Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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31 de julho de 2012

Reinações Eletrônicas - Parte I

Patrick Estrela

Não é de hoje que busco compartilhar com meu filho o prazer pelos jogos eletrônicos. Se as primeiras tentativas usando um emulador de Gamecube foram seguidas por um desinteresse tão rápido quanto o fulgor inicial, acredito que agora, o pequeno jogador está finalmente desabrochando. Como consequência disso, agora me flagro escolhendo jogos para dois indivíduos diferentes, comprando títulos infantis ou que possam ter algum apelo para o projeto de aventureiro que mora comigo e minha esposa. Com uma única exceção, meu filho não tem paciência e/ou habilidade para jogar quase nada, mas é louco em assistir e dar instruções. Eu, do alto de minhas limitações de quem não curte jogos de plataforma e não tem mais os reflexos de vinte anos atrás, faço o que posso.

Outra consequência é que minha velha prática de ter apenas um jogo instalado de cada vez e jogá-lo até o final ou desistir foi substituída por uma penca de jogos instalados ao mesmo tempo e sessões ligeiras, saltando de um título ao outro de acordo com os caprichos de um menino de cinco anos. Alguns deles são largados para trás em nome de novidades.

Minha ideia inicial era terminar estes jogos e analisá-los nos mesmos moldes que já faço com os jogos "tradicionais" aqui no Retina Desgastada. Percebo agora que é uma meta impossível de alcançar, ao mesmo tempo em que acredito que algumas considerações possam interessar a pais que estão atravessando a mesma fase que eu e todos aqueles que nunca deixaram de ser crianças. São análises ligeiras de títulos inacabados e cujo final talvez eu jamais conheça.

Golfinho Pirata

Quando eu comecei a buscar jogos para uma criança de quatro anos, eu achava que a plataforma PC estava carente de opções. Estava enganado e neste engano foi buscar ajuda no passado com o Gamecube (através do Dolphin) e no Megadrive (através dos pacotes para PC lançados pela SEGA).

Dolphin Do Dolphin eu posso dizer que os jogos rodam lentos como lesmas. Para alguém que não tem habilidade em plataforma, como eu ou meu filho, o problema nem é tão grave. Tirando o dilema moral de rodar títulos emulados, outro problema é o tempo de download. Sites piratas de emulação não tem a velocidade de um Steam para baixar jogos e alguns ISOs chegam fácil à casa de vários gigabytes. Para completar o entrave, alguns jogos simplesmente não rodam, ou travam depois da tela inicial. Nada é mais frustrante para uma criança do que ver o jogo começar e depois... tela preta. Meu filho até hoje insiste em querer jogar Tarzan, ainda que o jogo não tenha rodado nem com reza forte depois de um minuto e eu já tenha desinstalado há meses. E, no final, ainda há o risco do menino não gostar. Animal Crossing, um autêntico clássico da fofura, por exemplo, não reverberou no coração do garoto.

Donald Duck: Going Quackers é um coloridíssimo e divertido título de plataforma com um único defeito: é difícil a ponto de irritar. Fosse o protagonista no controle do gamepad, o resultado seria uma explosão de fúria. Com muito sacrifício e infinitas tentativas, eu consegui sair de uma determinada fase na floresta, quando o jogo avançou um pouco. O primeiro combate com um chefe de fase, uma galinha gigante que atira ovos, é fascinante e surpreendentemente mais fácil do que o jogo em si. Mas, logo em seguida, em uma fase urbana, a curva de dificuldade escala novamente e paramos. Vale pelo carisma do personagem e pelo colorido. A história? Não entendi nada.

Godzilla vs King Ghidorah

Godzilla: Destroy All Monsters Melee é um jogo de luta e, como todo jogo de luta, tem seus combos. Ou você domina, ou você é surrado. Sou tão ruim neste estilo que meu filho, quando se arrisca, esmaga os botões e se sai melhor do que eu. Em dez anos, ele vai estar arrancando minha cabeça em Mortal Kombat. Poderia se argumentar que este não é o gênero adequado para a faixa etária, mas quem tem menino sabe que eles não resistem a dinossauros gigantes e destruição. Como é um jogo de luta sem sangue ou fatalities, não tem perigo de "corromper a infância". Infelizmente, para desbloquear todos os monstros disponíveis, você precisa conquistá-los no modo aventura. E quem disse que meu filho sabe esperar? Os monstros inimigos tem muitos golpes diferentes, então imagino que o protagonista também tenha, mas ninguém aqui sabe como ativar. Ainda assim, vibramos com cada chute, tabefe, pernada, rabada e "bola de fogo" que Godzilla consegue aplicar.

BowserMario Kart: Double Dash dispensa apresentações ou recomendações. É a velha fórmula da corrida com diferentes personagens, diversos power-ups para sabotar o adversário ou ganhar impulso e pistas inusitadas. Infelizmente, o Dolphin faz a corrida parecer uma disputa entre caramujos. Meu filho adorou o conceito dos "poderes" e faz questão de sempre escolher a dupla de corredores. Mario ou as princesas não estão na lista de seus personagens favoritos, mas o Bowser e seu filho são escolha certa. O garoto sabe como se manter na pista e fazer curvas, mas ignora solenemente que há uma corrida em andamento e prefere trafegar em direção às paredes, cair de pontes ou sair da rota... de uma forma geral, ele já enjoou do jogo.

SpongeBob Squarepants: Creature from the Krusty Krab mistura plataforma com (raras) sequências de corrida. Tem distorções e lag impressionantes na hora das cutscenes, mas funciona bem no Dolphin. Foi um dos jogos em que mais avançamos, mas cometi o erro de sobrescrever um arquivo de salvamento e tivemos que começar tudo de novo. Até onde eu fui, é possível controlar o Bob Esponja e uma versão super-heróica do Patrick Estrela. As duas fases tem estilos visuais diferentes, com uma pegada para os quadrinhos na fase do super-herói. É uma pena que a ótima dublagem do desenho não esteja presente. A história, que envolve pesadelos, é confusa e apenas uma desculpa esfarrapada para jogar os dois personagens em situações ainda mais absurdas do que aquelas em que eles já vivem normalmente.

The Legend of Zelda: The Wind Waker é outro jogo que dispensa apresentações, um divisor de águas na série, que muitos amam e uns poucos odeiam. Para o bem ou para o mal, é meu primeiro contato com a franquia e a escolha mais óbvia para mostrar para um menino que ainda tinha quatro anos. Depois de uma estupidamente longa introdução que literalmente afastou o garoto da sala, o jogo começou e eu o chamei de volta. O impacto do primeiro minuto daquele mundo de cores berrantes é algo que vamos lembrar por muito tempo. Foi amor à primeira vista. Lamentavelmente o título foi prejudicado pela lentidão do Dolphin e pela falta de um segundo direcional em nosso gamepad. Mas meu filho não se cabia de contentamento. Sendo o primeiro sandbox que ele conheceu, ele dava ordens para ir para todos os lados, pular todas as pedras. O excesso de diálogos, logo no começo, esfriou um pouco o ânimo. Apesar do encanto, ainda é cedo para um RPG para uma criança hiper-acelerada.

zelda "Sai da casa, papai". "Mas a vovó está falando com o menino, filho". "SAI DA CASA!!"

De todos os jogos que testamos no Dolphin, The Wind Waker é o único que eu desejaria muito que tivesse sido lançado para PC e, talvez, aquele que me faria comprar um console da Nintendo. Com a descoberta de boas opções para PC e a possibilidade de usar gamepad e TV, a perspectiva é que o emulador seja aposentado.

Quebrando o Gelo

Foram mais de oito meses de labuta. Mas Ice Age 2: The Meltdown se tornou o primeiro jogo que fechei ao lado do meu filho, do começo ao fim. Ele ficou espantado. "O jogo acabou?", enquanto os créditos subiam. Eu fiquei emocionado.

Embora os momentos do garoto no comando do gamepad tenham sido mínimos, a verdade é que ele esteve ali do meu lado o tempo todo, torcendo, gritando quando um inimigo aparecia, apontando caminhos, pedindo o "jogo do esquilo" quando estávamos jogando outras coisas.

Ice Age 2: O "Jogo do Esquilo"

O título é baseado na animação do mesmo nome e não faz feio. Ao invés de seguir passo a passo os acontecimentos da trama, o jogo se concentra no simpático esquilo Scrat e sua jornada em busca de uma quantidade astronômica de nozes. E é isto. Não tem um supervilão, não tem um enredo com reviravoltas, não tem nem mesmo um objetivo maior. O esquilo pré-histórico pula, cata nozes, foge de animais agressivos e resolve alguns problemas pelo caminho. O jogo conquista pela simplicidade e por não deixar a peteca cair no quesito variedade. Quando você está perto de enjoar de tanto pular, chega um mini-jogo qualquer e quebra o paradigma. Em um dos momentos é até possível controlar a preguiça Sid em uma gostosa descida por uma rampa de gelo. Todos os personagens do desenho aparecem como NPCs em algum momento e é possível conversar com eles.

Sid, a Preguiça

Graças ao poder de criar save states do Dolphin, reservei as partes mais divertidas para repetir com meu filho. Seguindo Scrat, é possível pular blocos de gelo quase como no bom e velho Frostbite, visitar a barriga de um peixe gigante, explorar cavernas, jogar boliche com pinguins vivos, montar em um avestruz primitivo...

Mais uma vez, porém, a dificuldade aparece. Alguns saltos desafiaram minha habilidade e tive dúvidas se conseguiria chegar até o final. Existe também uma dispensável luta contra uma aranha gigante que é igual a tantas outras lutas com chefes de fase, mas que aqui parece deslocada, já que é a única em todo o jogo. O obrigatório nível com lava também marca presença e se estende mais do que deveria. O final é anticlimático e até decepcionaria se não fosse o fator emocional de ser o primeiro jogo completado com meu filho.

O título também foi lançado para PC, o que só descobri depois, mas é raro de ser encontrado hoje em dia.

A seguir, na segunda parte: o ataque frustrado da SEGA, avalanche PC e a conquista do horizonte.

Ouvindo: Lacrimas Profundere - One Hopes Evening
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12 comentários:

robson disse...

Dos jogos que você comentou só joguei o Wind Waker no Dolphin mas, caso não tenha encontrado ainda, vai uma dica: o emulador tem uma lista de configurações que são otimizadas pra cada jogo. Pro Wind Waker é essa - http://wiki.dolphin-emulator.com/index.php?title=The_Legend_of_Zelda:_The_Wind_Waker#Configuration
Se o jogo ficou lento diminua a resolução, altere a qualidade da imagem etc.

Outra coisa que pode influenciar muito no desempenho é usar a versão mais atual do emulador.

Jobs disse...

Cara, sonho da minha vida é um dia poder jogar videogame com meu filho, acredito que vc deve estar vivendo um momento único em sua vida, parabéns ai retina.

Marcos Aurélio Tadeu da Silva disse...

Sei o quão bacana é compartilhar desses momentos com filhos, sobrinhos, etc. Não tenho filhos, mas meus sobrinhos meio que suprem essa lacuna.

Essa semana mesmo tive uma grata surpresa com um de meus sobrinhos, e fiquei abismado ao ver como essa molecada aprende rápido e gosta de descobrir e testar coisas novas.

Continue jogando com seu filho e o incentivando dessa forma, Aquino. Quando o meu chegar (se algum dia ele chegar, é claro...rsrs) também vou fazer o mesmo. :)

Fernando Lorenzon disse...

Boas dicas. tenho um filho de 1 ano e meio e logo imagino que terei que compartilhar o joystick com ele.

breno disse...

Emuladores da geração passada ainda são uma dor de cabeça para rodar!

Uma dica de jogos para jogar com o filho são estilos do tipo beat em up! Sem plataformas complicadas, o menino so precisa andar pra frente e pra tras e saber o botão de socar! Alguns exemplos de jogos decentes nesse genero são a série Street of Rage(Genesis,PC(SoR Remake é a versão definitiva)), Super double dragon(SNES), Final Fight(SNES,Arcade),Dungeons e Dragons(Arcade)! São tipicos jogos faceis de aprender, dificeis de aperfeiçoar!

Tem também o genero Shoot em up,mesma situação dos beat em up! Exemplos são MUSHA(Genesis) Radiant Silvergun(Saturno, Arcade),Ketsui(Arcade) entre outros! Otimo passatempo a dois!

C. Aquino disse...

Robson, valeu pela dica! Vou testar hoje mesmo!

Jobs e Marcos, grato pelo incentivo!

Fernando, é uma sensação única. Imagino que deva ser como soltar pipa pela primeira vez com seu filho (ainda que eu nunca tenha gostado de soltar pipa, foi mal aí, pai).

Breno, são dois gêneros que eu também não curto. Mas fazer o quê, né? Vai que meu filho gosta? Vou procurar...

breno disse...

Acredito que sejam os generos mais faceis de aprender,sem perder o desafio e um certo grau de complexidade!

Tirando isso, só casuais como Canabalt, onde vc só tem que apertar um botão...

Lino disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lucas Nula disse...

Essa aqui foi muito boa: "não reverberou no coração do garoto", bem legal o post.

Lucs disse...

O Going Quackers eu comprei para PC e é um competente clone de Crash Bandicoot,eu até fazia os desafios para conseguir roupas.

Eu recomendaria um Super Smash Bros.Tanto o do GC quanto o do Wii rodam perfeitamente no Dolphin.

Nobody_joe disse...

Recentemente comprei de um amigo meu primeiro Nintendo, o Wii.Podem falar o que for da Nintendo, menos que seus jogos são ruins. Super Mario Galaxy e Zelda Skyward Sword são alguns dos melhores jogos que joguei nos últimos anos.

E não deixe de jogar Super Smash Bros. Meele, um dos melhores jogos do Cube.

Gabriel Aires disse...

Se puder, acho que seria interessante seu filho conhecer alguns jogos de PSX através de emuladores. Boa parte da biblioteca do console funciona sem problemas e atualmente, qualquer pc comum funciona jogos adicionados de filtros pelo próprio emulador. Sem contar, que também existem emuladores de N64. Claro, se seu filho achar os gráficos um pouco antiguado é outra história... :s

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