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Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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20 de agosto de 2014

Lendo: Luka and The Fire of Life

Salman Rushdie é mais famoso por ter escrito o livro Versos Satânicos e ter sua cabeça literalmente colocada a prêmio por radicais islâmicos. Mas o autor britânico de origem indiana está menos preocupado com política do Oriente Médio e intrigas teológicas do que com a ficção, sendo um dos praticantes do que se convencionou chamar de realismo fantástico, o encontro entre o mundo mágico e o mundo real.

Luka and the Fire of Life

Não por acaso, Luka and the Fire of Life vem acompanhado de uma recomendação do autor de quadrinhos compatriota Neil Gaiman. Se você conhece a obra do homem que recriou Sandman na DC Comics, você já está familiarizado com o trabalho de Rushdie aqui: uma jornada épica por terras estranhas, com coadjuvantes oníricas, um clima de conto de fadas, tudo isso encobrindo um tema sério e adulto, como a Morte.

Este livro de Rushdie ganhou um pouco de holofote fora dos círculos da alta literatura, por assim dizer, por supostamente trazer elementos do mundo dos jogos eletrônicos para o universo do realismo fantástico. Rushdie escreveu o livro dedicado para o seu filho de 13 anos, que, como todo moleque nessa idade e nessa geração, é fã de Mario e outros ícones da jogatina.

Entretanto, estes mesmos elementos fora do seu contexto parecem ser utilizados com pouco jeito por Rushdie, claramente um forasteiro no meio. O protagonista Luka usa save points em sua jornada, tem um mostrador de vidas no canto de sua visão, mas é só isso. Nenhuma das duas concessões a esta "modernidade" tem qualquer influência concreta no desenrolar da história e Rushdie obviamente não entendeu como o conceito de "vidas" funciona, uma vez que Luka costuma perder dezenas com um único golpe. Em dado momento, os mundos de cada jogo são referenciados como existindo com a mesma força que o mundo real ou o mundo mágico das histórias literárias, mas é uma passagem rápida, que nunca é explorada.

Rushdie brilha de verdade quando não está tentando pateticamente falar a linguagem dos jovens digitais e prova, com absoluto domínio, que uma história não precisa de truques baratos para se mostrar atemporal e capaz de cativar aquela mesma juventude que ele está mirando. Por que Luka and the Fire of Life é uma montanha-russa de encantamento, dotada de uma prosa deliciosa.

Na trama, Luka, filho de um contador de histórias, se associa a um urso chamado Dog e um cachorro chamado Bear para entrar no Mundo Mágico e roubar o Fogo da Vida para restaurar a saúde do seu pai, vítima de uma misteriosa doença. Qualquer semelhança com o mote de Mirrormask, escrito por Neil Gaiman, é apenas fruto do acaso de mentes geniais repensando temas ancestrais.

É um roubo definido como impossível desde o começo, mas com a ajuda dos mais inusitados aliados e figuras mitológicas de diversas culturas, Luka irá tentar.

O livro é a continuação de Haroun and the Sea of Stories, protagonizado pelo irmão mais velho de Luka, mas não é necessário ter lido o livro anterior para embarcar de cabeça nesta nova aventura. Foi traduzido para o português como Luca e o Fogo da Vida e publicado pela Companhia das Letras, mas não sei como está sua disponibilidade no Brasil atualmente.

Sem cair no hermetismo que ocasionalmente assola o próprio Neil Gaiman, Rushdie constrói um road movie fantástico com suas próprias regras, fácil de acompanhar e que funciona como uma celebração da própria arte de imaginar.

Ouvindo: Queensryche - Silent Lucidity
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4 comentários:

Helder disse...

Fiquei curioso, mas vou esperar terminar de ler o Game of Thrones.

Ipsum disse...

Já havia lido e curti, tanto que tive o trabalho (e que trabalho!) de encontrar o livro anterior, que, aliás, achei mais bem escrito. E concordo com você, no que se refere a jogos eletrônicos, o livro é bem fraco. MAS isso não tira nem um pouco de seu mérito. A estória é uma viagem surreal, em que você se sente íntimo de cada um dos personagens, mesmo que todos sejam tratados superficialmente. Reforço a recomendação: quem puder ler, leia!

Ipsum disse...

Já havia lido e curti, tanto que tive o trabalho (e que trabalho!) de encontrar o livro anterior, que, aliás, achei mais bem escrito. E concordo com você, no que se refere a jogos eletrônicos, o livro é bem fraco. MAS isso não tira nem um pouco de seu mérito. A estória é uma viagem surreal, em que você se sente íntimo de cada um dos personagens, mesmo que todos sejam tratados superficialmente. Reforço a recomendação: quem puder ler, leia!

Shadow Geisel disse...

nota mental feita para quando for à livraria da próxima vez.

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