Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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12 de março de 2012

Renascido do Inferno

Hellraiser Em 1987, o escritor britânico de horror Clive Barker estava insatisfeito com as adaptações realizadas de duas de suas obras anteriores e resolveu se arriscar na cadeira de diretor. O resultado foi o clássico do cinema de terror chamado Hellraiser. Como uma maldição, o elogiado primeiro filme de Barker deu origem a uma franquia cinematográfica. Apesar de ser fã do trabalho original e ter gostado mais ainda do segundo filme, meu interesse mingou depois dos decepcionantes terceiro e quarto episódios. Para meu espanto, a série já está em seu nono(?!) capítulo, cada lançamento saindo direto para os cantos mais obscuros das locadoras, com a qualidade em queda livre. Barker, ausente da série desde o segundo, foi bastante "enfático" sobre Revelations, o último atentado contra seu universo: "Eu quero deixar registrado que esta produção aí fora usando a palavra Hellraiser NÃO É P*** NENHUMA FILHA MINHA! Não tenho NADA a ver com esta coisa f***. Se eles alegam que veio da mente de Clive Barker, é uma mentira. Não veio nem mesmo do buraco do meu c***".

Em 2004, um pequeno estúdio de jogos da Polônia acreditou que poderia combinar a ação frenética de um Serious Sam com o clima pesado de um Blood. A People Can Fly deixou sua marca no mundo dos FPS ao estrear com Painkiller e arrancar elogios da crítica e do público. O jogo tinha um clima de filme B, com trilha sonora frenética e mortes que utilizavam ragdoll, violência extrema e efeitos de física que não eram comuns na época. A People Can Fly lançou uma expansão chamada de Battle Out of Hell, que forma junto com o título original a caixa Painkiller Black. Apesar da minha empolgação inicial com o título, acabei não terminando a expansão, mas fechei a história principal. É um FPS que tem os seus méritos, assim como seus defeitos. A desenvolvedora foi adquirida pela Epic Games, ajudou no port de Gears of War para o PC, lançou ano passado o jogo Bulletstorm e nunca mais olhou para trás. Mas Painkiller se recusou a morrer. Para meu espanto, o jogo acaba de lançar sua quinta expansão.

Painkiller No título original, a história acompanhava o tormento de Daniel Garner, morto em um acidente de carro com sua noiva Catherine. Ela, boa gente, subiu para o Céu. Garner, com um passado nebuloso, é condenado ao Purgatório. Para conseguir subir e reencontrar seu amor, ele recebe uma proposta: se tornar um assassino a serviço das forças cósmicas e destruir generais do exército do Inferno em troca do perdão de seus pecados. O roteiro raso como um pires é apenas uma desculpa para um festival de demônios empalados por uma arma que dispara estacas de madeira em câmera lenta ou mutilados pelas garras que o próprio Garner ganha depois de encher uma barra de matança. A trama se complica um pouco, mas basta dizer que ao final Garner escolhe matar o próprio Lúcifer ao invés de partir para os braços da mulher amada, porque ele é muito machão e quando aceita um trabalho é para fazer direito. A menos que você feche o jogo no último nível de dificuldade, o destino de Garner não é dos melhores.

Traído, Garner volta em Battle Out of Hell em busca de vingança. Ele não deixa barato e, no final, destrói o novo regente do Inferno, apenas para receber uma proposta indecorosa de Eva, a nova regente: reinar ao seu lado ou reencontrar Catherine. Garner não quer saber de moleza e atira na cara da ex de Adão.

A partir de Painkiller: Overdose, em 2007, a People Can Fly não responde mais pelo o que pode acontecer. Entra em cena a desenvolvedora checa Mindware Studios, que começou o projeto com um mod para o jogo. O subtítulo poderia ser profético ou satírico, mas, sentindo que ainda poderia tirar dinheiro da franquia, a produtora Dreamcatcher, responsável pelo jogo original, bancou a empreitada com grana e suporte técnico. O esquentado Garner não é mais o protagonista: o papel é assumido por Belial, uma criatura meio anjo, meio demônio que estava aprisionada no Inferno e se soltou após a morte de Lúcifer. Naturalmente, Belial é movido pela vingança e vai acertar contas com todo mundo. O novo episódio trazia 40 tipos de monstros e 16 níveis inéditos de carnificina. A Mindware largaria a franquia em seguida, para criar um jogo muito parecido, mas que não precisava pagar licenciamento para ninguém: Dreamkiller.

Painkiller Overdose

Já em Painkiller: Resurrection, lançado em 2009, finalmente temos uma versão levemente melhorada da engine original e menos níveis, ainda que muito mais largos. Quem responde pelo desenvolvimento é a obscura Homegrown Games, que apresenta um terceiro protagonista para o eterno jogo de intrigas do Inferno e do Purgatório. William "Bill" Sherman foi um justiceiro no mundo real que plantava bombas para matar criminosos; uma bomba errada matou um ônibus cheio de crianças, outra bomba errada mandou ele para as profundezas. Ele segue o mesmo caminho de Garner e enfrenta generais do Inferno na base do chumbo grosso e da estacada de madeira. Ironicamente, ninguém é ressuscitado no jogo.

Painkiller Ressurection

(Existe por aí um tal de Painkiller: Pandemonium, mas é apenas um nome malandro para uma caixa que traz os quatro títulos acima no mesmo  pacote.)

Mais dois anos se passariam antes da Dreamcatcher tentar novamente explorar a série. Em 2011, outro mod foi transformado em jogo comercial, lançado exclusivamente via download. Nascia Painkiller: Redemption, desenvolvido inicialmente por um coletivo de fãs conhecido como "Eggtooth" e concluído pela Homegrown Games. O título marca o retorno de Daniel Garner e Belial, quando o meio anjo, meio demônio, liberta o pistoleiro dos primeiros jogos das garras de Eva. No caminho, ainda encontram Bill Sherman e formam uma aliança. Neste ponto, a Dreamcatcher ligou o "dane-se" e já estava aceitando para publicação qualquer coisa com Painkiller no nome. Esse episódio não traz nenhum mapa novo, mas recicla os mapas multiplayer originais, e reaproveita monstros já vistos anteriormente, incluindo chefes de fase e o próprio chefe final. Também não há "redenção" nenhuma, ao contrário do que sugere o subtítulo.

Painkiller Redemption

Depois disso, a JoWood fechou as portas, levando a Dreamcatcher junto com ela, diga-se de passagem. Os novos donos da propriedade intelectual, a Nordic Games, não perderam tempo e falaram: "vamos lançar mais um Painkiller?" O resultado é Painkiller: Recurring Evil, lançado em 2012 e  "o único verdadeiro FPS da velha guarda, duro na queda, sem um traço de remorso, sem um segundo de motion blur ou outra maquiagem tecnológica", diz o anúncio. Considerando-se que é 90% o mesmo motor gráfico de 2004, a falta de inovações tem que ser vendida como tradição e não como atraso. Mas a tradição não traz de volta Daniel Garner e quem retorna é Bill Sherman, desta vez no papel de regente do Purgatório! Como esta não é uma série de estratégia, ele é prontamente derrubado do cargo e precisa se vingar com um banho de sangue.

Painkiller Recurring Evil

Painkiller já foi capa de revista! Rigorosamente, todos os jogos apresentam a mesma jogabilidade: entre no cenário, espere aparecer uma penca de monstros, mate todos eles, capture suas almas para ativar poderes, libere o acesso para a próxima arena, repita. Depois do trabalho inicial da People Can Fly, o que se viu só pode ser chamado de expansões, ainda que a maioria delas nem precise do jogo original para rodar. Seus criadores não protestaram veementemente contra a extensa sobrevida de sua cria, como fez Clive Barker. Mas com tantas continuações lançadas despretensiosamente, sem divulgação, a preço quase de custo, com investimento mínimo, é impossível não acreditar que Painkiller não homenageia cinema classe Z apenas em sua atmosfera, mas também em sua linha de produção.

Se serve de consolo, ninguém pode acusar a franquia de ter se rendido às modas da indústria: nada de quicktime events, saúde regenerativa, cobertura em escombros ou roteiros rejeitados de Michael Bay. É mesmo "o único verdadeiro FPS da velha guarda", ame-o ou deixe-o. Alguém mais está disposto a dar outra chance à série?

Enquanto isso, em algum canto do Paraíso, Catherine aguarda há oito anos que seu seu noivo pare de farrear com os amigos em um inferninho qualquer e sossegue ao seu lado. Se depender da sede de sangue de um nicho de jogadores que segue comprando o mesmo jogo com diferentes caixas, ela ainda vai esperar um longo, longo tempo.

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18 comentários:

Marcos disse...

na verdade, no modo nightmare do painkiller o Daniel se reencontra com Catherine

C. Aquino disse...

É verdade, Marcos! Como eu disse: "A menos que você feche o jogo no último nível de dificuldade, o destino de Garner não é dos melhores". Como nas expansões, Daniel Garner continua nas profundezas, esse final alternativo não é considerado cânone.

Rebeca disse...

Nossa, eu não fazia ideia que Hellraiser já tinha nove filmes. Gosto muito do primeiro também.

Marcos A.T. Silva disse...

Fiquei surpreso ao saber da quantidade de filmes da série Hellraiser lançados. Só sabia da existência dos quatro primeiros!

Sobre Painkiller, está aí uma série que está na minha fila há tempos. É sempre bom jogar esses FPSs sem firulas, como os atuais. Não denegrindo a qualidade de muitos lançamentos atuais do gênero, mas muitos deles facilitam demais as coisas.

Em muitos, muita gente consegue finalizar sem "dor" alguma.

Marcos A. S. Almeida disse...

Á algum tempo atrás eu li que o Clive Barker iria criar um remake ,mas faz tanto tempo que acho que ele desistiu.O primeiro realmente é o melhor e onde o icônico Pinhead nos foi apresentado.Falando sobre Hellraiser o meu saudosismo me faz lembrar de mais um "trash": Evil Dead de Sam Raimi ,com o grande Bruce Campbell.Infelizmente nenhum jogo baseado no filme conseguiu captar a atmosfera.Mas o mesmo Sam criou recentemente o ótimo (em minha opinião) "Arraste-me para o inferno" resgatando todo o clima "trash" que caracterizou alguns de seus filmes.Quanto ao Clive Barker não lançou nada relevante ultimanente.
Já Painkiller, nunca experimentei.Talvez porque na época a minha jogatina estivesse direcionada ao PS2.Mas é FPS "old School" e sinceramente já não tenho mais paciência com este estilo.

Marcos A.T. Silva disse...

Puxa, bem lembrado, Marcos. Evil Dead é fantástico. Me lembro da cena em que a mão do protagonista foi possuída. Era difícil não rir, ao assistir àquele filme.

A própria mão do cara dando tapas no rosto dele era muito hilário.

Valber disse...

Outra cena engraçada de evil dead 2 é quando tentam empurrar um monstro pra dentro de um porão, o olho do bicho salta da órbita e vai parar na boca da mulher, heheheheh. O primeiro filme tentou ser mais sério.

Sobre Painkiller, acho que é o tipo de jogo que serve pra "desestressar". Se passar muito tempo jogando, enjoa rapidamente, entao tem que ser na dose certa. Tanto que nunca zerei. E so de ver o nome "overdose" em uma das expansões ja me dá agonia.

Aquino, o que vc achou de Clive Barker's Undying? Nao joguei, mas ja vi muita gente falando bem.

C. Aquino disse...

Marcos e Marcos, Evil Dead é genial! E vai ter um remake esse ano (tomara que não estraguem tudo...). Infelizmente, acho que não tem mesmo um jogo decente baseado nele.

Sobre Clive Barker, ele tentou dirigir mais dois filmes de terror depois de Hellraiser, mas não conseguiu manter a qualidade. Atualmente, ele segue fazendo o que sabe fazer melhor: escrever histórias de arrepiar/enojar.

Valber, Undying é muito bom. Aguarde para breve uma recapitulada do que foi feito por ou em nome de Clive Barker no mundo dos jogos!

Marcus Gonzallez disse...

Caramba, Evil Dead ou "A Morte do Demônio" é bom demais da conta. O 2 foi traduzido como "Uma Noite Alucinante" e é mais cômico. ATé o 3 também é muito bom. Saber que teremos um Remake não sei se me anima. Tomara que seja bom. Já Painkiller... FPS Old School... Passo... Apesar de tê-lo, mas é porque tava muito barato mesmo... Não consigo jogar.

Shadow Geisel disse...

"Não denegrindo a qualidade de muitos lançamentos atuais do gênero, mas muitos deles facilitam demais as coisas."
Realmente, Marcos. Jogue Bioshock no nível de dificuldade mais alto (sem uso de vita chambers) e você vai ver que ele não é nem um pouco parecido com esses jogos que facilitam demais. pena que no Bioshock 2 o nível hard seja o normal do primeiro...

Marcos A.T. Silva disse...

Aquino, mal posso esperar por esse remake. Foi um dos melhores filmes de "terror" que já assisti na minha vida...hehehe

Shadow Geisel,

Olha, o BioShock 2 é bacana, mas não pode ser comparado com o primeiro. Um dia ainda jogo o primeiro no nível mais difícil...hehehe (modo "sofredor" on).

Breno disse...

Shadow: é como é que se joga Bioschock sem usar Vita Chambers? Desafio imposto pelo jogador? é incrivel o que agente tem que fazer para aumentar o desafio nesses dias!

Marcos: Porque não da pra comparar o Bioschock 2 com o 1? Os dois jogos são indenticos em sua estrutura,com algumas melhorias pro lado do 2 jogo!

Marcos A. S. Almeida disse...

Fala-se sobre a dificuldade nos jogos como se fosse algo imprescindível neles!E definitivamente não é!Existem diversos tipos de pessoas e cada uma com um certo nível de habilidade.Portanto o que é fácil pra um pode ser difícil pra outro.Criou-se esse mito de que "jogo bom é o jogo difícil" por conta dos remanescentes da época do NES - da qual eu pertenço - que se vangloriam da dificuldade dos jogos daquela plataforma.É obvio que pra uma grande parcela de jogadores essa dificuldade extrema não era boa , mas era o que tinha pra se jogar!Sabe-se hoje que mesmo os desenvolvedores não se preocupavam em fechar esses jogos tão difíceis e na verdade eles talvez nem soubessem mensurar o quão difícil ou fácil era um jogo.E esses mesmos que exaltam a dificuldade dos jogos , exaltam a "imersão" nos mesmos , sendo que são coisas proporcionalmente opostas.Como há imersão se o personagem morre á toda hora?Até mesmo a história , exaltada e importante para muitos , pode ficar comprometida se não há imersão por conta da dificuldade.Quero frisar que não sou contra os jogos difíceis , pois há quem goste e talvez até consiga imersão, mas dificuldade em um jogo não é sinal de qualidade como alguns insinuam.Sou á favor da diversidade e o poder de escolher entre "easy, normal ou hard".E viva a energia regenerativa! Apesar do "health pack" ter o seu valor...

C. Aquino disse...

Concordo contigo, Marcos, principalmente em três pontos: morrer toda hora ferra com a imersão (pelo menos para mim), dificuldade não é sinônimo de qualidade (aliás, do ponto de vista do desenvolvedor é muito fácil de criar) e todo jogo tinha que vir com "easy, normal e hard", porque não somos todos iguais. Agora quanto ao embate energia regenerativa x health pack, isso é uma postagem guardada aqui na minha cabeça que um dia sai...

Marcos A. S. Almeida disse...

Ehehehehe!Bom saber que terá uma postagem sobre isso.Se o nosso amigo Breno apresentar o seu ponto de vista você terá material de sobra para amadurecer o texto do post...Vejam bem, não estou sendo sarcástico,só gosto do embate saudável que o Breno nos proporciona.

Shadow Geisel disse...

Breno, a vita chamber pode ser desativada no menu principal, ou seja: se morrer, só lhe resta carregar o save. nada de checkpoint.

queria deixar bem claro que eu não estava comparando a dificuldade do 2 com a do 1, muito pelo contrário. o nível hard do 2 é o normal do 1, ou seja, o 2 foi muito facilitado para não assustar os novatos na série.

Gabriel disse...

Sei que peguei a discussão bem atrasada xD
Mas gostaria de deixar minha opnião sobre a dificuldade...eu desde que me conheço como jogador, sempre joguei no easy...mas não é por causa que eu sou um pessimo jogador...é porque eu curto o jogo pela historia e pela diversão...já vi muito jogador de CoD que se diz o maximo porque zera no dificil e eu no multiplayer matar eles facilmente...mais pelo fato de que enquanto eles morriam a fu tentando passar daquela fase que nem um Space Marine consegue passar, eu aproveito e vejo outros titulos e talvez ganhando a mesma experiencia que eles...claro que quando eu gosto de um jogo, eu jogo até a ultima dificuldade.
O unico problema dos jogos atuais é que realmente a vida regenerativa é um pecado...pra mim...porque eu fui criado em jogos de tiro antigos...que até faziam sentido você pegar o pacote de vida, mesmo sendo bizarro...porque é foda você levar um balaço de 12, sair vivo e dps sua vida recarrega como se nada tivesse acontecido...como o Aquino escreveu e nunca irei esquecer "Já que todo protagonista é o Wolverine" xD

C. Aquino disse...

Gabriel, não sei se você já leu, mas aqui vai: http://blog.retinadesgastada.com.br/2012/03/o-ultimo-confronto-com-as-aracnoides.html. Meus dois centavos sobre vida regenerativa.

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