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12 de maio de 2013

Poder Sem Limites - Parte 1

No mês passado, uma das mais famosas e poderosas guildas de World of Warcraft anunciou que estava encerrando suas atividades. Com 25 integrantes, a <Exodus> participava da mais hardcore das cenas hardcore dos mundos dos MMORPG, competindo ferozmente com outras guildas pelo título de melhor do mundo. O que aconteceu?

Exodus

Segundo um de seus membros, a culpa está dentro da própria comunidade especializada em raids, incursões longas e assustadoras pelos lugares mais difíceis do jogo. Mas para continuar no topo da cadeia alimentar é necessária uma quantidade absurda de dedicação e preparo, com muito planejamento antes de cada investida e a disputa dentro da elite de guildas estava elevando o patamar muito acima do considerado sadio. Uma operação destas pode consumir muitas horas seguidas da vida de um sujeito. Com a competitividade acirrada e a Blizzard lançando conteúdo novo em uma velocidade que não dava mais para acompanhar, a guilda chegou à conclusão de que não valia mais o esforço. Alguns de seus jogadores continuarão realizando raids, mas sem o stress de serem os melhores de todos.

Existe um nome para este tipo de jogador obcecado por dominar cada recanto do jogo, por ser o melhor de sua comunidade, por dobrar as mecânicas de um título a seu bel-prazer. Eles são chamados de power gamers. Poucos dias antes da <Exodus> abandonar esta corrida louca, a Edge publicou um artigo sobre este estranho universo que mistura doses iguais de obsessão, suor, inteligência e lágrimas.

Desafio dos Campeões

Lich King A história de Jonathan Delise funciona como um paradigma. Depois do lançamento da expansão Wrath of the Lich King para World of Warcraft, ele jogou sem parar durante quatro dias, parando apenas para comer, beber e ir ao banheiro. Ao final do período, conseguiu alcançar o nível 80, o mais alto nível no jogo. Mas não foi um momento de triunfo. Por meros minutos, Delise perdeu o título de primeiro jogador do servidor a alcançar o teto. Dormiu por dois dias seguidos, com a sensação de fracasso.

Ao acordar Delise estava determinado a ser o melhor. Não o melhor de sua guilda, não o melhor de seu servidor, não o melhor do seu país. Ele queria ser o melhor jogador de World of Warcraft do mundo. Um mês depois de estabelecer sua meta, ele já possuía um dos maiores DPS (medida de Dano por Segundo que um personagem pode infligir) do planeta. Raids criadas pela Blizzard para 40 jogadores eram vencidas somente pelo seu personagem. "Eu não podia ser parado, era uma máquina de matar", declarou.

Mas tudo isso tinha um preço. Enquanto outros jogadores estavam nessa pela diversão, Delise encarava como um desafio. Ele passou a estudar fórmulas matemáticas para maximizar a evolução de seus itens, para montar novos equipamentos poderosos, para descobrir novas estratégias de combate. Não havia mais graça em jogar contra o ambiente e o power gamer se tornou uma fera em PvP, na fina arte de destroçar personagens de outros jogadores em duelos titânicos. Seu personagem se tornou alvo de caçadas por guildas inteiras em busca de vingança. Times se organizavam para emboscá-lo.

Para continuar no topo, ele formou uma aliança com outros 2 jogadores de alto nível. Depois das aulas, ele dedicava cinco horas de seu dia apenas para estudar táticas de luta e assistir vídeos de jogabilidade de outros power gamers. Delise fazia o seu dever de casa dentro de sala de aula, para ter mais tempo livre para poder se empenhar no jogo.Nas horas seguintes, antes de finalmente dormir, implantava seu novo conhecimento no jogo. No final, ele e seu time conseguiram estar entre os 0,5% melhores do mundo.

Enquanto isso, Delise estava escrevendo guias que ajudavam outros jogadores, realizava sessões de treinamento com aprendizes e até aceitava subir o nível de personagens de outros jogadores em troca de dinheiro. Uma "ajudinha" para subir até determinado ranking poderia render duzentos dólares para Delise.

Após um ano e meio de frenesi, Delise se afastou da cena, mas não se arrepende do que fez. "Eu acho que foi bom para mim, porque me ajudou a desenvolver meu foco e a habilidade de aprender coisas novas muito rapidamente, mas, ao mesmo tempo, eu poderia ter arranjado um trabalho na época ou aprender a lidar com pessoas cara a cara melhor do que eu faço. O impacto na minha vida foi considerável".

Glória e Horror

A história de Justin Edmond é mais uma história de World of Warcraft. De como um garoto colocava o relógio para despertar às 3 da manhã para participar de raids antes de ir estudar. De como um garoto que era excelente em esportes e música no seu colégio resolveu não ser apenas o melhor no seu pequeno universo de adolescentes para tentar ser o melhor de um jogo praticado globalmente.

“Eu curtia mesmo planilhas e matemática, então eu pratiquei um bocado de teoria para maximizar meu DPS. Eu adorava tentar encontrar a melhor solução para um problema. Eu podia usar lógica, matemática e resolução de problemas, e eu podia encontrar respostas para iriam fazer com que pessoas em todo o mundo mudassem sua forma de jogar. Ser admirado por tantas pessoas era um grande sentimento. Começou a ficar mais sério uma vez que eu assumi um papel mais forte na guilda. Nós nos tornamos um centro de atenção e os fóruns estavam sempre falando de nós. Éramos populares neste mundo online, e o poder e a atenção era uma sensação impressionante para um garoto de 16 anos de uma cidade pequena".

Abriu-se um abismo entre sua vida normal e sua vida virtual. Na primeira, ele era um garoto tímido que não conseguia se impor. Na outra, ele era um líder, alguém que as pessoas ouviam e respeitavam. Inicialmente, Edmond passou a dar mais valor a sua jornada em World of Warcraft, mas, com o tempo, as qualidades conquistadas no jogo passaram a se refletir no cotidiano. Em suas próprias palavras, o MMO o ensinou sobre trabalho duro, trabalho de equipe e solução de problemas.

Nem todas as histórias de power gamers tem um final feliz, naturalmente. Muitos são os relatos de problemas de saúde relacionados à busca obsessiva em superar limites, em qualquer campo do interesse humano. E em MMOs isso não seria diferente.

Matthew Boyle aos 19 anos se alternava com um amigo para subir de nível em Everquest (pejorativamente chamado de Evercrack por aqueles que apontam seu caráter viciante). Cada jogador levava o personagem até não agüentar mais ficar em pé. Então, ia dormir e era substituído pelo outro. E isso foi só o começo.

Evercrack

Desempregado, com uma "namorada horrível" e morando em um cortiço sem janelas ou aquecimento, Boyle encontrou no jogo uma saída imaginária para seus problemas. Ele sequer tomava banho. A água que saía do chuveiro era tão gelada que ele achava menos incômodo ficar sujo. Mas era um dos Top 500 jogadores de todo o mundo. Cada nova vitória era um incentivo a mais para continuar jogando. Sem a parceria do seu amigo, Boyle jogava até cair dormindo em cima do teclado e voltava a jogar quando acordava com o rosto marcado pelas teclas. Ele classifica os anos de sua vida dedicados a Everquest como um desperdício e garante que seu comportamento era realmente muito próximo a de um viciado em drogas, capaz de qualquer coisa para sustentar sua assinatura e seu provedor de Internet e uma vergonha para sua família. O pouco dinheiro que ele conseguia fazer com suas habilidades de power gamer era reinvestido no próprio jogo.

No final, foi o tédio de fazer sempre as mesmas coisas que o afastou de Everquest.

Se a história de Boyle assusta qualquer um, Edmond assegura que esta não é a norma:

"Pessoas arruínam suas vidas com festas. Pessoas arruínam suas vidas tentando ser atletas profissionais. Você pode encontrar histórias apavorantes sobre pessoas destruindo suas vidas fazendo quase qualquer coisa. Estabelecer uma meta e cumprindo-a é uma das coisas mais grandiosas que uma pessoa pode fazer. Enquanto eu era um power gamer, eu encontrei alguns jogadores que não tinham nenhuma vida fora do jogo. A maioria deles eu mantive contato e hoje quase todos estão produtivos e felizes. Divirta-se, jogue pra valer e mantenha-se saudável".

A seguir: O impacto dos power gamers no desenvolvimento dos jogos.

Ouvindo: Juno Reactor - Acid Moon
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3 comentários:

Gledson A. disse...

Essa é uma das razões que me afastam dos MMO's da vida. Não consigo me imaginar jogando um jogo sem um fim determinado. Ainda bem que, no caso de alguns, não se teve efeitos colaterais desastrosos.



"Pessoas arruínam suas vidas com festas. Pessoas arruínam suas vidas tentando ser atletas profissionais. Você pode encontrar histórias apavorantes sobre pessoas destruindo suas vidas fazendo quase qualquer coisa."

De fato; se parar para pensar o unico fator que muda é a razão por trás da ruína. Nunca tinha visto o assunto sendo abordado por este ângulo.

Fagner P. disse...

Eu me identifiquei mais ou menos com algumas histórias, fiquei realmente preocupado agora. Aquela tirinha é a história da minha vida com minha namorada. heheheeh

Ipsum disse...

Cara, só eu lia os relatos esperando chegar o final trágico, aquele lendário em que o cara passa x dias sem comer, dormir e ir no banheiro, até morrer em cima do pc?

Sei lá, todo o universo dos MMOs, na minha singela opinião, demonstra aquele efeito "o apanhador no campo de centeio": as pessoas precisam, ou ao menos querem muito, algo que faça suas vidas term sentido. Daí, encontram um hobby cuja grandeza é determinada basicamente pelo número de horas jogadas. De fato, para a maioria dos jogadores é um hobby sadio, mas sempre tem aqueles 1% que elevam o passatempo a um status quase religioso...

Para mim, o estilo do Aquino é o melhor (eu também o emprego): dar uma chance, passar alguns meses jogando, depois desinstalar e bola pra frente.

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