Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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4 de setembro de 2012

Galeria da Infâmia: Jogos em Columbine

51 minutos. Foi o tempo que bastou para Eric Harris e Dylan Klebold escrevessem seu nome na História da pior maneira possível para dois adolescentes. Foi o tempo que os dois levaram para provocar a morte de 12 estudantes e um professor na escola que freqüentavam. Era 20 de abril de 1999, era o Massacre de Columbine.

Doom

Quase seis anos antes, em dezembro de 1993, a id software lançou no mercado o seu mais elogiado produto até hoje: o jogo Doom. Em 1995, estima-se que o jogo estivesse instalado em mais de 10 milhões de computadores em todo o mundo, em sua versão completa ou somente os níveis shareware. Empresas e universidades estabeleceram políticas contrárias ao título para evitar perda de produtividade e congestionamento nas redes internas dado o volume de partidas multiplayer disputadas em horário comercial ou horário de aula. Mesmo a Microsoft aproveitou a popularidade do jogo, lançou uma adaptação autorizada para o Windows 95 para promover as vantagens do novo sistema e colocou o próprio Bill Gates para divulgar a aliança durante um evento exclusivo para funcionários.

No vídeo, a pergunta: "quem você quer executar hoje?". No vídeo, o homem mais rico do mundo aparece vestindo um sobretudo negro e carregando uma escopeta. DirectX se tornou um padrão da indústria, Doom no Windows 95 se tornou um sucesso.

Em 1996, Doom ainda tinha uma comunidade ativa de usuários que produziam mapas e trocavam mods. Com o intuito de divulgar seus próprios mapas, o problemático Eric Harris criou um site na internet. Com o passar do tempo, o site começou a ter também instruções para sabotagem, desabafos rancorosos e ameaças de morte contra conhecidos e colegas de classe. Harris e seu amigo Klebold também passaram a fazer pequenos furtos no mundo real. Alertadas, as autoridades sociais condenaram a dupla a terem aulas de gerenciamento de raiva e sociabilização. O conteúdo pessoal foi removido do site, que voltou a hospedar somente mapas de jogos e conteúdo relacionado. Harris passou a tomar o anti-depressivo Luvox.

Enquanto isso, os dois mantiveram um diário escrito com o mesmo tipo de ameaças e discurso de ódio que antes estava online. Ainda que tivessem somente 17 e 18 anos na época do massacre, eles compraram armas de fogo e farta munição. Também construíram 99 explosivos caseiros.

Na manhã do massacre, seis anos depois de Doom, quatro anos depois de Bill Gates, eles entraram na escola de sobretudo negro e escopeta. Eric Harris, Dylan Klebold e mais 13 pessoas não sairiam com vida do prédio.

Por Quê?

Eric Harris O Massacre de Columbine se tornou o centro de um debate que se estende até os dias de hoje. Por que Harris e Klebold fizeram o que fizeram? Quais foram os fatores que desencadearam tão macabra sequência de eventos. Culpados foram procurados em todas as sombras, enquanto uma nuvem de medo e paranóia se instalava nos céus para nunca mais sair. Bullying, Marilyn Manson, ostracismo social, movimento gótico. Jogos eletrônicos. Todos foram em maior ou menor grau apontados como causas para o atentado.

Em 2001, parentes do professor assinado entraram com um processo contra 25 empresas produtoras de jogos exigindo 5 bilhões de dólares em indenização. Segundo o processo, "sem a combinação de jogos eletrônicos extremamente violentos e o envolvimento incrivelmente profundo desses rapazes, o uso de um vício nesses jogos e as personalidades básicas destes garotos, estes assassinatos e este massacre não teriam acontecido". Para John DeCamp, advogado representante dos parentes das vítimas, o objetivo do processo era restringir a divulgação e a venda de jogos violentos que "tornam crianças em monstros assassinos".

Em 2002, o processo foi descartado pelo juiz Lewis Babcock, que assinalou: "Deixando de lado qualquer desgosto pessoal, como eu devo fazer, é manifesto que existe uma utilidade social em formas expressivas e imaginativas de entretenimento, mesmo que elas contenham violência".

Dylan Klebold No período de confusão jornalística que se seguiu ao massacre, foi noticiado que Harris teria reproduzido a escola de Columbine em um mapa de Doom e usaria o modelo para ensaiar seu crime. Telas de tal mapa nunca foram publicadas e o arquivo jamais foi encontrado. Ainda que o provedor de serviço tenha apagado o site de Harris após a tragédia, cópias de seus mapas foram salvas e republicadas em diferentes portais. Nenhuma cópia do lendário mapa de Columbine jamais apareceu. Na improvável hipótese de que o mapa exista, a tecnologia presente na engine de Doom não é muito mais avançada do que um desenho no papel ou uma maquete de papelão.

O mesmo John DeCamp que processou a indústria do entretenimento entrou com um processo contra o fabricante do anti-depressivo Luvox. Um estudo publicado em 2010 pelo Institute for Safe Medication Practices comprovou que o remédio tem 8.4 vezes mais chances de estar associado a comportamento violento como efeito colateral do que outros medicamentos similares. O arsenal carregado por Harris e Klebold incluia uma submetralhadora, uma carabina de assalto, uma escopeta e um rifle de cano duplo serrado. Além de 99 explosivos e quatro facas. Para o cineasta Michael Moore, a cultura da violência e das armas de fogo seria a culpada. Seu filme, Tiros em Columbine, venceu o Oscar de Melhor Documentário em 2003. Psicólogos que se debruçaram sobre o caso e sobre os diários deixados por anos concluíram que Harris tinha uma personalidade psicopata e dominadora, enquanto Klebold era depressivo e destrutivo.

Em 2002, o Serviço Secreto Americano e o Departamento de Educação realizaram uma ampla pesquisa analisando 37 incidentes idênticos aos crimes de Columbine, de 1974 até 2000. O relatório publicado se tornou a base para a política de segurança pública adotada em escolas desde então. Nas 63 páginas do documento, "video games" são citados apenas duas vezes:

"Mais da metade dos atacantes demonstrou algum interesse em violência, através de filmes, video games, livros e outras mídias.

(...) Um oitavo dos atacantes exibiu um interesse em video games".

Lendo de outra forma: 7 em 8 assassinos em massa não tinham interesse em jogos eletrônicos.

Doom nunca foi proibido nos Estados Unidos. Instalado em pelo menos dez milhões de computadores, nunca houve outra associação entre o jogo e assassinatos no mundo real. Mas o estigma de Columbine seria explorado em diferentes ocasiões, em diferentes contextos, pela mesma mídia de sempre.

Ecos de Columbine

No Brasil, Doom sobreviveu incólume a Columbine, a polêmica não atingindo nossas praias por meses. Até 3 de novembro daquele mesmo ano.

O ex-estudante de Medicina Mateus da Costa Meira entrou em uma sala de cinema em São Paulo armado com uma submetralhadora e tirou covardemente a vida de três pessoas, ferindo outras 4. Seus advogados tentaram alegar que o assassino não poderia ser imputado pelos crimes, por se tratar de pessoa com problemas mentais sob a influência do jogo Duke Nukem 3D. No FPS, logo no primeiro nível, o herói invade um cinema e mata invasores alienígenas.

Duke Nukem 3D - Com texturas HD

Em dezembro de 1999, dois meses depois da tragédia, o Ministério da Justiça decretou que os jogos Doom, Mortal Kombat, Requiem, Blood, Postal, e Duke Nukem fossem removidos das lojas, sob a pena de multa de 20 mil reais ao dia aos lojistas que descumprissem a ordem. A exceção de Requiem: Avenging Angel, todos os títulos tinham sido lançados bem antes da proibição e já não podiam ser encontrados nas prateleiras. Mas, segundo parecer da juíza mineira Cláudia Resende Neves, estes jogos incentivam "o prazer de matar, de causar sofrimento, de aniquilar completamente o mais fraco". A proibição antecedeu à aplicação do sistema de classificação etária também para jogos eletrônicos e foi a única solução encontrada para lidar com o que se entendia como um problema. Entretanto, mesmo após a criação do sistema de classificação em 2001, a proibição da lista de jogos permanece vigorando até hoje.

Mateus da Costa Meira Apenas em 2004, cinco anos depois do crime, Mateus da Costa Meira foi condenado a 120 anos de prisão. Os jurados rejeitaram a argumentação da defesa e declararam o réu ciente de seus atos e culpado. O Atirador do Shopping não agia sob influência. Ele fez o que fez porque queria fazer. Entretanto, a proibição da lista de jogos permanece vigorando até hoje.

As consequências da decisão do Ministério da Justiça e da estratégia dos advogados de Costa Meira continuam sendo sentidas. No parecer da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) a respeito do infame Projeto de Lei 170, a proibição "encontra amparo legal na repulsa imediata a tudo que incentiva a prática da 'violência'". Ironicamente, o Projeto de Lei 170 foi extinto pelo próprio autor, uma vez que "poderia ferir direitos fundamentais, notadamente como a liberdade de expressão, a livre iniciativa e o livre exercício da atividade econômica, e até mesmo podendo ensejar a censura...". Entretanto, a proibição da lista de jogos permanece vigorando até hoje.

E outros foram acrescentados.

As tragédias de Columbine e do cinema do shopping são avidamente reencenadas a cada nova demonstração de violência sem sentido. Na busca por respostas fáceis, edições vendidas ou cliques rápidos, a mídia desenterra antigas inverdades, que, de tanto repetidas, se tornam a nova verdade. A cada Realengo, Moscou, Goiás, Noruega, ou outro cinema,  os mesmos forcados e tochas são tirados do armário e uma parte da responsabilidade dos verdadeiros culpados é injustamente aliviada de seus ombros, enquanto caçadores de polêmica atiçam o linchamento.

A Arte Imita a Morte

E foi nos jogos eletrônicos que Columbine renasceu. Seis anos depois da tragédia, um desenvolvedor anônimo com o RPG Maker 2000 na mão e uma ideia na cabeça criou e publicou sozinho Super Columbine Massacre RPG. No jogo, você assume o controle de Eric Harris e Dylan Klebold antes, durante e depois do massacre.

SCMRPG - Cafeteria

Obviamente, o jogo provocou revolta na mídia.

Ele foi acusado de banalizar o tema, de transformar a chacina em entretenimento, de ser insensível com as vítimas, de glamorizar a dupla de assassinos. Ele foi até acusado de ter influenciado outro tiroteio.

Mas Super Columbine Massacre RPG tinha um rosto. Com a polêmica, Danny Ledonne resolveu sair do anonimato e assumir a autoria do jogo. Estudante e cineasta independente, ele viu em Columbine um reflexo de si mesmo, de suas angústias, de suas dúvidas. Após  a morte do cineasta Stanley Kubrick (no mesmo 1999 da tragédia), Ledonne assistiu novamente Laranja Mecânica, o clássico distópico da hiperviolência e se perguntou: por que não? Se uma obra cinematográfica pode funcionar como um estudo sobre delinqüência, cultura e sociedade, por que não um jogo? Por que não um jogo sobre Columbine? Sem nenhum conhecimento de programação, ele procurou na ferramenta RPG Maker 2000 a forma de colocar na tela do computador a mensagem que queria passar.

Antes de ser uma banalização ou um brinquedo, SCMRPG é um documentário digital repleto de frases, imagens e músicas tiradas do mundo real. É um mergulho no caos doentio de Harris e Klebold, uma recriação brutal do horror difícil de ser encarado. O jogo ironiza os estereótipos e preconceitos associados à tragédia, enquanto nos mostra as personalidades desestruturadas de seus protagonistas.

SCMRPG permaneceu um ano sem levantar polêmica, com menos de 10 mil downloads gratuitos. Até ser descoberto pelo site Gamasutra. Em seguida, foi publicado no Kotaku. E depois na Associated Press, quando o monstro fugiu completamente do controle e escapou para a grande mídia. Em  quinze dias de maio de 2006, foram 30 mil downloads. Em 2007, já somava 400 mil. Revelado, o jogo foi massacrado pela imprensa.

Patrick Dugan, editor do Gamasutra, e "descobridor" do jogo, escreveu em sua defesa (negrito por minha conta):

"Eu acredito que qualquer um que descarte o Columbine RPG tem sangue de barata. A maioria não jogou o jogo, ou o jogou com tanto preconceito que estavam cegos para a genialidade, a honestidade, a beleza de seu comentário social. Super Columbine Massacre RPG está lotado de falhas de design e tem gráficos medíocres de 1995, o criador do jogo admite, mas, independentemente disto, é um trabalho de arte. Ele coloca você dentro dos pensamentos dos assassinos e fornece uma sugestão muito clara do por que eles fizeram o que fizeram".

Super Columbine Massacre RPG é um jogo difícil. A jogabilidade é confusa, sim,  mas não é o que está em questão. Algumas das situações são chocantes ou próximas demais das últimas pessoas na Terra que você gostaria de se aproximar. Vê-los como seres humanos em um minuto para logo em seguida ver a loucura transpirando. A atmosfera que o circunda, dos midis de Nirvana e Marilyn Manson até as referências à Apocalypse Now, agrega um peso que nenhum artigo ou livro poderia ter. Quando o massacre começou fiquei incomodado na cadeira. Coloquei todas as "batalhas" no modo automático, para que não compartilhasse qualquer cumplicidade. Mas o jogo segura seu queixo e o faz olhar para a tela: fotos da escola, sangue pixelizado nos corpos que não desaparecem como na maioria dos jogos, vítimas que praticamente não reagem enquanto o som das armas pesadas se faz ouvir. Estranhamente, falhei na missão. Como Dugan já havia afirmado, "vencer é perder". Não quis continuar. Vendo pelo vídeo oficial, completei apenas um quarto do jogo.

SCMRPG - Videocamera

Não é divertido. Não foi feito para ser divertido. Não é Mario ou Sonic ou Halo ou CoD. É uma nova fronteira. Nas palavras de Richard Castaldo, "um jogo eletrônico é apenas outra mídia para a expressão artística". Castaldo estava lá, em 1999. Foi baleado 8 vezes por Harris e Klebold. Sobreviveu em uma cadeira de rodas. Desde 2006, ele procura uma carreira na indústria dos jogos eletrônicos.

Danny Ledonne nunca mais produziu outro jogo. Como cineasta, produziu um documentário, Playing Columbine, sobre a controvérsia cercando SCMRPG. Atualmente é um ativista pelos jogos, realizando palestras pelos Estados Unidos e defendendo a liberdade de expressão.

Ouvindo: Midnight Syndicate - Shadows
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6 comentários:

Shadow Geisel disse...

"...todos os títulos tinham sido lançados bem antes da proibição e já não podiam ser encontrados nas prateleiras."

kkkkkkkkk. a velha mania dos brasileiros (ignorantes) em culpar a janela pela paisagem. seria cômico, se não fosse trágico...

Fábio Vieira disse...

Recomendo o livro citado no vídeo. :)

Mudando de assunto: Kickstarter. Anachronox 2. Tom Hall. Alguém dá a idéia ao homem, por obséquio!

C. Aquino disse...

Engraçado você mencionar isso, Fábio. Porque eu DE FATO sugeri isso para Tom Hall pelo Twitter e ele respondeu: http://blog.retinadesgastada.com.br/2012/02/anacrorumores.html

Fábio Vieira disse...

Opa, falha no meu sistema!

O que eu "lembrava" era que você tinha perguntado pro Tom Hall quando iriamos ver um Anachronox 2. Uma simples consulta teria evitado esta "gafe", hehehe. :D

Fico aqui pensando qual seria o empecilho... se é que ainda há algum. Já faz algum tempo desde a pergunta, afinal de contas... ;)

Breno disse...

"Super Columbine Massacre RPG está lotado de falhas de design"

Se ao menos metade dos indies e jogos comerciais fossem avaliado por esse prisma seria uma coisa boa sem duvida!

Salomaoss disse...

Quanto ao caso do cinema em Sampa:

1) O assassino tinha um histórico de esquizofrenia e vício em cocaína.

2)Qualquer indivíduo com QI igual ou maior que a própria idade entende que o maldito pó branco associado a esquizofrenia é uma tragédia anunciada.

3) Ninguém questionou como um cara desses conseguiu aquela submetralhadora?

PS.: Aquino, acompanho seu blog já faz alguns anos, apesar de ser a primeira vez que comento por aqui (acho). Voce demonstra uma lucidez e cuidado em textos como este que PASSAM LONGE do que é escrito por muitos jornalistas e acadëmicos.

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