Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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21 de janeiro de 2013

Apagando da Existência

No exato momento em que você estiver lendo isso, um jogo que existiu, teve fãs, teve odiadores, foi completado e largado por milhares de jogadores, simplesmente deixou de existir. Para sempre. Demo, vídeos, imagens, temas, avatares, qualquer coisa que estivesse relacionada ao jogo foi sumariamente apagada do Xbox Live. Todas as cópias existentes em prateleiras foram recolhidas e deverão ser destruídas.

Para todos os fins, Too Human nunca existiu.

O título que deveria ser o épico de ficção-científica que catapultaria a Silicon Knights para a estratosfera se transformou em uma descida ao inferno judicial e um assustador precedente dentro da indústria dos jogos eletrônicos.

Crepúsculo dos Deuses

A canadense Silicon Knights tinha um portfólio de jogos elogiados pela crítica mas não necessariamente um sucesso de vendas. Criadores do primeiro Legacy of Kain, viram sua propriedade intelectual fugir nas mãos da produtora Crystal Dynamics. Depois, após lançarem Eternal Darkness: Sanity's Requiem, angariaram elogios e fôlego para seu projeto mais ambicioso.

Too Human

Too Human estava em gestação desde 1996 e competiu com Legacy of Kain para receber o sinal verde. Chegou a ser anunciado em 1999, durante a E3, para o primeiro Playstation. Nesta época, o primeiro Xbox ainda era um segredo nos porões da Microsoft. Com um contrato exclusivo com a Nintendo, o foco da Silicon Knights mudou e o jogo passou a ser um sonho para o Gamecube. Too Human permaneceu em total silêncio até 2005. Ressuscitado, o projeto se tornaria uma trilogia a ser lançada apenas no Xbox 360. Mais três anos se passariam antes do jogo chegar às lojas, completando um ciclo de quatro anos sem que nada fosse lançado pela empresa.

O mundo de Too Human mistura mitologia nórdica com ciborgues, armas nucleares, robôs assassinos e o velho dilema sobre o que define um Homem, em uma era onde a Humanidade se encontra à beira da extinção diante de um inverno milenar. Se os temas eram épicos e os personagens maiores que a vida, a jogabilidade medíocre foi desprezada por público e analistas.

O jogo estaria condenado a uma nota de rodapé na indústria se não se transformasse no pivô de uma equivocada batalha judicial entre os Silicon Knights e a titânica Epic Games. A primeira alegava que a segunda teria sabotado o licenciamento da Unreal Engine utilizada para desenvolver Too Human e outros títulos da Silicon Knights e exigia indenização. De acordo com a acusação, as práticas desleais da Epic Games teriam provocado os atrasos de Too Human e seu fracasso. Em sua defesa, a Epic Games afirmou que a Silicon Knights furtou segredos comerciais da engine e teria utilizado parte do código da versão 3 sem pagar o licenciamento.

Ainda que tenha sido a Silicon Knights a começar a briga, o juiz bateu o martelo em favor da Epic Games, em uma drástica reviravolta. O Ragnarok havia chegado para os canadenses.

Cavalgada das Valquírias

Em uma perturbadora decisão, ficou determinado que todos os jogos da Silicon Knights criados com a Unreal Engine, produzidos ou em desenvolvimento, deveriam ser destruídos. Além de pagar uma multa de 4.45 milhões de dólares para a Epic Games, a desenvolvedora canadense deveria remover do mercado os jogos Too Human e X-Men: Destiny, pagando todos os custos do procedimento, incluindo transporte, armazenamento e reembolso de lojistas. Além disso, ela foi obrigada a cancelar a produção de títulos como The Box/Ritualyst, The Sandman e Siren in the Maelstrom. Jogos que existiram e nunca mais serão encontrados. Jogos que foram sonhados e nunca se tornarão realidade, sequer anunciados ou conhecidos fora de seu escritório.

Como livros queimados em praça pública ou obras de arte destruídas em bombardeio, uma parcela da produção cultural humana está sendo apagada da memória pela força da lei.

Nazismo - Queima de Livros

Nem Too Human nem X-Men: Destiny podem ser classificados como o pináculo de sua indústria, mas não é o seu mérito que foi julgado. O mesmo destino inglório poderia ter atingido qualquer outro jogo, incluindo vencedores de prêmios. O mesmo destino inglório pode ter atingido outros jogos, perdidos para sempre nas névoas da disputa judicial. O mesmo destino inglório pode se abater sobre produções futuras, descartadas na lixeira como se fossem objetos irrelevantes. Quem pode dizer que The Box/Ritualyst, The Sandman ou Siren in the Maelstrom não seriam GOTY 2013 ou 2014? Ninguém sabe, ninguém saberá.

Primeiro levaram Too Human / Mas não me importei com isso...

Ouvindo: The Little Ones - There's a Pot a Brewin'
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7 comentários:

Breno disse...

Se eu não entendi errado, a Silicon Knights são maus perdedores por quererem entrar na justiça contra a Epic por conta do fracasso que foi o Too Human. Complexo de esquerdista esse de querer sempre culpar o outro pelas suas falhas, ao inves de analisarem melhor as proposições e contratos da fornecedora... Lapada merecida, mesmo eu sendo fã da serie Legacy of Kain.

Ao menos os jogos deles lançados na engine U3 poderam ser lembrados... em torrents do Piratebay,haushaushaus...

Breno disse...

Isso também me faz lembrar do famoso bonus de royalties oferecidos a Obsidian pela Bethesda em caso de New Vegas conseguir on metascore de 8.5 ou superior. Terminou o jogo tendo um metascore de 8.4 e eles ficando sem bonus.
A primeira vista parece injusto, mas não é. Regras são regras, quem mandou aceitar uma proposta tão arbitraria em primeiro lugar? Se não tem poder de persuação para fazer uma contraproposta, então é melhor aceitar o negocio com o rabo entre as pernas. Ao menos isso servio para mostrar o quão safada a Bethesda é como produtora para alguns desavisados. Safada, mas dentro da lei.

Davy disse...

O Breno sempre com suas "pérolas" de comentários reacionários . . .

O caso da Obsidian é completamente diferente, não houve disputa judicial, eles não saíram por aí difamando a empresa. A notícia surgiu na net e, procurados sobre o assunto, confirmaram, porque era algo verídico. Talvez um funcionário da própria Obsidian tenha divulgado a notícia, mas de qualquer modo não houve litígio entre a Bethesda e ela. De fato, o CEO da Obsidian tem conversado com algumas empresas, Bethesda inclusa, sobre um futuro projeto pós South Park e além do Project Origin (como fonte cito a ótima retrospectiva do empresa realizada pelo Kotaku).

E como produtora independente, qual o poder de barganha que a Obsidian tem? Pouquíssimo, eu diria. E como opinião, creio que essa cláusula do metascore, muito provavelmente ainda foi vista pela própria Bethesda como um ato de benevolência da parte dela, um "bônus" no contrato. Típico de reacionários burgueses ;) que tratam uma forma de arte apenas como mercadoria. E que combina perfeitamente com a imagem que faço do Pete Hines por várias entrevistas que já li.

Mas o que é realmente triste, é que em um post extremamente sério aqui do site (a destruição de uma obra cultural, independente da qualidade), o Breno é capaz de fazer um comentário absolutamente simplista e terminar texto com "haushaushaus"

Lamentável, e é por atitudes desse tipo que os games não são levados a sério como merecem.

Se fosse cópias de um livro, ou fitas / DVD / B-ray ou álbuns musicais a serem destruídos, meio mundo estaria comentando alarmado na mídia como um todo, além da internet (TV, jornal etc). Mas são só "jogos", quem se importa? Quem sabe assim as " crianças " joguem menos e estudem mais . . .

Breno disse...

"E como produtora independente, qual o poder de barganha que a Obsidian tem?"
Em entrevistas recentes, o CEO da Obsidian, Feargus, disse ter recusado da Bethesda um jogo da franquia Star Treck(nessa entrevista mesmo que vc falou), então eles tem poder de barganha sim, embora não saibam usalos, vide os tantos jogos cancelados da Obsidian... E eu não disse que a Obsidian entrou em litigio contra a Bethesda, apenas comentei a revolta dos gamers perante a situação.

E uma coisa que vc não parece entender é que foi a propria Silicon Knights e seus advogados que acusaram a Epic de lesa-los(segundo o artigo acima). Aparentemente ficou provado que a Silicon Knights usou a Engine da Epic de maneira indevida e por fim o perdedor da causa perdeu o direito de comercializar os seus jogos(não é o primeiro nem o ultimo produto a sair de comercialização). Eles cavaram a propria cova por incompetência mesmo(assim como produzir um jogo por quinze anos é um sinal de incompetencia).

"Lamentável, e é por atitudes desse tipo que os games não são levados a sério como merecem."

Na minha opinião tudo de ruim que existe nos jogos é fruto de pessoas que os levam muito a sério(desde pseudo jornalistas acefalos, blogs hippies até CEOs gananciosos).

"Típico de reacionários burgueses ;) que tratam uma forma de arte apenas como mercadoria. "

Me pergunto porque eles estão no topo da cadeia alimentar dos jogos. Obsidian pode ter mais talento intelectual, mas não sabem lidar com negocios, então eles tem que pedir esmolas no kickstarter.

Shadow Geisel disse...

"Na minha opinião tudo de ruim que existe nos jogos é fruto de pessoas que os levam muito a sério..."

e desde quando levar uma coisa a sério virou um problema? desde que isso não atrapalhe nenhuma parte do processo criativo, games têm sim que serem levados a sério, principalmente por quem os cria. nós, reles consumidores, é que não precisamos nos preocupar tanto. não levar as coisas a sério é que parece uma atitude de hipie.

Breno disse...

"e desde quando levar uma coisa a sério virou um problema?"

Me expressei de forma incompleta. Digo levar a serio em termos de se preucupar com as coisas mais irrelevantes no processo de se criar um jogo. CEO's se preucupam com a rentabilidade de um jogo as custas do jogo em si. Pseudo jornalistas se preucupam com ad sense, marketing, doritos e montain dew. E por fim temos os blogs hippies que se preucupam mais com "problemas sociais"(problemas de 1 mundo) e ignoram completamente o jogo em si.

Shadow Geisel disse...

aí eu concordo. e outra: não quero ver doritos nem pintado de ouro. inventei de comer um pacote do grande no último final de semana e passei mal até a terça-feira. culpa dos desenvolvedores inescrupulosos rsrsrs.

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