Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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9 de dezembro de 2015

"…Por Causa da Religião"

Nether

Hoje meu filho e eu pegamos carona para a escola com um casal que faz o mesmo trajeto todo os dias. Eles tem um garoto que estuda no mesmo lugar, um ano acima do meu filho. As crianças descobriram uma paixão em comum: Minecraft. Os pais dele não entendem e não jogam.

Hoje, o pai comentou que tem umas partes do jogo que ele não gosta. No que o garoto emendou: "... por causa da religião". O pai tentou explicar que tem "tipo um Inferno no jogo" e meio que balbuciou que tem certas coisas que uma criança não deveria ver e tudo mais.

Eu deveria ter respondido na hora algo mais significativo e admito que uma certa dose de covardia falou alto ali, mas a trajetória escolar dessas crianças é longa e oportunidades aparecerão.

O jogo é classificado segundo o sistema adotado no Brasil como "Livre para todos os públicos", segundo o padrão PEGI, ele pode ser jogador por maiores de 7 anos e a versão disponível no iTunes é classificada pela eterna pudica Apple como adequado para maiores de 4 anos, então não sou apenas eu que estou dizendo coisas tiradas da minha cabeça.

O Nether é claramente inspirado no Inferno cristão. Sem dúvidas. É um lugar de lava fervente, constante luz vermelha, onde o Sol não brilha, habitado por criaturas grotescas e o típico lugar virtual que você até visita, mas sempre com medo de ser morto. Talvez, para quem desconhece o mundo dos jogos eletrônicos e tenha tido uma educação rígida nos preceitos bíblicos, a imagem abaixo assuste:

Ghast

Mas, repito aqui um discurso que fiz lá atrás nos primórdios do blog: não é como se seu filho ou aquele primo esquisitão ou o filho do vizinho "que mexe com essas coisas" entrasse nessa dimensão e passasse a sacrificar ovelhas para glorificar Asmodeus ou algo parecido. O Nether é uma dimensão de medo, de perigo, de atenção aos detalhes. Foi criado para assustar, não para ser adorado ou normatizado ou o novo lar das crianças. Cada criatura que habita esse espaço está pensando seriamente em matar seu personagem (à exceção dos Homens-Porco-Zumbi, a menos que você fira um deles,aí, sim, eles também estão pensando em matar seu personagem).

Nether 02

Então, como o Nether, com sua representação do Inferno, que não difere da mesma iconografia que já aparece na Bíblia e no imaginário cristão, pode ser uma má influência? Sendo otimista, é uma excelente peça de propaganda contra os horrores da danação eterna. Em pouco difere da pregação convencional do fogo e enxofre. Pergunte a qualquer jogador de Minecraft: o Nether é um lugar para entrar, conseguir alguns ingredientes e fugir com sua vida.

Talvez seja o caso de sentar e tentar entender. Se algo como Minecraft pode torcer narizes por causa da religião, não é de se espantar que divergências mais profundas gerem tanto rancor no mundo real. E, para esse, não há ainda blocos para resolver tantos problemas.

Ouvindo: After Forever - Through Square Eyes
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7 comentários:

Gledson A. disse...

Textos assim devem ser mais divulgados para ver se ajuda a depositar um pouco de racionalidade no meio desse ciclo de ignorância em torno dos jogos, tão comum no nosso país (acho que até no mundo, mas enfim...).

À vezes é difícil até mesmo tentar ter uma conversa racional com pessoas assim porém, no fim, quem sai perdendo é o coitado do menino que só queria se divertir.

Um adendo: não é a primeira vez que te vejo tratar com tamanha lucidez sobre assuntos do tipo. Te parabenizo, pois isso está longe de ser fácil, ainda mais quando o alvo da ignorância é algo que você e seu guri gostam.

Éder R. M. disse...

Belas palavras (especialmente o final)! Nada como um pouco de bom senso no mar de insanidade que vivemos todos os dias.

Marcos A. S. Almeida disse...

Toda vez em que entro num debate em que a religião esteja envolvida , gosto de primeiramente reafirmar a minha posição: sou totalmente ateu.Nesse caso em particular será útil mostrar essa opção porque de certa forma estarei defendendo a opinião do pai do garoto.Em meu dia-a-dia convivo com ao menos 3 tipos de religião: a espírita, a católica e a evangélica. São pessoas próximas que vez ou outra conversam comigo sobre detalhes de sua religião e se têm uma coisa que aprendi com eles é o respeito ás suas crenças e opções ditadas por suas religiões. Vejo alguns excessos cometidos por eles ,e que são excessos no MEU ponto de vista , mas não no deles.Por isso , quando alguém , que têm uma crença , diz coisas que a meu ver não fazem sentido , eu não retruco: aceito como forma de respeito e tolerância, pois é , principalmente , uma forma de conviver bem com essas pessoas, e é isso que rege o meu mundo. Obviamente , com outros que compartilham de minha opinião , o absurdo é sempre comentado , mas gosto sempre de sublinhar que se a pessoa convive bem com seus dogmas, quem sou eu pra corrigi-lo? Desde que esses dogmas não incitem essas pessoas a cometerem crimes - afinal as leis servem pra tornar o mundo civilizado - sou totalmente a favor de que cada um siga o caminho que escolheu. Dito isso , quero afirmar que você não foi covarde , Aquino. Sua conduta foi inteligente e tolerante , como deveria ser a de muitos. Você já tem uma responsabilidade enorme tentando passar os seus preceitos ao seu filho, portanto não têm sentido tentar passar eles para o filho de outra pessoa. Quanto as divergências entre as pessoas, que você cita no texto , elas acontecem justamente por que pessoas não tomam a atitude que você tomou: ser tolerante.

Shadow Geisel disse...

Posso estar enganado, mas acho que a ideia do texto é que as pessoas não sabem diferenciar a retratação de uma coisa ruim e a exaltação de uma coisa ruim. Um jogo como Doom, por exemplo, é apontado como sendo uma obra indiscutivelmente criada para glorificar as forças do mal. O que as pessoas não percebem (pois geralmente falam de algo que não conhecem) é que o tema do jogo é o combate das hordas demoníacas, e não algum tipo de apologia ao satanismo. Curioso, pois a própria bíblia retrata o inferno com uma riqueza de detalhes que deixa Doom no chinelo. As partes mais detalhadas e "divertidas" desse livro são justamente essas, como o livro do Apocalipse e suas criaturas de vários braços e olhos. As pessoas reagem com uma superstição digna de jump scare só de ouvir (ou ler) a palavra "inferno", e se você lê uma obra chamada O mundo assombrado pelos demônios, de Carl Sagan, só pode ser um satanista assumido, não é mesmo? Inferno que significa "lugar de morte", ou seja, o lugar pra todos vão quando suas vidas se extinguirem (a menos que você acredite que pessoas têm a capacidade de ressuscitar...).

Marcos A. S. Almeida disse...

Veja bem Shadow , sou totalmente a favor da discussão de qualquer assunto que seja - religioso , político ou esportivo - desde que ambas as partes estejam predispostas a isso ou que a discussão seja entre pessoas de opiniões iguais. O que eu discordo é quando se aponta o dedo e diz que a outra está errada e você está certo. Se o Aquino retruca,estaria fazendo isso. Se o pai do garoto questionasse o Aquino como ele deixa o seu filho jogar esse jogo "herege", ele também estaria apontando o dedo.E eu também discordaria igualmente.Sou a favor do debate e não do extremismo.Eu também acho um exagero do pai ,concordo com o Aquino e concordo plenamente com você. As minhas palavras foram no sentido de apoiar a passividade e tolerância do Aquino e não em concordar com o pai, apesar de achar que ele têm o direito de doutrinar seu próprio filho da maneira que lhe convém. Resumindo: não concordo com ele mas não acho que alguém que não seja do seu meio religioso tenha o direito de lhe dizer que ele está errado em não permitir o seu filho de jogar este ou aquele jogo.Isso pode ser desrespeitoso e ofensivo.

Anônimo disse...

Conheci pessoas que não assistiram filmes até leves como o "O diabo veste prada" por causa do título...

E a cena com o Balrogs em "A sociedade do anel" fizeram muitos nem passarem perto dos filmes....

Imagine de jogos...

Diogo Batista disse...

Eu não faria diferente do que o Aquino fez, pois uma das coisas que aprendi em meus 30 anos de vida, foi que existe hora e local para um bom debate, principalmente quando o tema religião está envolvido.

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