Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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1 de junho de 2015

Coração das Trevas

"Onward, warriors of the Monolith.
Avenge your fallen brothers.
Blessed, as they are in their eternal union with the Monolith.
Bring death to those who spurn the holy power of the Monolith.
"

Monolith Preacher

Do alto de um edifício, eu contemplo a paisagem na Zona de Exclusão de Chernobyl. Estou em Pripyat, o coração da região mais inóspita conhecida pelo Homem. Eu não pertenço a este lugar, ninguém pertence a este lugar. Mas neste momento, com o céu límpido e o Sol brilhando no céu, observando a desolação do alto é quase possível esquecer os horrores que existem aqui. Esquecer que há 26 cadáveres neste mesmo prédio, que abri caminho até o topo com chumbo, coragem e sangue. Esquecer que há um número indeterminado de anomalias elétricas do meu lado que podem me fritar se der um passo na direção errada. Esquecer que logo ali na esquina há um Bloodsucker, uma das criaturas mais repulsivas que já vi, com tentáculos na mandíbula capazes de prender sua cabeça enquanto o monstro inteligente drena seu sangue. Quase posso esquecer que no horizonte há uma espécie de cipó parasita gigante conectando outros dois prédios e que uma estranha energia esverdeada percorre sua extensão.

Mas o Sol está brilhando. Há paz. É tão raro por aqui. Sem emissões, sem nuvens carregadas, sem aquela chuva gélida. Nesse precioso minuto, Pripyat é bela, poética. Um testamento arquitetônico da insanidade humana e do inexplicável.

Entretanto, tenho trabalho a fazer. Pego meu rifle Gauss e miro na cabeça do Bloodsucker. Ele não tem a mínima chance. Não há a menor necessidade disso. Eu apenas lembro de todas as vezes que cruzei com um de sua espécie, o pânico, a luta desesperada para atingir um mutante que pode ficar invisível. Eu penso nos tentáculos. Na forma inumana como eles dormem em seus covis. Aperto o gatilho. Ele explode.

Isso é S.T.A.L.K.E.R.: Call of Pripyat.

Call of Pripyat 38

Visto de Turista

Você começa o jogo de forma suave. Ao contrário de outros jogos da franquia, aqui você é um militar devidamente equipado (a princípio) com responsabilidades, uma missão a cumprir e, diria eu, um total desprezo pela Zona.

Minha impressão inicial não foi tão positiva quanto à do S.T.A.L.K.E.R. original. O nível de dificuldade foi amenizado, a primeira área do jogo não é tão hostil como deveria ser. Ou será que não?

Felizmente a desenvolvedora GSC Game World entendeu que tensão pode até ser construída pela eminente ameaça de sofrer dano e ver sua barra de vida caindo, mas a melhor tensão, aquela que gruda na sua alma e não sai mais é aquela construída aos poucos, com contexto, enredo, inimigos bestiais, sons onipresentes de medo, trilha sonora perturbadora. Em Call of Pripyat você inevitavelmente vagará por longos minutos sem enfrentar nada, a não ser os seus próprios temores, apenas para ser confrontado, sem aviso prévio, com algo amedrontador. Nem toda luta é de vida ou morte, mas cada uma delas remove mais um tijolo da muralha da sua sanidade.

Call of Pripyat 19Call of Pripyat 35

A Zona se infiltra na sua mente. É uma geografia quase viva, um cenário transformado em personagem constante, que desafia explicações, que emerge da jogabilidade dinâmica e imprevisível, mas também se faz presente nos eventos pré-programados, quase como se seus criadores conhecessem uma fórmula secreta de manter o jogador em permanente estado de alerta. O grotesco, o deformado, o incômodo, ditam as normas. E, mesmo ali, ainda há tempo para um violão, uma conversa, folhas verdejando.

Call of Pripyat 11Call of Pripyat 12

Você entra na Zona como um visitante, alguém que irá apenas realizar uma missão de resgaste. Mas ela te enlaça, te arrasta e quando você se dá conta está participando da vida de seus habitantes, salvando vidas, tirando vidas, caçando monstros que podem ou não ser mutações, tentando decifrar o enigma desta esfinge. Você entra como turista, mas por muito pouco não fica para sempre.

Ecossistema do Medo

Andando de volta para uma das bases vejo um par de bandidos. Minha reação inicial é evitá-los. Já matei um número suficiente deles em outras ocasiões para que a facção talvez me veja como inimigo. Visualizo no binóculo e a interface me diz que são amigáveis.

Então me aproximo para negociar alguns itens que peguei de corpos caídos no chão. Estamos negociando quando um monstro gigantesco surge de lugar nenhum e derruba o bandido líder. Não há muito tempo para pensar. Atiro na besta, que não para de se mover um segundo e salta sobre o outro bandido. Ela erra o pulo ou o pobre coitado tem a sorte de se esquivar. Ele atira também, mas nada parece deter a fera. Com uma patada, o Chimera manda sua vítima longe e se volta para mim. Descarrego tudo que tenho. Ela cai.

Ouço o primeiro bandido, o infeliz com quem estava negociando, gemer no chão. Ainda está vivo. Posso recuperá-lo com um Kit de Cura. Ou dar o tiro de misericórdia e roubar suas coisas. Essa é a Zona. Ele é um Bandido. Não há ninguém por perto para ver. Pela lógica da mecânica fria, o melhor caminho é a execução. Eu curo ele. Negociamos e vou embora.

No caminho para base, passo por um tiroteio violento entre Stalkers e Bandidos. Atravesso o fogo cruzado sem interceder. Esta tarde não matarei bandidos.

Nada disso foi pré-programado. Entretanto, faz parte da rotina. A Zona se move, vive, cria seus pequenos dramas e tragédias ao meu redor como se meu personagem nada significasse. É um dos raros jogos em que você se sente menor que o mundo, que não faz a diferença e é apenas mais um lutando contra um universo que não é justo.

Call of Pripyat 18

Saindo do Inferno

Na minha primeira tentativa de vencer o jogo, todos que estavam sob minha responsabilidade morreram. O resgate foi embora sem mim. Sozinho, cercado por inimigos e pelos corpos dos meus aliados, compreendi que aquele era o final mais adequado para a jornada. A Zona não é um lugar para vitoriosos, para finais felizes, para heroísmo. É um lugar de tristeza, de vidas desperdiçadas em troca da promessa da fortuna, atraídos pela Chamado de Pripyat. Eu morro, transpassado pela bala de um servo da Zona. Estou livre.

Entretanto, a GSC Game World não teve a ousadia de tornar canônica tal conclusão. Seria a consagração de um destino que se iniciou lá no começo com o fracasso da missão militar enviada para investigar a Zona.

Ao contrário de outros títulos, este entende que não é necessário um chefe final para desafiar o jogador. Não é um jogo sobre quantos mutantes especiais você matou ao longo caminho. Na verdade, estas aberrações radioativas até existem, mas são raras. A tensão não está na abundância, mas na incerteza de quando elas irão cruzar seu caminho, seja por azar ou por design.

O final é uma corrida desesperada pela salvação. Chega em um momento em que você já está saturado da Zona. Quando você percebe que os mistérios não terão resposta porque, assim como você, ninguém sabe de nada. A Zona é a Zona, o estranho acontece, a esperança morre. Ninguém deveria estar aqui. Você entrou para resgatar pessoas e sai com tanto medo quanto elas.

Tentei novamente a sequência final. Fui derrubado.

Tentei uma terceira vez. Com sangue no olho e determinado a tentar ser herói apenas mais uma vez. A dar meu dedo do meio para o inescrutável, cuspir na cara da Zona e gritar: "desta vez, não".

A cena final é linda. O jogo te oferece a possibilidade de continuar na Zona depois do término da história, para continuar explorando. Não consigo me imaginar dizendo "sim". Parto. É a maior sensação de alívio que já tive com um jogo.

Buscando inspiração em Fallout, Call of Pripyat pesa suas ações ao longo da trama e revela o que aconteceu com locais e pessoas que você tocou. Apesar de tudo que a Zona tentou para te convencer do contrário, você fez a diferença. Há fracassos, mas há acertos.

Para meu espanto, a narrativa revela que seu personagem retorna para a Zona no futuro, para residir permanentemente como um Adido de Segurança do Exército. Porém, não consigo me imaginar dizendo "não".

O Chamado é muito forte.

Call of Pripyat 48

Ouvindo: Poesie Noire - Mirror Man
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12 comentários:

Luiz Antonio disse...

Esse jogo ta na minha wish list da Steam há tempos esperando um desconto e até agora nada.

Alias, talvez só os técnicos da NASA expliquem como que uma lista de desejos com vários jogos como a minha pode atravessar tanto tempo sem que nenhum jogo dela entre em promoção.

Levando em conta que todas as segundas feiras entram no mínimo 100 jogos em promoção e mais as promoções de meio de semana e fim de semana isso deveria de ser matematicamente impossível né?

Bom... Mas quem sabe nessa Summer Sale ele venha com generosos 80% de desconto(se vier 90% não vou ficar brabo).

Fausto Albertoni disse...

[...]dar o tiro de misericórdia e roubar suas coisas. Essa é a Zona. Ele é um Bandido. Não há ninguém por perto para ver. Pela lógica da mecânica fria, o melhor caminho é a execução. Eu curo ele. Negociamos e vou embora[...]

Certa vez, estava eu na espreita, olhando de longe um tiroteio entre Stalker e Bandidos, ansiando como um abutre pelos cadáveres resultantes do conflito. Senti vergonha de minha atitude.
Stalker mexe com seus valores, dificilmente aponta de forma clara os nossos erros, mas volta e meia fica a deixa.

Aquino, vc chegou a encontrar o "Oasis"? Durante essa busca, quase perdi o juízo, e como vc mesmo disse: " assim como você, ninguém sabe de nada. A Zona é a Zona, o estranho acontece, a esperança morre"

C. Aquino disse...

Luiz Antonio, eu só lamento que não tenha concluído o jogo e a análise a tempo. Porque encerrou no sábado um Bundle de 5 dólares que incluía Call of Pripyat e outros 7 jogos de qualidade mediana. Mas, não se preocupe. Não foi a primeira vez que o título fez parte de um pacote desses e certamente não será a última.

Fausto, penso que terei que fazer parte da lenda. Oasis existe e eu encontrei. Mais não revelo...

Fausto Albertoni disse...

Eu encontrei, mas quase perdi o juízo diante do enigma. Meu intelecto inferior ficou sobrecarregado kkk...E mesmo assim, diante do Oasis ainda haviam tantas dúvidas, que resolvi deixar de lado a tentativa de entender tudo aquilo.

Mais uma vez, obrigado por compartilhar com seus leitores.

Luiz Antônio disse...

Aquino para que eu possa comprar tem que ser na Nuuvem, Origin ou Steam devido a um detalhe que se chama boleto bancário.

E prefiro que continue assim.

Não é por falta de oportunidade. Até hoje tenho resistido heroicamente as constantes investidas de ofertas das operadoras para ter um cartão internacional.

O problema é que não resisto a uma boa oferta.

Se já comprando somente com boleto já sou "quase" um acumulador de jogos imagina com cartão internacional em todos esses portais (GOG, GMG, Humble Bundle, etc...) de venda?

O grande culpado foi o Gabe Newell que além de me tirar da pirataria ainda me transformou num colecionador de jogos com as promoções da Steam.

Toda a segunda feira é o mesmo ritual: A partir das 13:55 eu já fico atualizando a página da Steam para ver quais vão ser as promoções da semana.

Quando chega esta época (mês da Summer Sale) e em Dezembro (mês da Holiday Sale) fico mais faceiro do que pinto no lixo. Só pinçando as melhores ofertas dos jogos que provavelmente vou querer jogar e de jogos que joguei a versão pirata e que foram tão bons que merecem que eu pague a versão original como uma forma de redenção.

Para proteger minha carteira e não acabar mendigando de porta em porta para ao menos poder comprar um Bad Rats da vida criei uma regra: NUNCA, JAMAIS e EM TEMPO ALGUM compro jogos Blockbuster no seu lançamento, muito menos jogos caros. Tem muito jogo bom e barato que eu ainda nem comprei. Não tenho a menor necessidade de estar entre as primeiras pessoas do mundo a jogar um jogo. Mas não condeno quem compre, afinal, alguém tem que pagar pela hype alheia. :)

Como todo regra tem exceção... A minha regra só poderá ser quebrada se e quando for lançado Half Life 3. Nesse caso (e somente nesse) a regra será quebrada nem que seja preciso rodar a bolsinha na praça para dar dinheiro pro tio Gabe. :)

Fausto Albertoni disse...

Luiz Antônio,
Se você fundar um JACC-Joagadores Anônimos e Comporadores Compulsivos, ou algo do gênero, serei o primeiro a me inscrever na re-habilitação. kkkk...Também sigo o mesmo ritual.

Denrock disse...

Call of Prypiat é muito bom mesmo, mas o 1º ainda é melhor

eu achei o oasis tambem, há

Voces se encontraram com o Strelok (o personagem principal do 1º jogo) ??

puts, eu achei muito legal quando vi ele! pensei "que da hora, o heroi do 1º jogo ainda ta aqui!! heheh

Luiz Antônio disse...

Nem me fala Fausto. Eu fico na maior expectativa quando está perto de alguma promoção grande da Steam.

Comprar um jogo original bom e barato, como por exemplo Skyrim por R$ 5,00, é quase tão bom quanto jogá-lo. Não dá pra resistir, a compulsividade fala mais alto. :) Deve ser a mesma coisa que as mulheres sentem quando vão numa loja de sapatos, por exemplo.

Mas tem o lado positivo dessa compulsão: É legal olhar a minha biblioteca com alguns jogos que ainda nem instalei mas que eu sei que são originais e são meus e que posso baixa-los e instalá-los a hora que eu quiser.

Claro que não é a mesma coisa que olhar a versão de colecionador (com todos aqueles itens legais que acompanham) do seu jogo predileto na estante da sala mas... Considerando o país em que vivemos (onde as collector's edition custam 10x mais do que nos países desenvolvidos) já me contento com as versões digitais mesmo, pois há poucos anos atrás nem essas versões eram baratas. Na realidade nos consoles as versões digitais continuam sendo caras do mesmo jeito que as mídias físicas... Coisas de Brasil...

Mas pode deixar que tão logo as carteirinhas do JACC estejam prontas vou mandar a sua como sócio cofundador. :)

Anônimo disse...

https://pt.wikipedia.org/wiki/Stalker

Anônimo disse...

este jogo mereceria uma reimaginação

Samir Araujo Mamude disse...

Para quem gosta de fallout (meu caso), vai gostar desse jogo? FPS não é muito minha praia, mas esse jogo parece interessante.

C. Aquino disse...

Samir, Call of Pripyat tem ainda menos situações de tiroteio do que Fallout. Pode ir na boa, porque o clima é bem parecido.

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