Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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20 de setembro de 2012

Aulas de História

Uprising 44

Em 21 de Setembro de 1944, o chefe das SS Heinrich Himmler, declarou aos generais de guerra alemães que estava diante da "mais dura de nossas batalhas desde o início da guerra, comparável às batalhas nas ruas de Stalingrado". Era o Levante de Varsóvia. As baixas no exército de ocupação nazista foram estimadas em 8 mil soldados mortos e 9 mil feridos. Mas o resultado do outro lado foi muito pior: cerca de 16 mil combatentes rebeldes foram mortos e de 150 a 200 mil civis foram massacrados. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, 85% da cidade de Varsóvia tinha sido transformada em escombros.

Agora, 68 anos depois, esse pedaço da História está sendo redescoberto na forma de um jogo. Uprising44: The Silent Shadows foi desenvolvido pelo estúdio polonês DMD Enterprise, sediado na mesma Varsóvia. O título é uma combinação de ação em terceira pessoa com elementos de estratégia e retrata os 63 dias do maior levante civil contra forças de ocupação nazistas da História. Na jogabilidade, ele parece ser inspirado em tantos outros jogos baseados no mesmo período, incluindo uso de coberturas, 16 armas da época, controle de esquadrão, com um toque de visão superior para coordenar as forças de um ponto de vista mais estratégico.

Se na execução não há novidades, pelo menos na temática conseguimos fugir do eterno Herói Americano e somos apresentados a um momento único. A Polônia foi o primeiro país a cair diante do poderio de Adolf Hitler, mas não sem lutar. Mesmo durante a ocupação, foi palco de árdua resistência, gerando episódios como a trágica queda do Gueto de Varsóvia e a criação de unidades militares inteiras compostas apenas por poloneses e descendentes em tropas dos Aliados. Em 1944, com o avanço do exército russo pelo leste, os rebeldes de Varsóvia acreditaram que era chegada a hora de retomar sua capital. Mas o Exército Vermelho interrompeu sua marcha nos limites da cidade e se recusou a fornecer qualquer apoio aos insurgentes. Historiadores acreditam que Joseph Stalin incentivou o levante, mas abandonou os poloneses a sua própria sorte para não ter que lidar depois com o poder dos nacionalistas. Com limitado apoio dos demais Aliados, incluindo alguns pára-quedistas ingleses e americanos, o levante foi esmagado. As tropas alemãs, após a vitória, trataram de pulverizar a cidade e exterminar a população civil.

"A cidade deve desaparecer completamente da superfície da Terra e servir apenas como uma estação de transporte para a Wehrmacht. Nenhuma pedra pode ficar de pé. Todo prédio deve ser arrasado até seus alicerces."

Heinrich Himmler, 17 de outubro de 1944.

Uprising 44 03 Uprising 44

Se o final do jogo não pode ser feliz, ele permanece como triunfo, mais um marco da efervescente indústria de criação de jogos eletrônicos da Polônia. Uprising 44 já está vendendo no Gamersgate, Green Man e Get Games.

Espelho Eletrônico

Descontando as ações militares americanas durante a Segunda Guerra Mundial, no Vietnã, Somália e até países imaginários, fartamente representadas em jogos de todos os calibres, os outros países pouco ou quase nada exploram sua própria História. Mesmo a francesa Ubisoft, depois de um tempo mostrando a Itália Renascentista, agora resolveu investir no período da Independência de seu maior mercado com o próximo jogo da franquia Assassin's Creed. Mas, as produtoras independentes parecem não ligar para as tendências e buscam um vínculo mais direto com suas raízes.

Já vimos por aqui o vietnamita 7554, que retrata a guerra pela independência contra o colonizador francês. Para quem acha que no Vietnã só tem vietcongue e que vietcongue bom é vietcongue morto, será interessante conhecer o "outro lado". 7554 já está vendendo no Gamersgate e tem recebido avaliações positivas.

Generation Zero

Da Alemanha, vem outra história do "outro lado". Generation Zero ainda é um protótipo, mas já conta com o apoio do Ministério da Cultura. Ambientado em uma Berlim destroçada pela Segunda Guerra Mundial, o adventure irá mostrar o cotidiano de três crianças que tentam sobreviver aos desafios da pós-guerra, mostrando que valores como coragem, esperança e amizade ajudaram a reconstruir uma nação mergulhada na vergonha. O jogo foi exibido no Parlamento alemão no ano passado, mas ainda não tem data de lançamento.

Senta a Pua!

Senta a Pua E no Brasil, o que temos? Nossa produção de jogos caminha a pleno vapor, ainda que restrita a lançamentos para dispositivos móveis e alguns raros jogos para PC. Curiosamente, a abordagem de eventos históricos não é explorada por aqui. E temos muitas oportunidades perdidas.

A participação brasileira na Segunda Guerra Mundial não pode ser desprezada, como já vem sendo nos cinemas e televisão. Em mãos competentes, batalhas como a tomada de Monte Castelo poderiam se tornar o FPS que falta no currículo dos desenvolvedores brasileiros. Misturando com as ações do 1º Grupo de Aviação de Caça enviado para a Itália, teríamos inclusive missões aéreas.

A resistência lendária do Quilombo de Palmares seria outro ponto de nossa História com potencial épico. Desde o filme Quilombo, de 1983, esta é uma narrativa que se encontra esquecida. Um jogo de ação em terceira pessoa ou mesmo um título de estratégia/gerenciamento seriam as opções mais óbvias.

As Invasões Holandesas no Brasil poderiam dar origem a um jogo de capa e espada ou mesmo a um título de furtividade e assassinato. A Revolução Farroupilha poderia ser também cenário de um FPS, com armas do século passado.

Certamente nenhum jogo causaria mais polêmica do que um que explorasse a Guerrilha do Araguaia, talvez até com duas campanhas, uma para os militares e outra para os revolucionários. O assunto ainda é tabu, embora os Anos de Chumbo já tenham sido abordados sem histeria na televisão, no cinema, na literatura e na música. Trinta anos depois do fim do Regime Militar, é possível encontrar quem acuse a atual Presidente da República de "terrorista" por sua participação na resistência. Então, um jogo que revisite esse período seria nitroglicerina pura.

Todavia, nem só de sangue é feita a História dos povos. Também haveria espaço para os desenvolvedores nacionais que quisessem criar um jogo sobre a Copa de 70, por exemplo. Com uma recriação fidedigna dos atletas, músicas da época e uma jogabilidade que não faça feio, o jogo seria um sucesso comercial garantido. Um tema muito antigo? E por que não um jogo sobre a Copa de 94 ou 2002? A Copa de 98 poderia ser um DLC e caberia ao jogador mudar o destino daquela fatídica final...

Ainda no campo dos esportes, por que não temos um jogo que conte a carreira de Ayrton Senna? Há uma garantia de financiamento de sua Fundação, talvez com parte da renda das vendas revertida para ações sociais. Há espaço até para um All-Stars do automobilismo nacional.

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Jogos de aventura ou plataforma inspirados no universo de Monteiro Lobato poderiam fazer a alegria da criançada. Maurício de Souza, o mais bem-sucedido criador infantil em atividade, tem cacife o bastante para bancar novos jogos da Turma da Mônica (que não sejam adaptações de títulos estrangeiros ou produções para Facebook). Ziraldo e Maria Clara Machado são outros autores infantis com universos bem-desenvolvidos a espera de uma nova fronteira.

Os exemplos estão dados. Agora é a hora da cobra fumar.

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8 comentários:

Marcos A. S. Almeida disse...

Na verdade o chamado "Levante de Varsóvia" - também chamado de "Levante do Gueto de Varsóvia" - foi em 1943 numa ação desesperada e não coordenada iniciada por poloneses cientes do seu iminente extermínio.Em 1944 ocorreu a "Revolta de Varsóvia" essa sim coordenada e que provavelmente foi a inspiradora do jogo.
Pra quem tiver curiosidade e interesse nesse triste episódio recomendo firmemente o filme "O Pianista".

C. Aquino disse...

Marcos, a Revolta de 1944 também é conhecida como Levante de Varsóvia, embora seja comum mesmo as pessoas confundirem com o Levante do Gueto de Varsóvia. Eu mesmo não conhecia a revolta de 44 e, até pesquisar, achei que o jogo era sobre o gueto. Uprising 44 é mesmo sobre a ação coordenada.

C. Aquino disse...

Em outras palavras, a Polônia não se deu por vencida em nenhum momento.

Breno disse...

"Nossa produção de jogos caminha a pleno vapor, ainda que restrita a lançamentos para dispositivos móveis e alguns raros jogos para PC."

lol, frase mais paradoxal do retina! Como é que a industria de jogos brazuca pode estar a pleno vapor se ela está restrita a plataformas inferiores, jogos em flash e facebook?

A sugestão de jogos de futebol seria interessante mesmo, tendo em vista o fanatismo do brasileiro, que sempre cria patchs para os jogos de futebol piratas do PS2.

E eu me recordo de um jogo do Senna, mas é muito antigo

Fernando Lorenzon disse...

Gostaria muito de ver um game de corrida com carros antigos típicos do Brasil como Fusca, Brasília, Gol, Passat e pistas baseadas em localidades conhecidas das grandes cidades. Se o problema for licenciamentos veículos, poderiam colocar apenas os modelos e usar nomes fictícios.

C. Aquino disse...

Breno, está "a pleno vapor" nos mercados móvel e social, que são os que mais crescem no mundo. Mas no mundo dos jogos que costumamos chamar de tradicional, onde há uma grana alta rolando, ainda estamos engatinhando.

Fernando, ótimo ideia! Poderia até se chamar "Pega 1978" ou "Racha Brasil". Obviamente, apareceria algum político maluco dizendo que o jogo incentiva as corridas clandestinas...

Ipsum disse...

Breno, pçrovavelmente o jogo do Senna que vc lembra, assim como eu e quase todos os jogadores da geração Mega-Drive, é o "Ayrton Senna Super Monaco GP II", que, do Senna mesmo, só tem a foto, a voz e o "último chefe", sem grandes elaborações. Concordo que falta um jogo melhorzinho, talvez um modo "carreira"...

Breno disse...

Acho que foi a Tectoy que lançou hacks abrasileirados de jogos como alex kid (turma da monica por exemplo)! Tem uma entrevista bem bacana do presidente da Tectoy no Hardcore Gaming 101(Brasil foi o unico pais onde o Genesis venceu a Nitendo, se eu me lembro bem)! Ainda assim, os hacks da Tectoy ainda são mil vezes melhor que esses jogos de flash, celular, facebook, etc...

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