semanas, nivelada até o chão. Apenas baús, pedras e pedaços de construção permaneciam no lugar.

E o cemitério.

Enquanto contemplava o rastro implacável e ainda ouvia o vento rugir em meus ouvidos, um raio desceu dos céus e caiu ao lado do cemitério, como que para assinar a obra de um Deus caótico e furioso. Em dois anos de Minecraft, foi o terceiro raio que vi cair perto. Será para sempre o que irei guardar na lembrança.

Dentro do cemitério, a árvore agora estava finalmente morta. E as novas lápides haviam todas sumido.

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Este é um mundo regido por regras lógicas e algoritmos que não entendemos. Desta aleatoriedade calculada que não dominamos emergem lendas e até superstições. Neste estranho cenário virtual, ainda somos primatas desbravadores mas nos recusamos a ceder à irracionalidade.

Com dedicação, reconstruí a casa, reuni parte do gado e dos outros animais que tinham sobrevivido. Remontei estábulos, refiz a plantação. Voltei a ter três Chocobos. Construí novos golems de proteção, recoloquei cada tocha que o furacão arrancou de volta ao seu lugar e voltei a domar a escuridão. Comecei as obras da torre.

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E este maldito cemitério terá lápides novamente. Um dia. Até lá, as configurações do mod de tornados serão editadas.

Por precaução.

Ouvindo: Final Fantasy XI (Treasures of Aht Urhgan) - Illusions in the Mist
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Um comentário:

Shadow Geisel disse...

Um minuto de silencio pelas mortes dos Chocobos. E por Sombra, o coelhinho meu xará.

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