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6 de fevereiro de 2013

Sangue, Kickstarter e Lágrimas

Dungeon Siege Se algum dia você jogou Total Annihilation e teve bons momentos,  você deve ler esta postagem. Se algum dia você jogou Dungeon Siege e gostou, você deve ler esta postagem. Se você experimentou algum título da franquia Supreme Commander e guarda boas lembranças das batalhas monumentais ou mesmo se você apenas se divertiu com Age of Empires Online, então você deve ler esta postagem. Porque Chris Taylor e a desenvolvedora Gas Powered Games precisam de sua ajuda. Em longa entrevista, ele explica sua luta.

Taylor está na indústria desde 1989, mas alcançou o estrelato como o criador do elogiado Total Annihilation. Talvez pressentindo o desmantelamento da Cavedog, o desenvolvedor criou sua própria empresa, a Gas Powered Games em 1998. Seus jogos foram distribuídos pela Microsoft, pela finada THQ, pela SEGA e pela Square-Enix. Recebeu diversas ofertas para vender a Gas Powered Games e desfrutar da suposta segurança que uma produtora oferece. Sempre recusou e manteve sua desenvolvedora na independência, labutando a cada jogo criado para conseguir lançar no mercado ou aceitando contratos que poderiam manter os negócios funcionando. Já foi pra casa em lágrimas, devendo mais de quatro milhões de dólares para o banco, sem saber como pagar a folha de pagamento na sexta-feira seguinte. Sobreviveu. Quitou as dívidas. Continuou independente.

Tudo mudou em 2012.

Com o desenvolvimento de Age of Empires Online, o ano parecia ser tranquilo para a Gas Powered Games. Um novo projeto próprio estava no forno, outros contratos estavam sendo negociados, a empresa tinha quatro meses de lastro no banco para sustentar suas operações. Mas, assim como fez com o último Flight Simulator, a Microsoft decidiu suspender a criação de conteúdo novo para o jogo. Os outros contratos nunca se concretizaram. Kings and Castles, o projeto de estimação da empresa, era caro demais para ser concluído. A tormenta havia chegado.

Chris Taylor foi forçado a demitir, em duas ondas sucessivas, em Outubro e Dezembro do ano passado. E cada corte era doloroso. Havia pessoas com cinco, dez anos de casa. Mas as reservas estavam se esgotando rapidamente. A saída foi o Kickstarter.

Kings and Castles não poderia seguir esta rota. Se Supreme Commander custara 11 milhões de dólares para ser feito, o novo projeto era estimado em metade disso. Nenhuma produtora estava disposta a investir. E um Kickstarter de 5 milhões estava fora de cogitação.

Você pode ir nas lojas agora e comprar todos os jogos criados pela Gas Powered Games. Não vai ajudar. Total Annihilation, Dungeon Siege, Supreme Commander, Demigod, nenhum deles vai dar um centavo para a empresa. O lado mais sinistro da relação produtora/desenvolvedora é que se um título não atingir um determinado patamar de faturamento, a desenvolvedora não recebe por isto depois de um tempo. Não há royalties da venda. Para conseguir sair do abismo, a Gas Powered Games teria que lançar algo sozinha nos canais digitais, algo que revertesse totalmente para seus cofres, sem interferência de investidores. Os investidores precisavam ser os jogadores.

O Kickstarter do Desespero

Mas seria tarde demais?

Wildman é um RPG de ação com toques de estratégia, os dois gêneros que a empresa tem experiência. Foi elaborado às pressas, por um time mínimo de funcionários remanescentes da Gas Powered Games. E pediu US$1,1 milhão de dólares para ser produzido. Apesar da situação desesperadora, Taylor estava tomado pelo otimismo. Ele admite que já estava até pensando no que fazer quando ultrapassasse a meta.

Wildman

No primeiro dia de arrecadação, não conseguiu cobrir nem um décimo do necessário. Com o passar dos dias, a tendência foi só piorando. O sinal da catástrofe era claro. As reservas estavam no fim, encargos trabalhistas precisavam ser pagos, prolongar o sofrimento seria uma estupidez.

Chris Taylor Taylor demitiu todo mundo. Em suas próprias palavras, foi pior o dia de sua vida.

Mas os apoiadores responderam, os amigos incentivaram. E se ele estivesse jogando a toalha muito cedo? As notícias da turbulência na Gas Powered Games fizeram com que houvesse um pico de contribuições. Seria possível?

Taylor chamou de volta alguns de seus funcionários para dar expediente de graça na empresa até o resultado final do Kickstarter. Oito deles se comprometeram a assumir Wildman, se tudo desse certo. Viveriam de esperança e do seguro.

Faltando nove dias para encerrar o prazo final, Wildman não atingiu nem mesmo metade de sua meta. A cada dia que passa, Chris Taylor pesa sua decisão. A cada dia, ele pensa que talvez tivesse sido melhor se os números fossem ainda piores, para que ele pudesse desistir de vez, se livrar do peso da responsabilidade e encerrar sua carreira. Ele sabe que se o milagre acontecer, ele e sua equipe de teimosos terão que fazer valer o esforço, trabalhar noite e dia para desenvolver o melhor Wildman que o mundo merece. "Se for financiado, nós iremos entregar uma experiência que as pessoas irão dizer, 'é, este é um jogo da GPG'", garante Taylor.

O veterano desenvolvedor segurou as lágrimas para gravar uma atualização do Kickstarter. Não precisa saber inglês para entender o que as linhas do seu rosto estão dizendo. É a história de um homem que sabe que sua última chance está passando.

ATUALIZAÇÃO (14/02): Wildman foi cancelado. Mas a Gas Powered Games vive.

Ouvindo: Kouhei Tanaka & Motoi Sakuraba - Resonance Of Fate
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Um comentário:

Raphael AirnMusic disse...

Aquino, muito maroto da sua parte colocar esse post logo depois do anterior sobre a EA e suas artimanhas.

Torna-se praticamente impossível não apoiar o estúdio pequeno tentando sobreviver. Espero que de certo, apesar do tempo curto pra finalizar a campanha.

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