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19 de outubro de 2012

Clive Barker: Jogos de Sangue - Parte III

O escritor Clive Barker tem mais jogos mortos-vivos do que jogos lançados. Sua passagem pela indústria dos jogos eletrônicos tem somente um punhado de lançamentos para uma trinca de adaptações amaldiçoadas de Hellraiser e outros títulos que rastejaram de volta para a escuridão do esquecimento. De um deles, sabemos muita coisa. Dos outros, sabemos quase nada.

Espírito da Vingança

Demonik - Screenshot

Às vezes é tortuoso o caminho que uma ideia pode seguir antes de ganhar vida. Por volta de 2003, a SEGA tinha um projeto bem vago para um jogo sobre vingança em andamento. A produtora achou que faltava uma história, apesar de ter se interessado pela premissa. Para trabalhar mais o projeto, a SEGA chamou a ajuda da Tiger Hill, uma produtora de jogos vinculada ao cineasta John Woo. A Tiger Hill, por sua vez, chamou a ajuda do roteirista de terror Todd Farmer. Quando a história ficou pronta, a SEGA não estava mais interessada no projeto. A Tiger Hill comprou os direitos do projeto e foi à luta, em busca de uma produtora que colocasse dinheiro na mesa.

Todd Farmer havia criado um enredo que envolvia pactos demoníacos e, segundo ele, nem o pessoal da Tiger Hill estava muito seguro a respeito do tema. Houve um atrito entre as partes e Farmer passou para segundo plano. A desenvolvedora conseguiu um acordo de produção com a Majesco. A Majesco trouxe a desenvolvedora Terminal Reality para trabalhar no projeto e Clive Barker para fazer pelo título o mesmo que já tinha feito em Undying: reescrever, recriar, dar uma nova cara. Farmer pulou fora, mas confiante de que o escritor faria um bom trabalho: "com Barker o projeto está em boas mãos. Qualquer dificuldade com a história que eu poderia ter... ele vai saber lidar". Barker ganhou os direitos de adaptação para o cinema e a cadeira de diretor do eventual filme.

Na E3 2005, o jogo foi revelado ao público. Seu nome era Demonik.

Demonik No título de ação em terceira pessoa, o jogador assumiria o papel do demônio Volwrath, invocado à Terra por pessoas em necessidade de vingança. A cada capítulo, um diferente invocador e uma diferente missão contra seus algozes. Volwrath poderia andar pelos níveis em sua forma natural, mas isso não seria aconselhado porque um ser cinzento de chifres chama um bocado de atenção. Então, uma das habilidades mais exploradas no título seria o poder de possuir pessoas e espalhar o caos. Cada possuído ofereceria diferentes capacidades e itens para o demônio vingador, mas quanto mais permanecesse no corpo de seu hospedeiro, seu corpo sofreria alterações de aparência, até Volwrath emergir em toda sua forma novamente. Além da possessão, o protagonista teria acesso a outros e interessantes poderes, como evocar enxames de pragas, controlar objetos e pessoas telecineticamente, espalhar doenças ou fazer chover fogo dos céus. Ao todo, seriam mais de 25 poderes a disposição do jogador.

No caminho de Volwrath haveria oponentes sobrenaturais e até pessoas que não poderiam ser possuídas, portadoras de algum tipo de amuleto que bloquearia seus poderes. No caminho de Demonik, houve a queda da Majesco.

Com o fracasso comercial de vários projetos caros dentro da empresa, incluindo o mal-fadado Advent Rising, a Majesco teve problemas financeiros, resolveu dar uma guinada de 180º e declarou que passaria a investir apenas no mercado casual e nos portáteis. Enquanto isso, a Tiger Hill encerrou suas atividades sem nunca ter lançado um jogo sequer.

Previsto inicialmente para ser lançado em 31 de Janeiro de 2006, a principio para a nova geração de consoles e depois somente para o Xbox 360, Demonik morreu nos minutos finais de sua produção, tendo seu cancelamento confirmado em 18 de Janeiro. Mais tarde, Barker avisou que o filme teve o mesmo destino.

Demonik - Screenshot 03 Demonik - Screenshot 02

Ectosilêncio

Por volta do final de 1993, depois do fiasco das adaptações de Nightbreed, Clive Barker estava disposto a tentar mais uma vez entrar na indústria dos jogos. O mercado de títulos em CD-ROM estava em plena ascensão. Ele tinha dois projetos em andamento: uma conversão de sua história em quadrinhos Ectokid e outra que jamais foi revelada.

Ectokid Ectosphere seria desenvolvido pela Virgin Games e traria as aventuras de Dex, um garoto capaz de enxergar o mundo normal com seu olho esquerdo e o mundo dos espíritos com seu olho direito. Dex usaria um tapa-olho, que, ao clique de um botão do jogador, seria trocado de vista, oferecendo duas perspectivas do mesmo cenário. O conceito lembra bastante o que foi empregado em Legacy of Kain - Soul Reaver, mas muitos anos antes. Barker jamais abandonou de todo a ideia e ela retornou, de certa forma, no poder de Scrye de Undying, quando o protagonista consegue visualizar presságios e segredos com uma visão especial.

A própria revista Ectokid teve curtíssima duração, de apenas 9 números, entre Setembro de 93 e Maio de 94. Apesar de ter criado o personagem para um selo da Marvel, Barker não escreveu as histórias. Os três primeiros números ficaram nas mãos de um iniciante James Robinson, que se tornaria famoso e premiado depois com seu trabalho na DC Comics, enquanto os números 4-9 foram escritos por Lana Wachowski, anos antes de se tornar conhecida por criar a franquia Matrix nos cinemas com seu irmão Andy Wachowski.

Como seria Ectosphere ou até que ponto foi o desenvolvimento permanece um mistério, assim como as razões por trás do cancelamento. Não há logos, telas ou mais informações sobre o jogo.

The 7th Guest Do outro projeto sabe-se apenas que estaria nas mãos da Trilobyte Software. No começo de 1993, a desenvolvedora havia lançado o título seminal pelo qual seria conhecida: The 7th Guest. O título de horror foi um dos primeiros a aproveitar a onda de espaço liberada pela chegada do CD-ROM, um dos poucos a utilizar sequências filmadas com maestria e um dos raros títulos focados em um público adulto. O resultado foram 2 milhões de unidades vendidas. O próprio Bill Gates declarou que o jogo "era o novo padrão em entretenimento interativo". Mas a Trilobyte nunca conseguiu repetir o sucesso de seu primeiro jogo e sobrevive até hoje de relançar o jogo ou sua continuação, The 11th Hour, em diferentes plataformas. Não é difícil imaginar que a parceria do estúdio com o mestre da literatura de terror também seria um adventure e teria rendido bons frutos para ambas as partes.

Por muito pouco a carreira e a vida de Clive Barker não se encerraram prematuramente em Janeiro deste ano. Após uma corriqueira visita ao dentista, o escritor entrou em coma devido a um envenenamento do sangue. Ele permaneceu neste estado de quase-morte por 11 dias. Aos 59 anos de idade, foi uma situação crítica para o autor e os médicos temiam pelo pior. Mas ele lutou de volta e "após alguns dias de alucinações de pesadelo eu acordei para a vida outra vez".

O que alguém com a mente de Barker pode chamar de "alucinações de pesadelo" é uma pergunta que eu deixo no ar. Quais de suas antigas visões ou de suas novas visões finalmente conseguirão entrar em nossas casas, através da janela dos jogos eletrônicos, é uma outra pergunta, uma que o futuro irá responder.

Hellraiser - Cenobitas

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Um comentário:

Shadow Geisel disse...

"O que alguém com a mente de Barker pode chamar de "alucinações de pesadelo" é uma pergunta que eu deixo no ar."

nossa, Aquino. essa pergunta não só ficou no ar, como também na minha mente rsrsrs. tomara que essa experiência renda bons frutos, seja em livros, filmes ou games. aliás, cadê clive Barker no cinema atual?

esse jogo, 7th Guest eu joguei no SNES. claro que não era a mesma coisa, mas agora eu me lembrei dele.
triste o Demonik não ter vingado (com o perdão do trocadilho). os games tão precisando de mais criatividade e mais alma (perdão do trocadilho de novo) hoje em dia.

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