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28 de novembro de 2014

Movimento da Elite

Elite Dangerous

O Xbox Plus está fazendo uma espécie de diário de bordo do jogo Elite: Dangerous, o multimilionário retorno da franquia de exploração espacial que quebrou recordes de arrecadação recentemente. Você pode conferir os relatos dos primeiros dias do Marcos A.T. Silva no jogo e sua evolução como piloto em um título que promete trazer a vastidão do espaço para nós meros mortais do Século XXI, que já batemos palmas quando conseguimos colocar uma sonda em cima de um cometa.

Mas, se de um lado Elite: Dangerous olha para o futuro, por outro lado é preciso entender seu passado para assimilar melhor o que a criação de David Braben significou na indústria do jogo eletrônico.

Elite---Evolução

Trinta anos separam as duas imagens

Mais precisamente, precisamos voltar nossos olhos para mais de trinta anos no passado, para 1982 quando o primeiro Elite chegou a ser rejeitado por uma produtora por ser diferente demais. David Braben, então com 19 anos, havia acabado de conhecer o também programador Ian Bell, apenas um ano mais velho. Conversa vai, conversa vem, descobriram que eram apaixonados por jogos e pensavam de forma parecida. Resolveram criar um jogo em conjunto, um simulador espacial que conseguisse capturar o fascínio exercido por obras como 2001: Uma Odisseia Espacial, o primeiro Battlestar Galactica e os trabalhos de Isaac Asimov, Larry Niven e muitos outros.

Braben e Bell

Da esquerda pra direita: Elite, David Braben e Ian Bell.

O primeiro esboço foi recusado, mas a dupla foi bater na porta da Acornsoft, que deu o aval para o jogo. Ao contrário do ritmo industrial de produção dos jogos da época, cujo desenvolvimento era medido em meses, às vezes em semanas, Braben e Bell levaram dois anos para programar seu colosso, estudando dia e desenvolvendo de noite. Usaram Assembly, linguagem de máquina que apenas a elite dos programadores pode dizer que domina. O objetivo era espremer o máximo de complexidade no mínimo de bytes possível.

Elite trazia 256 sistemas solares abertos para exploração, combate, comércio e descoberta. É considerado um dos primeiros jogos de mundo aberto e sem fim. Muitos jogadores consideraram o título complicado e estranho para os padrões da época. Um título sem objetivos em uma era dominada por clones de Pac Man e Defender causava olhares enviesados. Sophie Wilson, cientista da computação, funcionária da Acornsoft e criadora de muitas das rotinas dos processadores ARM declarou que aquele "era o jogo que não devia ter sido escrito".

Elite

Ainda assim, vendeu horrores. E foi portado para quase todos os sistemas e consoles que existiam nos anos 80/90. Foi aclamado pela crítica. Faturou prêmio após prêmio. Fundou um gênero. Sem Elite, não haveria Wing Commander, a série X, Freelancer, EVE Online ou mesmo No Man's Sky. Apesar de Braben e Bell admitirem ter se inspirado em Star Raiders (1979) e mesmo esse ter sido precedido por Space Trader (1974!), é fato inegável que Elite estabeleceu as regras e o parâmetro com o qual todos os jogos seguintes seriam comparados.

Elite 02

Elite também foi o primeiro jogo eletrônico a ter um livro publicado. No caso, The Dark Wheel, que aprofundava a história e as nuances daquele universo que não caberiam nem com todo o Assembly do mundo. Escrita pelo renomado Robert_Holdstock, o pequeno romance acompanhava o jogo e não era vendido separadamente.

Então, o que aconteceu nos anos seguintes? Por que a série mergulhou na escuridão por quase duas décadas?

Brigas nas Estrelas

Enquanto o primeiro jogo era portado e adaptado para diversos sistemas, a relação entre Braben e Bell foi se desgastando nos bastidores. Bell mal e porcamente participou da produção da primeira continuação, batizada de Frontier: Elite II, lançada em 1993. Por discordar dos rumos que o jogo estava tomando, Bell pulou fora e sustenta que nunca viu ou jogou a versão final. Dois anos depois, quando saiu Frontier: First Encounters (que nem levava o nome Elite), Braben e Bell estavam se vendo somente nos tribunais.

Frontier - First Encounters

Apesar de quase uma década de evolução gráfica e de trazerem um universo praticamente infinito, as duas continuações não tiveram a mesma recepção do original. Braben optou por aplicar leis da Física Newtoniana para os movimentos das naves no espaço, ao contrário do controle "arcade" adotado no primeiro Elite e nos jogos que ele inspirou. Resultado: a realidade é sempre menos divertida que a jogabilidade e uma franquia que já tinha fama de difícil ficou ainda mais hostil. Era o que Bell havia tentado alertar: "jogos são para serem jogados e jogatina é sobre diversão não realismo".

Para piorar a situação, Frontier: First Encounters foi lançado antes do time de desenvolvimento garantir que estava concluído, por uma decisão executiva. Se você acha que lançamentos apressados e cheios de falhas foram inventados pela EA ou pela Ubisoft, é bom saber que a prática é ancestral. Braben chegou a ser processado pela produtora e o jogo foi tirado do catálogo, apesar dos patches publicados depois.

Desacreditado, Braben planejou o quarto título da franquia em 1998, sem sucesso. Nenhuma produtora tinha interesse na marca, nenhum investidor apostava em Elite. Para complicar sua vida, no ano seguinte ficaria ainda mais agressiva sua disputa com Bell. Seu ex-parceiro achava que já era hora de distribuir o primeiro jogo de graça na Internet.

Saindo do Buraco Negro

Elite Dangerous - Wallpaper

Braben e Bell acabariam acertando os ponteiros anos depois, embora nunca mais tenham trabalhado juntos. O primeiro continuaria usando a marca "Elite", mas o segundo poderia oferecer o primeiro jogo e suas diferentes versões de graça em seu site. A dupla voltaria a aparecer lado a lado em 2009, durante um evento de jogos e celebrando os 25 anos do lançamento do clássico.

Ainda perseguindo um quarto jogo, Braben comentaria em 2011 durante a GDC que o título não tinha saído de sua mente e que "seria uma tragédia" se não fosse assim. Ainda batizado de Elite 4, o novo capítulo da aventura espacial sofria para obter patrocínio.

Em 2012, Braben encontraria refúgio no Kickstarter. Vinte e oito anos depois de ter marcado uma geração, Elite encontrava o carinho e a esperança devolvidos. Foi pedido 1,25 milhão de libras. Foram arrecadados 1,57 milhão.

Essa longa jornada de altos e baixos está programada para terminar no dia 16 de Dezembro, quando os portões do universo se abrirão novamente para uma legião de ávidos pilotos espaciais. Conseguirá o sonho de Braben (e Bell, não esqueçamos) figurar novamente entre a elite da indústria dos jogos? Se depender dos fãs já conquistados, novos e da antiga, tudo parece indicar que sim.

elite-dangerous-screenshotelite-dangerous-screenshot-02

Ouvindo: Tommy Tallarico - Submerged
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3 comentários:

José Guilherme Wasner Machado disse...

Excelente post!!

Por sinal, Elite: Dangerous é o único título multiplayer que me dá vontade de vencer minha resistência contra este tipo de jogo...

Shadow Geisel disse...

"jogos são para serem jogados e jogatina é sobre diversão não realismo".

não conheço a série Elite mas não consegui deixar de lembrar do XCOM. algumas pessoas reclamaram pela suavização em alguns elementos que antes eram mais burocráticos na jogabilidade. eu acho importante lembrar que o tempo passa e o público de uma franquia muda. é mais que louvável quando um estúdio consegue resgatar a essência de uma franquia de uma forma que não desagrade os fãs antigos e ainda sirva de convite aos novos jogadores. Outro exemplo disso é Fallout 3.

Susej Menegroth disse...

Quando falou que faria um post sobre Elite: Dangerous, achei que também havia sucumbido e comprado o jogo após a primeira postagem no Xboxplus. Um erro honesto, se se levar em conta que estava e ainda estou animadíssimo com o jogo.

Tanto que tenho mais dois vídeos para dividir com vocês. Um de combate, onde consegui colocar uma nave, superior em quase todos os quesitos em relação à minha própria nave, para correr e um espetacular sistema estelar trinário.

Enfim, jogo recomendadíssimo a todos que curtem space sim.

Links dos vídeos:
https://www.youtube.com/watch?v=zVVU6X1UWNc
https://www.youtube.com/watch?v=p5Bq__4ZsIc
@Wasner
Pode pegar o jogo sem medo então. Você pode jogá-lo no modo open play, onde encontrará outros jogadores, no modo privado, onde só encontrará as pessoas na sua lista de amigos (os amigos precisam aceitar), ou no modo solo, onde só encontrará NPCs.
Mas te digo que não faz muita diferença. No lançamento da versão gamma, todos começaram em sistemas bem próximos e era bem fácil de dar de cara com outtros. Agora que já se passou um tempo, estão todos espalhando-se pelos 400 bilhões de sistemas e as chances de encontrar outro jogador humano ficam menores a cada dia. Mas não pense que sua vida será fácil. Os piratas npcs dão trabalho. Ainda mais se não estiver bem equipado para combate.

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