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23 de junho de 2013

Eu Li: Metro 2033

O fenômeno que foi a produção do livro Metro 2033 é algo que já expliquei antes, mas é sempre bom relembrar. Seu autor, o russo Dmitry Glukhovsky, começou a trabalhar na história aos 18 anos de idade e, cinco anos depois, lançou o livro pronto de graça na internet em 2002. Atingiu 2 milhões de leitores antes mesmo de ser publicado em papel. Isso não impediu que a versão comercial fosse um sucesso avassalador, com meio milhão de exemplares vendidos somente na Rússia. O livro já foi traduzido para 20 países, incluindo o Brasil. Concluída sua leitura, posso dizer que a obra de estreia de Glukhovsky merece tudo isso.

Metro 2033 - Capa Metro 2033 - Capa 02 Metro 2033 - Capa 03

É bem provável que você já conheça a premissa inicial, uma vez que Metro 2033 virou um jogo homônimo. No mundo pós-apocalíptico de Glukhovsky, um guerra sem precedentes, biológica e nuclear, aniquilou nossa civilização. Em Moscou, uma colônia de sobreviventes está alojada no vasto labirinto subterrâneo formado pelo sistema de metrô da capital. Décadas depois da hecatombe, há pouca esperança de um futuro melhor enquanto uma nova ameaça surge para colocar em risco até mesmo esta fração de humanidade.

Munido apenas deste conhecimento prévio e sem sequer ter jogado o FPS da 4A Games, cheguei no livro com uma expectativa completamente diferente do que ele realmente é. Temia me ver diante de uma ficção-científica rasteira, de uma sucessão de tiroteios descritos em sangrentos detalhes e uma narrativa conduzida por incessantes batalhas. De certa forma, o espectro de Orcs: First Blood continuava me assombrando. Ledo engano. Apesar do começo frouxo, que inclui inclusive gritantes erros de continuidade, apesar do mapa confuso que acompanha o livro, Metro 2033 merece um lugar entre as grandes obras da fiçção-científica russa, ao lado de Roadside Picnic.

Metro 2033 - Capa 04 Metro 2033 - Capa 05 Metro 2033 - Capa 08

Na trama, seguimos a jornada de Artyom, jovem idealista, um sobrevivente entre os sobreviventes do fim do mundo, que irá se aventurar por quase todas as linhas, quase todas as estações da nova sociedade humana. O que Glukhovsky faz aqui é usar a trama como um fio condutor para tecer um retrato pungente do Homem e seus medos, seus defeitos e seu destino. A lúgubre invasão que paira no ar é menos importante do que esta jornada, um road movie no inferno que transita pelas situações mais díspares. Artyom esbarra na loucura, no fanatismo, no desespero, na burocracia e em outros monstros muito mais assustadores que os mutantes que habitam a escuridão. Apesar das particulariedades da cultura russa, Metro 2033 é um livro universal. Nós nos tornamos testemunhas em primeira mão que a falência da civilização não se resume à guerra, mas esta presente no novo cotidiano.

Nem mesmo o pensamento racional sobrevive e este novo cenário é tomado de superstições e lendas arrepiantes. Teria o tecido da realidade se rompido e deixado passar forças além da compreensão humana para dentro destes túneis ou seria tudo facilmente explicado por histeria e falta de explicações. Jamais saberemos. O Homem mergulha de cabeça no obscurantismo e a Idade das Trevas retorna.

Metro 2033 - Capa 09 Metro 2033 - Capa 10 untitled

Glukhovsky aproveita a máscara de Artyom para tecer pesados comentários sobre nosso próprio mundo. Religiosidade, comunismo, fascismo, determinismo, nada escapa de sua caneta. A narrativa é descaradamente suspensa para dar espaço para as elucubrações do protagonista ou para algumas exposições daquilo que o autor deseja criticar. Se ancorar na ficção para dissertar abertamente sobre determinados temas, sem nem mesmo apelar para as populares metáforas, é uma tradição que já vem de Platão e passa por Voltaire e Swift (ou você acha que as viagens de Gulliver param em Lilliput?). Sem pesar na mão ou quebrar o ritmo da aventura, suas reflexões combinam sombriamente com a atmosfera do livro.

Metro 2033 - Capa 006 A única coisa que me incomodava no livro era a impressionante sorte do protagonista tanto para fazer aliados nos locais mais improváveis quanto para sair de perigos mortais. Assim como sua maldição de quase sempre provocar a morte daqueles que o cercam. Mas, mesmo esse clichê clássico é manipulado com maestria pelo autor (em seu livro de estreia!) ao tornar Artyom ciente destas peculiaridades e ao envolver uma possível explicação na mesma aura de mistério que permeia este estranho futuro. Quando o livro já tinha conquistado minha admiração, ele se encerra em duas páginas que são um soco bem dado no estômago.

Um grito sufocado sela minha leitura. O horror, o horror.

Por enquanto, não há tradução oficial para o português ou sequer para o inglês de Metro 2034, sua continuação.

Mas sua realidade virtual no monitor de meu PC está chamando. Por enquanto, resisto, com as mãos trêmulas. Até quando?

Ouvindo: Misfits - Death Ray
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6 comentários:

FrankCastle disse...

Parabéns pela resenha! Há muito, tenho interesse em ler. Ainda não joguei o game.

Ed R M disse...


Valeu pela resenha. Comecei o jogo e, apesar de ser bom, acabei deixando-o de lado e ainda não o terminei. Não teve aquele grande momento que me fisgasse até então.

Fiquei na dúvida de deveria tentar o livro, mas o post despertou meu interesse. E também pretendo ler o Roadside Picnic. :-)

Comprei um Kobo (disponibilizado no país pela livraria Cultura) e estou adorando! Recomendadíssimo por mim. Comprei um ou outro livro sem tradução para o português que ando namorando há tempo (como o Dante's Equation, da Jane Jensen, que achei excelente, mistura princípios da física quântica e cabala) e estou baixando várias obras de graça e legalizadas na internet, como os livros do Peter Watts (Blindsight e a trilogia dos Rifters).

Desde que adquiri o e-reader, livros de papel me parecem coisa da idade média :-P

Marcos A. S. Almeida disse...

Comecei a ler a versão digital, mas confesso que saiu da minha lista de prioridades.Mas o interêsse continua.Quando vi a ótima animação "A Queda" de Dead Space me senti inteirado do mundo e incentivado á matar as aberrações no jogo!Gostaria de ler Metro 2033 antes de jogar para sentir o mesmo, inclusive as poucas páginas que li eram mentalmente ilustradas com imagens jogo.

Raphael AirnMusic disse...

Ainda quero ler o livro, mas o jogo é recomendadíssimo !! =)

Gledson A. disse...

"Um grito sufocado sela minha leitura. O horror, o horror."

Bom, se o final do livro for idêntico ao final verdadeiro do jogo (já que existe dois) acho que sei do que está falando, Aquino.

Fiquei com vontade de ler agora, mesmo que, na minha opinião, o jogo não seja tão bom.

Marcos A.T. Silva disse...

Excelente resenha!

E, parece que a Amazon vai soltar capítulo por capítulo do 2034, em inglês:

http://www.amazon.com.br/METRO-2034-English-Chapter-ebook/dp/B00CR1DW6O/ref=sr_1_5?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1372270788&sr=1-5&keywords=metro+2033

Segundo consta lá, é possível até receber uma amostra grátis. Vou testar.

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