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2 de novembro de 2014

Eu Li: Hell: A Cyberpunk Thriller

HellQuem acompanha o blog de longa, longa data, talvez se lembre de que o adventure Hell: A Cyberpunk Thriller é um velho esqueleto guardado no meu armário, um dos mais intrigantes pioneiros bodes expiatórios da mídia alarmista. Foi um dos primeiros jogos acusados de estar envolvido em assassinatos reais. A Veja chegou a chamá-lo de "O Jogo da Morte".

O que explica o fato de eu não ter resistido à oportunidade de comprar a novelização do jogo em um site de livros usados. Não lembro mais o endereço original, mas você poderia adquiri-lo por um centavo(!) na Amazon agora.

Exceto que é um grande lixo.

Não o jogo, que ainda não tive a oportunidade experimentar, embora esteja disponível nos porões do abandonware. Mas o livro, com absoluta certeza.

Adaptado por um certo Chet Williamson, que parece ter feito carreira em livros encomendados de outros universos ficcionais, aparentemente o enredo é fiel aos eventos narrados no jogo e, segundo o próprio autor, a maior parte dos diálogos foram extraídos na íntegra. Para dar algum crédito ao trabalho de Williamson, admito que é quase impossível perceber que se trata da adaptação de um adventure das antigas e apenas em um par de cenas fica visível a clássica mecânica do "combine dois objetos para resolver o enigma".

A narrativa corre fluida aqui e este é justamente o ponto mais fraco de todo o livro. A narrativa é fluida demais, ligeira demais, com poucos ou nenhum parágrafo dedicado à composição de personagens, que se sucedem no papel com a velocidade e a superficialidade de um FPS. Eventos que teriam proporções trágicas nas mãos de outros escritores, aqui são tratados com absoluta leviandade e não causam o menor impacto no leitor. Subtramas são apresentadas e resolvidas em meras páginas, sem que você tenha tempo de avaliar o tamanho do problema ou mesmo se importar com seus resultados.

Hell

Hell: A Cyberpunk Thriller, o livro, é uma sucessão de equívocos que podem ser destrinchados a partir do título. Vamos por partes, então.

A combinação de "Inferno" e ficção-científica seria o grande trunfo do universo apresentado, se tudo aqui não fosse tratado com um verniz de filme Z. Você quase consegue visualizar a roupa de borracha dos demônios ao invés da atmosfera macabra que a trama necessitaria para tentar ser verossímil. A cafonice dá a tônica em um enredo onde Satã realmente é mostrado como uma "criatura" vermelha, com chifres e rabo pontudo.

A absoluta ausência de terror nesse inferninho tirou essa postagem do Outubro do Horror, para dois dias depois.

Por sua vez, chamar a narrativa de "cyberpunk" é ofender a obra de nomes como Neal Stephenson, William Gibson e Bruce Sterling, que foram muito mais ousados em sua concepção de futuro conectado uma década inteira antes deste livro ser regurgitado da gráfica. No quesito ficção-científica e visão da distopia, o que vemos aqui se aproxima muito mais dos filmes de cyborg produzidos às dezenas nos anos 80.

Finalmente, o próprio termo "thriller" está mal-empregado. Um "thriller" pressupõe um suspense, uma tensão sobre o destino dos protagonistas e seus coadjuvantes, o que está longe de acontecer. Todas as lutas e situações de perigo são contornadas sem que o autor dê um único segundo a entender que o perigo é real e o cenário desesperador. Até o único momento em que vaca vai realmente pro brejo, mas mesmo aí Williamson fracassa em nos oferecer o peso exigido pela proporção do resultado.

Bar

Na metade do livro somos apresentados à pior reviravolta de enredo dos últimos 20 anos. E o que era ruim fica pior. A regra é clara: se você vai reverter a visão da audiência, entregue algo que é ainda mais retumbante do que você tinha antes, não algo que dilui a zero o que você construiu, ou tentou construir.

Como se esse crime não fosse grave o bastante, a trama tenta introduzir outras reviravoltas menores, mas são tão óbvias que não enganam ninguém.

É desnecessário, mas reforço: não há um pingo de "satanismo" ou indução de crimes na narrativa. No universo do jogo, o Inferno é um lugar concreto onde os pecadores (leia-se "inimigos do sistema") são condenados à torturas eternas. Você acompanha as desventuras de Gideon Eshanti e Rachel Braque, um casal de ex-funcionários de uma teocracia ditatorial que é marcado para execução. Enquanto tenta descobrir por que o regime a que servia agora os quer mortos, a dupla irá se unir à resistência para depor o ditador e destruir o Inferno. Ou seja, o Mal é retratado como um caminho a ser combatido, de preferência com armas de grosso calibre e piadas, e não como uma alternativa de vida a ser abraçada. A única pessoa que você fica com vontade de matar ao terminar o livro é o próprio Chet Williamson, mas você perdoa porque ele devia ter suas contas para pagar lá em 1995.

Incluindo diálogos repletos de frases de efeito de quinta categoria, personagens que são esquecidos na geladeira, um vilão caricato, planos absurdos repletos de buracos de lógica e um final insosso, Hell: A Cyberpunk Thriller, o livro, é uma obra cujo único valor (além do 1 centavo) é estar ligada a um jogo associado a um "mistério" igualmente barato.

Ouvindo: Joachim Neuville - Greenhouse
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3 comentários:

Anônimo disse...

Aquino,tá tendo uma enxurrada de clássicos da Lucas Arts no GoG

Marcos disse...

aproveitando esses point 'n' click com temáticas polêmicas, ja experimentou Harvester?

è um dos Point 'n' Click mais bizarros que ja joguei

Shadow Geisel disse...

Não tive muita sorte com os livros inspirados em games que li. Diablo 3 A Ordem é bem fraco e não tem muita razão de ser. 1001 Jogos pra jogar antes de morrer é ótimo em sua tarefa óbvia de falar bem dos clássicos, mas no quesito de indicar bons jogos lado B ele se sai mal de uma forma frustrante (pra você e pro seu bolso, que vai amargar algumas cédulas por confiar na palavra dos escritores e comprar bombas como Fuel ou Burnout Paradise). Li o ótimo Rapture, que é canônico e passa uma boa visão dos motivos que levaram Andrew Ryan à construção da cidade submarina. Já paquerei alguns outros livros de games, como os trilhões sobre Assassin's Creed ou God of War, mas ainda não tive tempo (e coragem) para lê-los.

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