Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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6 de agosto de 2015

Gente Como a Gente

naniniExiste um certo preconceito arraigado, principalmente na entre os mais velhos, de que jogos eletrônicos fazem parte de um nicho obscuro de nerds, geeks, gamers, gordos do porão que desperdiçariam sua vitalidade e suas chances de "pegar mulher", essa grande meta do macho medieval ocidental. Se existe alguém que se encaixa no estereótipo, é como o caviar: nunca vi, eu só ouço falar.

Ainda que essa visão esteja mudando a passos de tartaruga, deslizes do jornalismo marrom, esse suposto baluarte da informação e da investigação, apenas reforçam o estigma. Tardiamente, até mesmo a sociedade americana desperta para o fato de que jogos eletrônicos foram apenas uma cortina de fumaça para tantos assassinatos em massa e a culpa está em outro lugar.

Mas muitas vezes essa carapuça é agarrada com força pela própria comunidade de jogadores e enterrada até cobrir os olhos, criando-se regras para o que pode ser o trugamer. Em outras, apenas suspiramos diante de mais uma demonstração de preconceito, damos de ombros e retornamos para nossos guetos fechados chamados fóruns, blogs, portais, Twitch, porão, realmente acreditando que somos uma minoria privilegiada, que temos poderes mágicos por curtir algo tão underground, que não impulsionamos a mais lucrativa indústria do entretenimento, que não inspiramos trabalhos acadêmicos ou que precisamos mesmo imitar o cinema para finalmente ganhar relevância artística.

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Coletei aqui um punhado de histórias de pessoas que jogam e que provavelmente você não sabia. Ou porque você também acredita pertencer a algum tipo de elite que sabe o que é um jogo ou porque você acredita que essas pessoas teriam "algo melhor" para fazer em seu tempo livre. Ninguém se espantaria se essas pessoas gostassem de ler, ou de ouvir música, ou de ir ao cinema, ou passear na praia. Mas ainda causa perplexidade que elas joguem.

Lobby de Jogadores

O ator Warwick Davis talvez não seja mais tão famoso nos dias de hoje. O anão foi o Professor Flitwick da franquia Harry Potter, mas muito antes disso ele trabalhou com George Lucas na conclusão de uma certa trilogia espacial. No papel do Ewok Wicket, Davis foi apresentando nos bastidores ao seu primeiro jogo eletrônico, rodando em um ZX81. Era um sapo que precisava atravessar um rio pulando em troncos flutuantes. O jogo era tão viciante que Davis comprou um ZX Spectrum logo depois das filmagens e nunca mais parou.

Quem era o dono daquele ZX81 que iniciou o jovem Ewok no mundo dos jogos? O ator David Prowse, o homem por trás da roupa de Darth Vader em Star Wars.

Pendleton Ward, o criador de Adventure Time, começou aos oito anos com Altered Beast. Apesar de totalmente inapropriado para a faixa etária, o criador da Princesa Jujuba e do Canelinha não se tornou o psicopata violento que a mídia tanto teme. Cresceu e chegou a liderar o ranking mundial de jogadores de Tron 2.0. Na época do Ensino Médio, rascunhou alguns níveis para jogos no Klik & Play, mas nenhum projeto foi para frente. Seu jogo favorito é Myst.

Jogos ainda fazem parte da vida de Ward. Ele chegou a manter um Tumbler sobre o que estava jogando, além de ser um depósito de gifs do Mario criados por ele. Boa parte da equipe de criação do desenho Adventure Time também curte jogos e essa paixão transparece em alguns episódios.

O Tony Stark do mundo real, o bilionário Elon Musk, não poderia ter uma seleção de jogos favoritos diferentes. Para quem pretende mudar o mundo com viagens espaciais baratas e carros elétricos (além de outros planos mirabolantes), é claro que a trilogia Mass Effect e a franquia Civilization aparecem na sua lista. Mas Musk também teme que as tecnologias possam um dia se voltar contra a raça humana. Novamente, não por acaso, sua lista de jogos fecha com os distópicos Fallout e Bioshock. Não seria errado afirmar que neste caso a visão que o magnata possui a longo prazo influencia diretamente sua escolha de títulos.

Hillary Clinton - Game Boy

Hillary Clinton e seu Game Boy, 1993.

O roteirista Alex Garland foi o responsável pelas histórias de filmes como Extermínio, A Praia (que tem uma sequência inteira inspirada na estética dos jogos eletrônicos) e Dredd. Recentemente, fez sua estreia na cadeira de diretor com o excelente Ex Machina. Seu nome já esteve ligado a uma das tentativas de transformar a franquia Halo em filme. Mas muito antes disso, seu melhor amigo de infância ganhou um Pong. Tempos depois, outro amigo ganhou um Atari. Em pouco tempo, o menino Garland estava jogando o tempo todo nos fliperamas da vida, trocando moedas pela oportunidade destruir os Space Invaders.

Cresceu para se tornar um adulto que aprecia tanto o mata-mata frenético em larga escala e com grandes valores de produção de um Battlefield 3 quanto a introspecção e o escopo reduzido de um Braid, passando pela complexidade temática de Bioshock. Como roteirista, ele confessa ter amado o FPS da Irrational Games. Depois do final, Garland afirmou que sentou e passou seis horas só pensando no que os desenvolvedores haviam conseguido com Bioshock.

O nome Jake Adelstein certamente não é conhecido no Ocidente, mas ele foi o primeiro jornalista americano a ser contratado pelo Yomiuri Shinbun, o maior jornal impresso do Japão. Em doze anos de trabalho na redação, foi o responsável por revelar segredos da Yakuza, a versão oriental da Máfia italiana. Ao ponto de ter um segurança particular 24 horas por dia e estar sob proteção policial. Segundo Adelstein, boa parte das empresas japonesas, incluindo as de jogos, tem investimentos da Yakuza. Uma delas, inclusive, tem uma série de jogos sobre a organização criminosa, ainda que o jornalista não fale em nomes.

Por razões óbvias, Adelstein não costuma muito sair de casa atualmente. Como um apaixonado por jogos eletrônicos, ele aproveita o tempo para curtir seu estilo de jogo favorito: stealth. Sintomático? Talvez. Adelstein é um fã incondicional de Garrett e a série Thief. A moralidade ambígua, as manipulações do enredo, a necessidade de ser mais inteligente que seus oponentes para evitar o confronto, são características que ele aponta como destaques da franquia.

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Will Smith jogando RBI Baseball em um NES, 1990

A atriz Mila Kunis já foi jogadora assídua de World of Warcraft, daquelas que convoca todos os amigos para jogar também, funda Guilda, organiza raids, discute estratégias e passa o dia no jogo fazendo grinding. Como muitos jogadores, seu interesse foi diminuindo enquanto seus amigos iam desistindo do MMORPG. A atriz nascida na Ucrânia também já contou uma outra versão da história, onde admitiu que teve que parar totalmente com o jogo porque consumia tempo demais e chegou a sentir a abstinência do mundo virtual.

Mas Kunis trocou seis por meia dúzia e em 2012 se disse tomada por Call of Duty e não se cansar de matar zumbis nazistas.

Quem vê a bombshell Megan Fox em filmes que atiçam os hormônios do público masculino talvez não imagine a atriz detonando em partida após partida de Halo na Xbox Live, a rede de jogatina que carrega a fama de ser hostil com jogadoras. Mas é justamente lá que Fox está sempre, uma vez que ela não joga mais o modo campanha da franquia Halo.

Sobre seus companheiros aleatórios da Xbox Live, ela se diverte: "eles são todos um bando de caras e está claro que eu sou uma garota então eles ficam fazendo troça com meu nome, e eles não tem ideia de que estão zoando de mim".

Outra figura carimbada de Hollywood, Samuel L. Jackson já afirmou em entrevista que cresceu com Pong e Space Invaders, mas hoje em dia é fã da série Assassin's Creed, além de ser obcecado por qualquer jogo de tiro em primeira pessoa. Qualquer um, independente do console. "Eu sento em casa e pego em armas em frente da TV o dia todo! Me dá uma arma e é tudo que eu preciso", disse o homem que já foi Nick Fury no cinema, além do inesquecível "Bad Motherfucker" de Pulp Fiction.

Somos Todos Jogadores

Eu gostaria que esta pudesse ser a última postagem sobre o tema. Que a pergunta "qual é o seu jogo favorito?" fosse tão trivial como "o que você levaria para uma ilha deserta?" ou "qual foi o lugar mais estranho onde você fez amor?". Na Nigéria ou Iraque ou Brasil ou Estados Unidos. Somos todos jogadores, não somos definidos pelo hobby, ainda assim ele faz parte de nossos dias e isso é completamente normal.

Zelda e Robin Williams

Ouvindo: Pearl Jam - Pry, To
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2 comentários:

Valter Machado disse...

Esse artigo serve para lembrar uma coisa que as pessoas esquecem (as vezes deliberadamente): jogadores são pessoas. Pessoas são jogadores. E só. E não somos melhores nem piores que ninguém por isso.

Moacir disse...

Os games fazem parte da sociedade moderna, como eram e são o rádio, a TV e etc...

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