Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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14 de outubro de 2013

Honrando a Farda

Aos 14 anos, Roza Shanina contrariou a vontade dos pais para poder completar seus estudos. Em pleno final da década de 30, jovem russa atravessou 200 quilômetros a pé pela floresta até a estação de trem para cursar o colegial na distante cidade de Arkhangelsk. Ela não levou nenhum objeto pessoal e tinha muito pouco dinheiro. Em 1942, completou o curso. No mesmo ano, a força aérea alemã arrasou Arkhangelsk.

Após a morte de um de seus irmãos durante o Cerco de Leningrado, Shanina se alistou no exército russo. Ela se tornaria uma franco-atiradora. Antes de perder sua vida para um estilhaço de morteiro, Shanina entraria para a história com 54 mortes confirmadas e a fama de ser capaz de acertar dois alvos em sucessão com duas balas. Tinha 21 anos.

Entre 1941 e 1945, a União Soviética empregou cerca 2.500 franco-atiradoras contra a invasão alemã. Juntas, foram responsáveis por quase 12 mil inimigos abatidos.

Barulho

Hideo Kojima não é russo e o passado militar de seu país de origem não remete ao trabalho de franco-atiradores. O que talvez explique por que o conceituado designer de jogos entrou em uma conturbada polêmica no mês passado justamente envolvendo uma atiradora de elite que aparecerá em Metal Gear Solid 5.

A controvérsia foi tão forte que Jacqueline Cottrell, do Jace Hall Show, foi consultar quem entende mais diretamente do assunto: franco-atiradoras. A entrevista completa não é nada positiva em relação à indústria dos jogos especificamente e ao universo machista de uma forma geral.

Hall entrevistou Ashley Shaffe, 23 anos, que já tinha duas temporadas no Afeganistão antes de completar 21, e Lisa Smith, 27 anos, veterana do Iraque. A seguir, alguns trechos:
JC: Vamos começar com a mais difícil primeiro - Metal Gear Solid: The Phantom Pain. Como vocês se sentem sobre o novo "avatar" que...?

AS: Meu namorado me ligou enquanto eu estava no trabalho para me contar. Ele me enviou um email com fotos desta nova "soldada" e eu tive que mostrar para as mulheres que trabalham comigo (todas Fuzileiras, na ativa ou na reserva). Nós não conseguimos acreditar que não era algum tipo de piada. (...)

LS: Eu sempre fui fã da série MGS, então isso foi tipo um tapa na cara, mas você não pode deixar de rir ao mesmo tempo.

AS: Eu não estava rindo. Principalmente quando eu mostrei para meus colegas de trabalho homens e eles começaram a fazer gracinhas dizendo que tinham que mudar o código de vestuário urgente. Esta m*** não é engraçada. (...) Já é mal o bastante ter esse monte de mulheres seminuas correndo por aí nos jogos eletrônicos.
Nina Lobkovskaya comandou uma companhia inteira de franco-atiradoras em 1945. Sua tropa participou da famigerada Batalha de Berlim.

JC: Será que não estamos julgando pela aparência? Para dar um exemplo, um amigo estávamos debatendo a questão da "tatuagem no ambiente de trabalho. Só porque um médico tem um braço cheio delas isso não o torna menos capaz de salvar vidas. As pessoas estão dizendo o mesmo sobre esta mulher em Phantom Pain - só porque ela se veste daquele jeito isso não significa que ela não seja um soldado capaz.

AS: E que "pessoas" te contaram esta mentira? Deixe-me adivinhar: os homens que a desenharam? Ou os cara que vão jogar dinheiro pro alto só pra ver os peitos de uma mulher balançando? Isto não é como eu vejo a questão. Só porque você dá uma arma para alguém e diz "vá brincar de guerra" não significa que eles são soldados capazes. Fala sério! É como alguém jogando Call of Duty ou algo assim e de repente se alista com aquela mentalidade de "eu consigo fazer isto! eu jogo CoD desde que eu tinha cinco anos!".

LS: (...) eu sempre esbarrei em novos recrutas que acham que eles podem realmente servir só porque jogam jogos de tiro em casa "o tempo todo". Estes mesmo recrutas nunca passam da segunda semana do básico.
Tanya Baramzina era franco-atiradora, com pelo menos 36 inimigos abatidos, quando foi ferida, torturada e executada pelo inimigo em 1944.

JC: Mudando de assunto um pouco, como vocês se sentiram em relação às pessoas que são veementemente contra a ideia de ter mulheres no novo CoD?

AS: Olha, definitivamente não é uma recepção calorosa ou um sentimento aconchegante saber que as pessoas estão mais animadas sobre haver cachorros no jogo do que mulheres. Eu acho, porém, que seja um progresso.

AS: (...) Eu posso te garantir que a única mulher realística que nós tivemos até agora, que realmente experimentou combate e experimentou a dureza, é a nova imagem de Lara Croft.

LS: É porque você tem homens fazendo estes jogos em primeiro lugar. Coloque eu, ou qualquer outra mulher que serviu, no comando de um jogo que inclua mulheres como protagonistas. Você pode apostar que você terá um personagem que está muito mais preocupada com sua cota de mortos do que com sua maquiagem ou como ela se parece. E você pode acreditar que ela não vai andar por aí de biquíni tampouco. Guarde isso para Dead or Alive onde as mulheres não praticam nenhum combate de verdade (...).
Ziba Ganiyeva estudava Dança e Teatro quando o exército alemão invadiu a Rússia. Como franco-atiradora abateu 21 soldados inimigos. Após a guerra, tornou-se Doutora em Filologia.

AS: E tem mais! Mesmo em jogos onde mulheres usam armaduras, você já reparou que sua blindagem é meio... precária? Você tem caras lacrados como o Fanático dos X-Men, e aí quando chega a hora de adicionar blindagem ou algum tipo de proteção para um personagem feminino, ela cobre o quê? Nada.

JC: Não é verdade. Comandante (Fem)Shepherd é coberta dos pés à cabeça. O mesmo vale para Samus quando está com sua veste.

AS: BESTEIRA. FemShep é só uma encarnação feminina do Shep masculino original. E Samus passa mais tempo fora da veste do que dentro. E o que ela usa quando não está dentro da veste? Latex azul. O problema tanto no universo militar quando no mundo dos jogos é que ambos são governados por um sistema dominado pelos homens onde este mesmo sistema é usado para seu exclusivo benefício. Igualdade no serviço, assim como nos jogos eletrônicos, ainda está muito distante para as mulheres. Isto pode ser ousado para eu dizer, mas f***-se - nós mulheres que servimos encaramos descriminação baseada em gênero diariamente. (...)

LS: Como "você deveria treinar para ser uma enfermeira ao invés de uma franco-atiradora". No mundo dos jogos, é "você uma garota, isso significa que você é a healer".
Lyudmila Pavlichenko recebeu a oferta de ser enfermeira no Exército Russo durante a Segunda Guerra. Recusou e tornou-se a mais mortífera franco-atiradora da História, com 309 inimigos abatidos.

JC: O que vocês sentem que precisa mudar para garantir a igualdade para mulheres, independentemente se elas estão servindo, ou se elas estão apenas sentadas em casa, relaxando e jogando?

AS: Parem de dizer às mulheres o que elas podem ou não podem fazer, simplesmente por serem mulheres.

JC: E sobre a inclusão de mais e mais realísticos retratos de mulheres soldados em jogos eletrônicos como Modern Warfare, Halo e Call of Duty?”

AS: Nós (como mulheres) servimos e investimos quase tanto tempo, esforço e dedicação quanto nossos colegas soldados homens fazem. E nós merecemos o direito de defender nosso país seja na vida real ou nos jogos eletrônicos. Você não vê soldados homens nos jogos eletrônicos ou na vida real correndo por aí de shorts com armas só para ter maior apelo com a audiência feminina. Por que soldados mulheres não podem obter o mesmo respeito e dignidade de criadores de jogos eletrônicos? É um insulto que não possamos e que soldados mulheres em jogos eletrônicos - quando incluídas - são vistas apenas por seus corpos e não por sua habilidade ou contribuição no campo de batalha.

Esquecendo o Passado

Das quase 2.500 franco-atiradoras soviéticas que lutaram contra a máquina de guerra nazista, menos de 500 sobreviveram ao conflito. Sessenta e oito anos depois da morte de Roza Shanina, ela não é mais um rosto conhecido em sua terra natal.

Esta semana, a Crytek promoveu uma pesquisa de opinião entre os jogadores russos de Warface, um título multiplayer F2P, sobre como deveria ser a aparência das soldados mulheres a serem inseridas no jogo. O resultado para a versão feminina do franco-atirador, você confere abaixo:

Para fins de comparação, este é o franco-atirador masculino:

Segundo Joshua Howard, diretor-executivo da Crytek, a desenvolvedora filtrou opiniões ainda piores dos jogadores, envolvendo anatomias desproporcionais, "roupas reveladoras" e salto alto. Para o executivo, a versão final reflete o regionalismo cultural do povo russo e, consequentemente, é aceitável. E completa: "é nosso trabalho cuidar para que Warface tenha uma autenticidade que faça sentido para nós".

Treze dias antes de morrer, Roza Shanina escreveu em seu diário: "O que eu realmente fiz? Não mais do que eu tinha de fazer como um homem Soviético, permanecido de pé para defender a pátria mãe. A essência da minha felicidade é lutar pela felicidade dos outros".

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5 comentários:

Marcos disse...

eu pessoalmente acho que as únicas séries que desenvolve bem personagens femininas sem haver apelo sexual para o público masculino são Bioshock e os jogos da Valve (que, puta merda, precisam ter continuações!).

Marcel C. Da Silva disse...

Cara, eu quase chorei quando vi o "resultado" da pesquisa realizada pela Crytek, e pensar que até salto alto tava no meio, achei uma ofensa dos jogadores às snipers reais, que droga cara, que droga.

Marcos A. S. Almeida disse...

Vou continuar dizendo o mesmo: as pessoas levam os jogos eletrônicos á sério demais.A ofensa nesse caso , á meu ver , é das pessoas que tentam comparar as snipers da vida real ( que são verdadeiras heroínas ) com snipers de um jogo, figuras que são puramente código binário. Imaginemos que o designer desenhasse uma sniper com uma vestimenta totalmente sóbria e condizente com a imagem histórica . O que poderia ser uma homenagem não seria encarado , por alguns, como uma ofensa? E se dentro do jogo o comportamento de quem está controlando o personagem fosse irresponsável, essa pessoa deveria ser recriminada porque não estaria respeitando o valor histórico da figura que o personagem representa?Acho um equívoco misturar as coisas.Nos jogos ou nos filmes sempre existirá o estereótipo , e o da mulher , de uma forma geral ,nos jogos ,é o da "gostosa" que porta uma arma.Estereótipos vemos aos montes , como o "fortão" burro, a loira burra, o advogado pilantra, o "nerd" virgem, o cientista maluco, o jogador de vídeo-game irresponsável e a militar "gostosa" nos jogos.Isso não quer dizer que corresponda á realidade mas se são representados assim nos filmes ou nos jogos, ok.Ou alguém acha que a ordem dos advogados americanos deveria processar a série Breaking Bad por causa do Saul?Acho que as pessoas e os meios de comunicação adoram polêmicas e as criam por nada.Simplesmente não vejo sentido na reclamação.
Quanto a votação da Crytek , já joguei o Warface (recomendo) e só posso dizer o seguinte: pela quantidade de adolescentes que frequentam o jogo , seria óbvio o resultado.Quanto mais nua o personagem maior seria a chance de ganhar.

Tais disse...

Muito interessante esse texto! Lembro de já ter ouvido falar da história de Shanina, embora não lembrava do nome. Obrigada por publicá-lo.

Shadow Geisel disse...

Marcos, pra mim essa de "levar jogos a sério demais não conta". por que os snipers masculinos nos jogos retratam os snipers masculinos na vida real e suas contrapartes femininas retratam dançarinas de strip tease?

sobre o Metal Gear, mesmo que seja uma forçação dos criadores, o que a maioria das pessoas estão esquecendo de notar foi uma coisa que o blogueiro Amer falou em um de seus textos: NÃO SABEMOS NADA SOBRE O ENREDO DO JOGO E DA PERSONAGEM. inclusive pode haver uma ligação com a pouca roupa da guerrilheira e sua habilidade de camuflagem.

as pessoas tb esquecem que MG está recheada de personagens femininas incríveis. A Big Boss, por exemplo, passa boa parte do final do jogo com o macacão aberto mostrando os seios, e alguém duvida que aquela personagem é a mais imponente do enredo?

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