Retina Desgastada
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11 de outubro de 2015

Vazio Existencial

Quem acompanha o avanço promissor da realidade virtual, com praticamente cada empresa desenvolvendo sua própria solução para explorar esse universo aparentemente infinito, provavelmente já se esqueceu das lições do Second Life.

Para quem não lembra mais ou era muito novo em 2007, podemos dizer que Second Life começava sua pretensão de ser um mundo virtual para todos dominar já no nome. Um imenso MMORPG da vida, um espaço digital onde as pessoas poderiam se reunir, conversar, passear e até mesmo realizar negócios. Não foram poucas as empresas que se sentiram na obrigação de abrir uma filial dentro do Second Life, talvez na insegurança de que talvez aquele fosse o futuro mesmo e, quem não embarcasse, seria extinto como os dinossauros. Bancos, universidades, restaurantes, empresas públicas e privadas, de grande e médio porte investiram tempo, sonhos e dinheiro no Second Life. Parecia mesmo que as visões dos cyberpunks iriam se concretizar e a Matrix estava logo ali na esquina, com sua lojinha de Starbucks, sua agência do Itaú, sua faculdade já funcionando e esperando o cliente se logar.

Mas os clientes não vieram.

A febre passou, a bolha estourou. Second Life se tornou um vasto sítio arqueológico dos anos 00.

Aulas Suspensas

O repórter Patrick Hogan da Fusion tirou um tempo para retornar ao universo da Linden Labs para conferir ao vivo o que aconteceu com pelo menos parte das pretensões do Second Life. Especificamente, Hogan visitou os campi de diferentes universidades que estabeleceram uma "ilha" nessa estranha realidade paralela.

O resultado desta excursão é desolador. Em cinco espaços que supostamente seriam dedicados aos estudos acadêmicos, o jornalista não encontrou um único aluno ou professor presente. Mas encontrou muitos equívocos de programação, decisões absurdas de interface e muitas provas de que não havia um plano ou mesmo uma noção do que poderia ser realizado dentro do mundo virtual.

Arkansas State University

A entrada da aparente normal Arkansas State University

Arkansas State University 02

Um saguão interno desnecessariamente largo antes e agora ainda mais sem sentido

Arkansas State University 03

Um grave acidente de modelagem que talvez explique a fuga de todos os humanos do campus

East Carolina University

Um navio pirata faz parte da East Carolina University, por motivos que nunca serão esclarecidos

Northern Virginia Community College

A Northern Virginia Community College possuía pontos de teleporte para salas de aula, o que ironicamente destruía todo o conceito de espaço físico e apontava uma das grandes falhas das universidades virtuais.

Northern Virginia Community College 02

Uma vez teleportado, o aluno assistia uma aula que nada mais era que uma exibição de Powerpoint no final das contas.

Northern Virginia Community College 03

O importante é "ficar confortável", mesmo em sofás no meio da floresta com a mensagem martelada na tela.

Ohio University

A Ohio University mencionava uma "certificação em mundos virtuais" que chegaria em 2009. Hogan não encontrou qualquer referência a esta certificação, seja no site da universidade ou mesmo no Google.

Ohio University 02

A ilha da universidade teve seu espaço aéreo ocupado por "sem-teto" virtuais...

Ohio University 03

... mas nem os ocupantes "ilegais" da ilha continuaram habitando o lugar.

Hogan entrou em contato com todas as universidades visitadas no Second Life para tentar entender o que deu errado na estratégia aparentemente infalível de operar dentro da realidade virtual. Nenhuma delas respondeu.

A compra de cada um destes espaços custa mil dólares na tabela de hoje. Pode-se apenas imaginar o preço no competitivo mercado do auge do serviço. Seu aluguel mensal continua sendo cobrado e custa em torno de 300 dólares. Alguém em algum lugar continua autorizando o pagamento. Talvez na esperança de que o Second Life ainda se torne a promessa que fez. Talvez porque os próprios pagamentos também tenham se perdido nas engrenagens mecânicas, com máquinas pagando contas para máquinas para que outras máquinas mantenham funcionando um espaço que nenhum humano visita mais.

Ouvindo: Alien Sex Fiend - Do It Right
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3 comentários:

Helder disse...

Realmente amo esses artigos! Muito bom!

Marcos A. S. Almeida disse...

Apesar de nunca ter entrado nesse "Second Life", e estar incrédulo no início , eu passei a acreditar que ele daria certo a partir do momento em que empresas aportaram por lá.Eu o via como uma rede social em 3D , portanto uma evolução do Orkut , por exemplo.Mas conforme dito no texto , decisões equivocas sacramentaram sua morte e hoje , mesmo se bem implementado acho que só dará certo se for em conjunto com algum desses óculos de realidade virtual, que é a nova moda(que a meu ver também não irá longe). E se finalmente ambos morrerem não farão falta alguma.

Pablo Henricky disse...

Me lambro que saiu até uma reportagem em uma grande mídia televisiva da época, não me lembro e foi o Fantástico ou no Jornal Hoje , mas fiquei bem empolgado.

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