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17 de abril de 2013

Lendo: Lendas do Universo DC Online

Há mais de três anos atrás, escrevi as seguintes linhas sobre a interação entre os quadrinhos e o vindouro MMORPG DC Universe Online:

Vamos supor que tudo dê certo. Teremos um universo de super-heróis paralelo às 52 Terras do Universo DC, onde os acontecimentos serão controlados pela decisão dos leitores/jogadores. Teremos um MMORPG onde as missões serão escritas pelas grandes mentes que escrevem as histórias da DC: serão "narradores" profissionais oferecendo um mundo dinâmico para você brincar. Imagine um personagem criado por você tendo um crossover, publicado internacionalmente, com o universo principal da DC. Imagine uma outra Crise, que comece ou seja concluída online, em tempo real.

Lendas do Universo DC 1 O ingênuo texto era minha reação ao anúncio de uma revista semanal que se integraria com o jogo. Olho para trás agora e vejo o perfeito idiota que fui.

Que o jogo tenha somente uma pífia linha narrativa foi algo que descobri com menos de uma hora de jogatina. Mas ainda não imaginava o quão ruim seria a tal série em quadrinhos.

Lendas do Universo DC Online foi prevista inicialmente como uma série semanal com 52 números, a exemplo de outras bem-sucedidas séries da DC Comics, mas a revista naufragou de vendas e foi encerrada no número 26, já com periodicidade quinzenal. Dividida em nove números, ela foi publicada traduzida no Brasil pela Panini, ainda que o jogo não tenha versão em português ou mesmo legendas em inglês. Que público a editora estava esperando capturar com a publicação é um completo mistério. Por fora do mercado nacional desde alguns anos, acabei baixando a versão original em .CBR (alguns hábitos são difíceis de largar...).

A trama parte do mesmo vídeo de abertura do jogo, onde se vê Lex Luthor triunfando sobre Superman em um futuro indeterminado apenas para testemunhar Brainiac invadindo uma Terra agora desprovida de heróis. Qualquer um que tenha visto o vídeo, ficou sem fôlego. Em longos e excruciantes 26 edições, a série vai e vem entre o futuro e o presente tentando contar todos os instantes do plano do vilão. Infelizmente, apesar de contar com o veterano Marv Wolfman, da mítica Crise nas Infinitas Terras, em seu grupo de escritores, a mini tem problemas terríveis de ritmo, continuidade, profundidade dramática e propósito, além de sofrer com desenhos internos sofríveis. Não se deixe enganar pelas capas do elogiado Jim Lee porque ele não desenha um único quadrinho na parte de dentro.

legends-dc-universe-20 A inigualável arte de Howard Porter

Temos aqui personagens completamente fora de seu prumo. Aquaman tem destaque no começo para ser completamente esquecido logo em seguida, assim como o Caçador de Marte. Batman toma decisões inadmissíveis, incluindo genocídio, apenas para ser completamente perdoado na página seguinte. Superman perde a linha de uma forma patética e provoca uma tragédia óbvia que será o ponto de virada da trama daí pra frente. Uma história onde a classicamente intempestiva Mulher-Maravilha é a voz mais sensata tem algo de grave acontecendo.

É também impressionante como uma série que saiu de quinze em quinze dias consegue ser confusa. Mesmo lendo uma edição após a outra, no dia seguinte(!), havia momentos em que eu simplesmente não entendia o que estava acontecendo. Sub-arcos são completamente abandonados sem dó nem pena. Talvez seja o resultado de algo escrito a toque de caixa entre três escritores diferentes, mas não há nada que explique Nuclear ter seu pescoço quebrado pelo Adão Negro em uma edição para aparecer lépido e fagueiro na edição seguinte. Brainiac foge da Terra em dado momento para "recuperar suas forças" e invade Korugar, planeta-base da Tropa Sinestro. Enquanto "recupera suas forças", ele extermina todos, incluindo o Antimonitor, e absorve o poder da Bateria Amarela. Heróis e vilões morrem aos borbotões e só provocam bocejos no leitor: não há peso em suas mortes.

Então, talvez a revista tenha algum valor para os jogadores de DC Universe Online? A resposta é um sonoro "não". Não apenas a mini não segue os acontecimentos apresentados no jogo além do vídeo de abertura, como tampouco traz qualquer cenário apresentado no MMO. É como se os escritores tivessem acesso somente ao vídeo e jamais tivessem pisado no mundo virtual. A subtrama dos exobytes, fragmentos de tecnologia que são os responsáveis pela nova onda de heróis e vilões no jogo, é mal-aproveitada e os poucos personagens novos apresentados na revista são bucha de canhão, não influenciam a trama e não foram tirados do MMO. A promessa de que eventos do jogo seriam refletidos na mini e vice-versa não se concretiza em nenhuma parte.

legends-dc-universe-0 Está vendo todos estes personagens novos do lado esquerdo e que supostamente vieram do jogo? Eles só aparecem nesta capa.

Ironicamente, a série se redime no final, quando parece que a trindade de escritores chega a um acordo sobre o que a saga realmente é: Lex Luthor. O icônico vilão tem aqui seu momento de redenção. Chega a ser poético, se não viesse precedido de 24 edições mal-escritas. E ainda deixa no ar a pergunta incômoda: por que uma revista chamada "Lendas do Universo DC Online", vinculada a um jogo onde o slogan é "torne-se a Lenda", traz como personagem principal um vilão que nem poderes possui?

Ouvindo: Dope Stars Inc. - Get Young
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