Retina Desgastada
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24 de abril de 2014

Espada e Feitiçaria 3D

O primeiro jogo que instalei em um computador que era meu foi o demo de HeXen II. Daí, também veio o nome da primeira máquina e a tradição de batizá-las desta forma.

Hexen II - CapaNão conhecia o trabalho da Raven Software, não sabia que era o terceiro título de uma trilogia que havia começado em Heretic, nunca tinha visto um FPS na minha vida. Sabia apenas que era um jogo, era grátis e envolvia espada e feitiçaria. O resto era deslumbre e descoberta.

Sem exageros, gastei os primeiros dez minutos do jogo olhando para baixo, para cima, para os lados. Para meu espanto, o chão era detalhado. Havia coisas de teto no teto, como lustres, tochas, um vitral. Eu virava para a esquerda e depois pra direita e depois pra esquerda e as coisas formavam um contínuo. Pode parecer ridículo hoje, mas em 1998 eu estava sendo apresentado ao fato de que era possível ter um ambiente em 3D na minha frente.

Desnecessário dizer que o próprio mouse era um estranho para mim, então aprendi junto a controlar este artefato e perceber como ele influenciava a direção em que eu olhava. Eu não, o personagem, mas a imersão era algo inebriante naqueles dias longevos.

Meu primeiro inimigo foi uma aranha. E como ela era perigosa! Que sofrimento para mirar o cursor naquela abominação que me seguia e ao mesmo tempo executar os golpes que a venceriam. Acredito que devo ter morrido umas duas vezes para aquele monstro.

Aranha

Ainda lembro da capela inicial, do pátio com uma árvore em um canto e da entrada para a caverna que levava para outro ambiente e para o extremamente letal segundo inimigo que ali havia: um arqueiro que me acertava de longe.

Anos mais tarde, descobri que HeXen II é mesmo um título sui generis. É um FPS, mas a quantidade de inimigos é pequena e o combate é menos frenético. Seu design de níveis é colossal e você precisa ir e voltar em diversos (e confusos) pontos do mapa para conseguir desbloquear o acesso para áreas que você nem imagina que existam. É muito fácil para um veterano ficar perdido sem saber o que fazer, ainda mais para um novato. Seu personagem pode pertencer a quatro classes diferentes, cada um com seu próprio conjunto de armas, suas habilidades e sua linha de evolução: tudo isso em cima de um sujeito que nunca tinha jogado mais de 15 minutos seguidos em um PC e cuja experiência anterior tinha sido o mata-mata de Diablo.

ComeçoVitrais

Perdi semanas naquele demo. Para piorar, faltava-me o conhecimento de saber quando um demo terminava. Se eu ficava sem encontrar uma saída para um novo lugar, imaginava logo que já tinha chegado ao limite técnico da demonstração. Teimosia e falta de outros jogos me impeliam a tentar as combinações mais absurdas, em um título que exige que você use uma catapulta para ser arremessado em um dado momento, dispare uma balista contra uma torre e reúna ingredientes de uma poção para avançar. Muitas vezes, achava que o demo tinha acabado, apenas para descobrir HORAS inteiras de diversão em uma parte nova.

Minha memória se borrou um pouco, mas acho que realmente cheguei ao final do demo e encontrei alguma mensagem pedindo para comprar a versão completa. O que eu nunca fiz, porque um amigo me presenteou com um CD pirata do jogo...

Ironicamente, todo o tempo que investi no demo de pouco valeu. O layout do primeiro nível foi alterado na versão final e eu tive que reaprender várias coisas. Em HeXen II, você viaja para quatro regiões distintas: o tradicional mundo de fantasia Europeu medieval, um cenário Mesoamericano, o Egito antigo e um mundo inspirado no passado greco-romano. Lembro claramente de ter cruzado o primeiro inteiro e chegado em algo que era egípcio, mas não ter conseguido entender como cruzar uma barreira. Talvez eu não tenha matado o Boss do mundo anterior, uma vez que não guardo recordações disso.

Egito Antigo

O tempo passou e outros jogos já tinham passado pela minha máquina e minha mente. HeXen II continuava complicado, se não mais complicado do que antes. Eu estava passando sufoco para vencer aqueles níveis, não tinha certeza de que teria sucesso e o fascínio pelo mundo imersivo 3D já estava caindo no lugar-comum. Deixei o título de lado e isso é algo que me assombra até hoje.

Arrependido, anos mais tarde, tentei instalar o jogo no Windows XP, que o Inferno o carregue. Não rodava nem com reza forte ou encantamentos. Consegui colocar as mãos em um CD legítimo do jogo, vendido em bancas de jornais, na esperança de que talvez funcionasse e eu finalmente pudesse legalizar aquele pedaço do meu passado. Continuou sem funcionar.

Dezesseis anos se passaram.  E eu ainda vou comprá-lo no Steam. Um dia. Nem que seja para olhar para cima, para baixo, para os lados uma vez mais.

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7 comentários:

Alexess disse...

Aquino, q nostalgia vc me fez passar agora... na época que o joguei, o PC que eu tinha era bastante modesto e não tinha muito acesso a jogos completos (nem piratas). Minha diversão era feita principalmente com aqueles CDs de revista com um milhão de demos (rsrs). Assim, Hexen 2 foi um dos primeiros grandes jogos de PC que me marcou.

Já havia jogado (não até o final) Herect e o primeiro Hexen, mas esse segundo era deslumbrante, surpreendente. E não só nos gráficos, mas as músicas (que trilha sonora!!), os puzzles, no enredo...

Por falar em enredo, só fui jogar Hexen 2 quando ele saiu na revista CD Expert. Na revista ele foi lançado todo em português, aí sim pude ter uma experiência completa, entendendo a mitologia por trás daquele mundo - que era bastante detalhada.

Anos depois peguei a expansão "Portal of Praevus" e fiz questão de traduzir toda a DLC (o que não era muita coisa assim) antes de jogar.

Mesmo ainda tendo o CD de instalação, fiz questão de comprar o jogo novamente, no Steam, mas confesso que não sei bem o porque. Pode ser apenas para ver que o tenho registrado na minha conta, ou para demonstrar para as publishers que ainda há interesse nesse título, ou apenas por ter ficado tão admirado, tão satisfeito com a experiência pela qual por horas e mais horas passei que não importa o mais que eu pague, ainda sairei no lucro.

Bem, mas o que sei é que bateu uma vontade imensa de voltar à Thyrion.

Dan Alvares disse...

Mandou muito bem nesse pequeno texto sobre o HeXen! Também perdi dias da minha vida na demo desse jogo e não consegui terminar!

Marcos A.S. Almeida disse...

Esse é um dos (muitos) jogos que gostaria de ter jogado além da demo (possuo ele completo) que não joguei.Abrindo um parenteses , é interessante observar que antigamente jogávamos as demos como demos;hoje jogamos jogos completos como demos.Hexen me lembrava muito mais Quake do que Heretic , e este me lembrava muito o Doom.Coisas de engine.Mas não joguei ele todo por vários motivos: primeiro que FPS sem arma de fogo e com toques de RPG era interessante mas não era comum, e isso afastava "Doomistas" e "Quakistas" como eu.Segundo que achava ele extremamente sombrio e sinistro, principalmente os guerreiros negros e chifrudos, que eram assustadores.E terceiro que os controles eram realmente mais complicados de se adaptar.Enfim,é um grande jogo e a lista de jogos-que-gostaria-de-jogar-e-não-joguei só aumenta...

Edgar Menezes disse...

Joguei bastante, tanto o 1 quanto o 2. Ótimo jogo!

Quandt disse...

Caramaba, que lembranças esse seu relato me trouxe. Demais!

Até hoje não sabia que Heretic e Hexen eram continuações um do outro.

Shadow Geisel disse...

joguei muito Hexen II em um K6-2. eu pensava que só eu ficava travado nesse jogo. cheguei no Egito, sem ter ajuda da internet (que só adquiriria em 2011) ou de qualquer outro tipo. era casca grossa mesmo. mas um jogo inesquecível.

Davi disse...

Joguei hexen pela primeira vez em um nintendo 64. É, faz tempo, eu tinha 4 anos. Saudades.

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