Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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20 de junho de 2013

Sorrateiro e Furioso

The dark... are you afraid? I'm not. The dark is afraid of me.

Richard B. Riddick

Chronicles of Riddick

Quem olha para os músculos bem-trabalhados ou sua cabeça sempre raspada ou ouve sua voz lúgubre de locutor de velório, pode ficar com a impressão que Vin Diesel é outro brucutu de uma longa geração de astros do cinema de ação. Sua longa (longa até demais, diriam alguns) carreira na franquia Velozes e Furiosos tende a reforçar esse estereótipo.

Mas é tudo fabricado. Ao contrário do que se pode imaginar, Mark Sinclair Vincent não cresceu nos guetos, mas foi criado em um condomínio de artistas no bucólico Greenwich Village, em Nova York . Ele foi um bad boy somente até a idade de 7 anos, quando ele e sua gangue de proto-vândalos invadiram um teatro com sangue nos olhinhos. Foram interrompidos por uma diretora, que ofereceu perdão a eles (e 20 dólares) se eles tivessem aulas de representação todos os dias depois do colégio. Não se sabe o que aconteceu com as outras crianças, mas o pequeno Mark tomou gosto pela coisa. Mais velho, com um físico avantajado, trabalhou como segurança de boate para completar a renda e adotou a persona de "Vin Diesel". Com sua voz singular, também fez sucesso em telemarketing, onde conseguiu levantar 50 mil dólares para custear seu primeiro filme longa-metragem, roteirizado, estrelado e dirigido por ele. Strays foi aceito no festival de cinema alternativo de Sundance em 1997, mas não reverberou. Sua carreira de ator tomou rumo somente no ano seguinte, quando conseguiu uma participação no premiado O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg.

E o que Mark Sinclair ou Vin Diesel tem a ver com jogos? Muita coisa.

Primeiramente, o astro "truculento" é fã incondicional de Dungeons and Dragons e afirma que joga desde 1979, com o mesmo personagem, chamado Melkor (sim, uma referência a Tolkien). Segundo, ele fundou sua própria produtora de jogos, a Tigon Studios. Terceiro, ele criou Richard B. Riddick.

Cavaleiro das Trevas

Pitch Black O emblemático personagem Riddick é o último sobrevivente de uma raça de guerreiros. Sobreviveu à uma tentativa de assassinato durante o parto, quando foi enforcado com o próprio cordão umbilical e dado como morto. Foi criado nas ruas e em presídios. Foi mercenário, piloto e assassino. Consegue enxergar no escuro absoluto. É considerado o homem mais perigoso do universo e pode matar você com uma caneca.

Riddick também foi a aposta de Vin Diesel de criar um universo de ficção-científica épico e duradouro. Apesar do sucesso comercial obtido com Velozes e Furiosos e Triplo X, o ator estava determinado a trilhar um caminho diferente. Recusou-se a participar da continuação de ambos os títulos e, em 2004, colocou todas as suas fichas em A Batalha de Riddick, uma continuação em larga escala da estreia do personagem, no modesto Eclipse Mortal. Simultâneo ao lançamento do novo filme, Riddick também seria o protagonista de uma animação (Dark Fury) e de um jogo (Escape from Butcher Bay).

Infelizmente, A Batalha de Riddick não deu um bom retorno do investimento. Ao remover o anti-herói da "luta pela sobrevivência" exibida no primeiro filme e colocá-lo no papel de "salvador da galáxia", a película pecou pelo exagero. Gastos maciços em figurinos e efeitos especiais, somados a um roteiro confuso e ao mal aproveitamento de um grande elenco foram coroados com um final ambíguo que não solucionava nada. A resposta veio nas bilheterias e o sonho de Vin Diesel de construir sua própria saga terminou abruptamente. No ano seguinte, o astro estava fazendo uma comédia familiar e dois anos depois estava de volta a Velozes e Furiosos, de onde nunca mais sairia.

Mas Riddick não seria derrotado tão facilmente. O personagem que seria o protagonista de uma trilogia de "crônicas" está de volta aos cinemas este ano, em uma produção que retorna às suas origens cinematográficas e que soa como uma releitura do filme original. Pelo trailer, parece também que ele não perdeu a forma: está escrito badass em cada frame.

Butcher Bay: Fuga Impossível

The Chronicles of Riddick: Escape from Butcher Bay é um jogo da minha Lista de Favoritos, o que justifica o longo preâmbulo para chegar até ele. Sua trama se situa antes mesmo de Eclipse Mortal e consequentemente é a primeira aparição cronológica do personagem Riddick. Assumindo o papel do emblemático anti-herói, você irá escapar da famigerada prisão de tripla segurança máxima Butcher Bay.

Ao contrário de muitos FPS anteriores, aqui você não encarna um sobrevivente que precisa lutar contra tudo e todos pelo direito de se manter vivo. Você não é o homem errado na hora certa, forçado a pegar em armas. Você não se esconde de medo ou suspira de alívio a cada vitória. Neste jogo, você é o predador máximo e os demais, sua presa.

Butcher Bay 04 Butcher Bay 01

Um dos momentos mais representativos para mim do jogo é quando, após derrubar uma série de guardas de forma magistral, eu me encontrei em um ponto onde a munição já tinha acabado e a vida estava escassa. Escapando de algumas armadilhas, fui surpreendido por um guarda dentro de uma armadura mecânica. Minha consciência de jogador entregou os pontos: a fuga acabara ali, Riddick seria encarcerado de novo, outra fase iria começar. Para meu espanto, o guarda e Riddick travaram o seguinte diálogo:

Guarda: Prisioneiro! Esta é uma área restrita! O que você está fazendo aqui?

Riddick: Oh. Heh. Desculpa, falha minha.

Guarda: C***, você é Riddick!

Riddick: Eu acho que você vai precisar de reforços.

Guarda (no rádio): Comandante, eu preciso de reforços!

E é assim o jogo inteiro. Guardas sussurram seu nome nervosos, alguns largam as armas quando veem o que você fez com os outros, tem gente reclamando que não é pago pra isso. E não é pra menos: sob seu comando, Riddick se mescla com a escuridão em um dos melhores usos das áreas escuras desde Thief e fulmina guardas com ataques mortais. Sob seu comando, ele desarma oponentes com as mãos nuas ou os força a atirar contra a própria cabeça. Sob seu comando, ele pilota Mechas, luta com estiletes, quebra pescoços e liberta o inferno no presídio. É uma sensação de poder ímpar, sem perder o desafio. Em nenhum momento, você fica com a impressão de que o jogo está facilitando pra você, mas ao mesmo tempo tem a noção de que está no comando de uma máquina de matar.

Já na abertura, Escape from Butcher Bay oferece um dos melhores tutoriais do gênero, uma rápida injeção de adrenalina que se encaixa como uma luva na narrativa. E, se a ordem do dia é reforçar o mito de Riddick, a narrativa está aí para isso. Definitivamente, este jogo não é o seu tradicional FPS: há NPCs, há diálogos, há fases bem díspares uma da outra e tudo isso está ali para fazê-lo ouvir a voz de Vin Diesel e também para convencê-lo com sucesso que este protagonista é capaz de sobreviver em qualquer situação. Tudo no jogo é pensado nesse sentido e mesmo a forma de se curar é uma demonstração do que o personagem consegue agüentar para atingir seus objetivos. Os itens colecionáveis? Maços de cigarros.

Butcher Bay 02 Isso é pra curar...

É um dos raros FPS onde estar com uma arma na mão não é a norma e tem o mérito de oferecer a melhor luta corpo a corpo em primeira pessoa que já tive o prazer de jogar. Riddick não é apresentado aqui como um Rambo, ainda que sua proficiência em armas de fogo não seja de se menosprezar. Ele é apresentado como um guerreiro completo e algo a ser temido.

Mas Vin Diesel não brilha sozinho no jogo produzido por sua Tigon Studios. Cole Hauser está de volta no papel de Johns, o responsável pela captura de Riddick em Eclipse Mortal, uma boa mistura de antagonista e aliado. O resto do elenco conta com os talentos vocais de Dwight Schultz, Michael Rooker, Ron Perlman, além do rapper Xzibit e uma ponta do baixista do Red Hot Chili Peppers, Flea. A trilha sonora é um espetáculo em si e foi liberada gratuitamente depois do lançamento.

Butcher Bay 03

Graficamente falando, foi também um dos jogos que explorou o máximo de minha placa de vídeo na época e ele não faz feio mesmo quase dez anos depois. A direção de arte conseguiu reproduzir e maneira atmosférica a sujeira de um presídio sem esperanças, de regras draconianas e onde ninguém inspira confiança. Palmas também para a reviravolta visual na terceira parte do jogo, quando Riddick é "promovido" para a terceira camada de segurança, onde a arquitetura asséptica predomina.

Apesar de você já saber como o jogo irá terminar, uma vez que ele se chama "Fuga de Butcher Bay", é interessante observar como a narrativa não se contenta apenas em promover o protagonista, fazê-lo procurar a chave A para destravar a porta B e colocá-lo em situações de risco. A trama também tem todo um trabalho especial em modelar seus companheiros de encarceramento, não os limitando ao papel de aliados ou inimigos, mas apresentando cada um com seus próprios objetivos que podem cruzar ou não com os de Riddick. E a caracterização dos vilões é impecável: você não apenas irá matar cada um deles antes do final, mas matá-los com muito gosto e com a consciência tranquila de que o universo se tornou um lugar melhor sem eles e que Riddick não é um mau sujeito.

Atena Sombria

Dark Athena

Em 2009, a mesma desenvolvedora Starbreeze responsável pelo jogo produziu uma espécie de remake de Escape from Butcher Bay. A nova versão trazia gráficos melhorados (ou carregados de bloom, dependendo do ponto de vista), correção de diversos bugs (não me lembro de nenhum), uma nova inteligência artificial (também desnecessária), modo multiplayer e... uma nova campanha. Logo em seguida à sua espetacular fuga, Riddick caiu nas mãos da nave mercenária Dark Athena e precisa usar toda sua perícia para escapar outra vez. Se visualizarmos sua trajetória como um todo, pode-se concluir que ele não apenas é o sujeito mais perigoso como também o mais azarado do universo. As duas aventuras podem ser jogadas separadamente e, de qualquer forma, hoje em dia esta é a única forma em que o jogo é comercializado. The Chronicles of Riddick: Assault on Dark Athena chegou a ser vendido no Steam, mas foi removida a compra pela loja. Entretanto, é possível comprar pelo Gamersgate, GOG e Nuuvem, entre outras lojas virtuais. Lamentavelmente, não experimentei esta nova história, mas está na minha lista de pendências.

Enquanto Vin Diesel luta para emplacar seu personagem mais uma vez no coração do grande público este ano, aqui fico na torcida não só pelo sucesso nas telonas como por um eventual retorno às telinhas.

Riddick

Já apaguei as luzes e meu estilete virtual está pronto. The wolf moves among sheep.

Ouvindo: Armored Core V - Lament Over the Howling Age
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6 comentários:

Marcos A. S. Almeida disse...

"...pode ficar com a impressão que Vin Diesel é outro brucutu de uma longa geração de astros do cinema de ação".Bem , eu acho que nehum deles é realmente "brucutu" apenas criam personagens violentos e capitalizam em cima disso. Á não ser os que vieram do UFC, boxe ou WWE para a telona , esses sim são "brucutus" puro-sangue.

Um personagem é imbatível e todos o temem , mas não é um "Rambo".Você não gosta do Rambo?Ehehehehe!

"Apesar de você já saber como o jogo irá terminar, uma vez que ele se chama "Fuga de Butcher Bay..." Lembrei do filme "The Fighter" que na tradução ( ou adaptação) para o português do Brasil virou "O Vencedor" , entregando o final...Em português de Portugal eles fizeram melhor: "The Fighter: Último Round"

Shadow Geisel disse...

sempre tive muita dúvida se devia experimentar o Dark Athena e até ia perguntar se vc recomendava, mas acho que a pergunta se tornou retórica. só uma dúvida Aquino: o Dark Athena é exatamente o Escape From Butcher Bay com gráficos atualizados?
obrigado pela ausência de spoilers, pois agora bateu a certeza de que eu devo experimentá-lo.
P.S: qual é a referência ao Tolkien que vc cita no começo do texto? desculpe a ignorância mas só li A Sociedade do Anel e Mestre Gil de Ham.

C. Aquino disse...

Shadow, pelo o que eu li eles não mexeram em nada no enredo de Escape from Butcher Bay, só corrigiram bugs, melhoraram os gráficos e aperfeiçoaram a inteligência artificial (dizem). De extra, tem outra aventura, Assault on Dark Athena, então é basicamente dois jogos pelo preço de um.

Vin Diesel usa o nome "Melkor" para seu personagem de RPG, o nome de um personagem de Silmarillion, do Tolkien.

Shadow Geisel disse...

I much appreciate pelas explanações, camarada. Vou comprar o jogo assim que der e ver o que eu acho.

Osama disse...

Na verdade, o Dark Athena não é um remake, é um jogo novo... tem uma duração do mesmo tamanho do Escape... é um ótimo jogo também. Se você gostou do Escape, com certeza vai adorar o Dark Athena.
O Escape vem como brinde, com a engine atualizada, mas o jogo é o mesmo...
Eu tenho ele no Steam, nem sabia que não estava mais sendo vendido por lá...

Bolívar D'Andrea disse...

Cara, eu tava esperando esse texto há muito tempo. Comprei esse jogo só porque vi nos teus favoritos, às cegas, mesmo, só confiando no teu critério em outros jogos que eu joguei por "tua indicação" e curti. Até agora não tive o tempo pra jogar (tô travado no Anachronox e tô tentando virar de novo o Fallout 3, agora com o máximo possível de missões completas).
Como eu esperava, o teu comentário me deixou com mais vontade ainda de jogar. Me lembrou o Bátima: "FUJAM, SEUS BOSTA, EU SÔ U BÁTIMA, TENHA MEDO, NÃO OLHA PRA TRAIS QUEU VOU TI MATÁ!", só que agora com o Vin Diesel! Acho muito legal as informações extras que tu traz nos textos, não tinha a mínima ideia de que o Vin Diesel poderia ser um jogador de D&D.

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