Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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8 de novembro de 2011

Teto de Vidro

Ralph H. Baer é um dos muitos pioneiros da indústria dos jogos eletrônicos. E, quando digo pioneiro, quero dizer que este senhor, agora com 89 anos, criou o protótipo do que viria a ser o PRIMEIRO console doméstico nos idos de 1966. Sua "Brown Box", uma caixa de alumínio e madeira que conectava com a televisão e já vinha com vinte jogos primitivos dentro, foi vendido para a Magnavox e transformado no Odyssey, em 1972, cinco anos antes da Atari iniciar a revolução pra valer. Ele também inventou o Genius ("Simon", fora do Brasil) e um sensor de movimento para o NES nos anos 90, mas nada disso vem ao caso.

Neste final de semana, o veterano gênio esteve em Salt Lake City para receber o Cyber Pioneer Award durante o Utah Cyber Symposium, mais um de uma longa lista de prêmios merecidos. Mas isto também não vem ao caso.

Em entrevista a um jornal da cidade, o repórter perguntou para Baer o que ele achava da violência nos jogos atuais. Baer foi enfático: "Eu acho que é uma desgraça". E acrescentou: "Aquilo que eu criei se tornou uma abominação. Você pode ver a mesma coisa na música, na literatura, na arte - em qualquer forma de arte". Infelizmente, isso vem ao caso.

Possivelmente, você verá esta declaração do "avô dos consoles" sendo reproduzida com ares de triunfo pelos setores da mídia interessados em difamar toda a indústria. É até razoável acreditar que seja aproveitada politicamente por legisladores atrás de justificativas para seus projetos. As palavras duras de Baer contra aquela que pode ser considerada sua herança irão repercutir por anos.

Agora, dificilmente, você verá uma citação ao link original da matéria, publicada no site do jornal Salt Lake Tribune. E dificilmente você verá a foto que ilustra a reportagem, a imagem dos primeiros protótipos da "Brown Box":

The line of video game conosole prototypes by Ralph Baer that led to
the Magnavox Odyssey, the very first home video game console.
Courtesy photo Se a imagem não está muito nítida, eu tenho outra, mais clara:

Brown Box Baer pode ter sido o inventor do primeiro console, mas já em seu segundo protótipo de diversão para toda a família americana, ele aperfeiçoou o modelo acoplando uma réplica fiel de um revólver de seis tiros. No quinto protótipo, o revólver deu lugar a um modelo bem realista de um rifle. Tudo isso desenvolvido em suas horas vagas enquanto trabalhava para a empresa de defesa militar Sander Associates, especializada na produção de sistemas de proteção de aeronaves, mísseis teleguiados, vigilância tática e outros projetos similares, onde permaneceu como funcionário até a aposentadoria em 1987.

Mas a paternidade da primeira Light Gun e sua ironia não serão mencionados em outros blogs e noticiários. Que o segundo dispositivo de entrada de dados de um console tenha sido uma arma não será mencionado em blogs e noticiários. O fato de que possivelmente outras invenções menos conhecidas de Baer durante seu dia normal de trabalho tenham provocado mais mortes direta ou indiretamente que todos os assassinatos supostamente atribuídos aos jogos não será mencionado em blogs e noticiários. Não vem ao caso.

Ouvindo: Kow Otani - Prologue ~To the Ancient Land~
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15 comentários:

Poa Kli-Kluu disse...

A discussão desse tema vai longe; Muito, muito longe. Independete da indústria ser alvo dos mais pesados materiais bélicos dos carros chefes da mídia, o que realmente 'mata' é a falta de bom senso quando os dedos são apontados e as acusações são feitas, mas infelizmente tudo geralmente acaba por aí. Nenhuma atitude é tomada.

Morte está em toda forma de arte, qualquer que seja, e arte, em suma, é qualquer expressão homem, sendo ela comercializável ou não. Desprover o homem de sua arte, seria desprover o homem dele mesmo, e isso, de forma alguma, não é opção -Somos livres, mas devamos saber que nossa liberdade acaba quando começa a do outro.Uma pessoa que não sabe discernir entre o mundo real e a fantasia DEVE procurar ajuda médica o mais rápido possível. Não é a toa que existe classificações etárias nos games/filmes/músicas: crianças não tem o poder de discernimento que um adulto tem, quanto a isso não há discussão.

Portante, até que bom senso seja admitido em falta nessas terras nas quais pisamos, tudo vai ficar nessas ladainhas. Até que um belo dia o sol vai nascer mais brilhante e algo realmente será feito com relação à doenças mentais.

Ja fiz um post em meu blog sobre violência em games, tratando de uma forma menos apelativa e mais ponderativa. O nome do post é "Onde o sangue deve ficar?".

Poa Kli-Kluu disse...

Acabei de me recordar de um caso que é no mínimo interessantíssimo com relação a essas polêmicas.

Marilyn Manson ia fazer o show em uma pequena cidade nos EUA, porém dias antes do show dois jovens entram em uma escola portados de armas de fogo e matam vários alunos e ferem muitos outros. Logo após os homicídos ambos os jovens cometem suicídio. Marilyn Manson cancela o show devido a esse ocorrido, e ao ser entrevistado por uma repórter, tal pergunta é feito a ele: "Se você pudesse dizer algo aos jovens antes deles terem cometido essa atrocidade, o que diria?", Marilyn Manson responde: "Eu não diria nada. Eu ouviria. Pois é isso que ninguém fez".

Empatias e apatias com Marilyn Manson à parte.

Não está na arte, mas nas pessoas. A arte só imita a vida. Ou a vida imita a arte?

Eder R M disse...

Excelente post. E o comentário de Poa Kli-Kluu também. Me lembrou o documentário Tiros em Columbine, que por sinal tem entrevista com o Manson sobre o caso.

Vou marcar esse post para futura referência.

Shadow Geisel disse...

Aos meus ouvidos, as palavras de Baer soam como queixumes hipócritas de uma criança que abandonou a brincadeira antes de ela se tornar divertida,e agora quer acabar com a diversão.
Se Ralph estivesse conseguindo tanto lucro quanto acha que a alcunha de Pai dos Videogames deveria lhe proporcionar, certamente que suas palavras não seriam tão duras.

Poa Kli-Kluu disse...

Fico muito grato que tenha citado o nome do documentário, Eder. Eu jamais lembraria dele se fosse por conta própria.

JackEstacado disse...

o problema, como o amigo encima falou, é a hipocrisia que domina as pessoas. Se tratando de americanos de uma faixa de idade acima dos 60, falar mal de armas é como um político brasileiro falar que a classe é totalmente sincera (desculpem o exemplo clichê).

Pode-se se arrepender do que criou?
Claro, mas não se pode esquecer o que foi criado, que algo gera outro algo. Esses assuntos de violência em games, onde tudo se culpa apenas um lado, me deixam revoltad. Vou lá tomar meu café.

Shadow Geisel disse...

Aquino, ótimo post, apesar de que eu não consigo discutir esse assunto "violência nos games". não por falta de argumentos, mas justamente pelo fato de que as pessoas que acusam games de serem violentos não têm gabarito para discutir com os verdadeiros fãs desse entretenimento.
Vou tentar colocar o link do Retina no meu blog. Au revoir!

Carlos Wilson disse...

Bastante hipócrita. Em um documentario, chamado "A era do video game" (que passou na Discovery muitos anos atras), Ralph fala que eh "fascinado" por armas de fogo. Voltou aos EUA depois da Segunda Guerra com TONELADAS de armas de fogo. O cidadão Ralph deve ter razão para chamar de abominação os jogos atuais (Battlefield3?!), divertido mesmo eh armas e guerra de verdade.

Marcos A. S. Almeida disse...

Primeiramente , vejo que você Aquino, descobriu a trilha maravilhosa de Shadow of the Colossus.A melhor trilha sonora de jogo - ou pelo menos a que mais me cativou -que já tive o prazer de ouvir.
Segundo, quero meio que fazer o papel do "Advogado do Diabo".Antes quero frisar que sou á favor de qualquer tipo de representação de violência nos jogos, apesar de achar algumas desnecessárias, mas quem deve escolher se as vê ou não é o jogador e não um orgão regulamentador qualquer.
O cara em questão , até pela idade, é de uma época em que a representação de um cachorro ou um homem na tela de um vídeo game se resumia á alguns pixels que só com o esforço da imaginação se distinguia um do outro.Hoje a representação da violência nos jogos beira o realismo e isso visualmente agride muitas pessoas e acho que com ele pode acontecer o mesmo. Quanto á ele gostar de armas de fogo e não gostar de violência, ente as duas coisas têm uma distância razoável, não é a mesma coisa.E por último , acho que infelizmente está havendo uma banalização da violência por parte de sociedade e lamentávelmente acaba respingando nos jogos violentos - o que é uma covardia - mas acontece , é uma realidade.Por conta disso, adotar uma postura políticamente correta é a tendência de alguns ou ele pode simplesmente ter mudado de opinião.Agora, a manipulação que se faz dessas declarações , por parte de setores da imprensa pra corroborar com opiniões - sem embasamento - contra os jogos é que eu acho errado.Mas felizmente temos blogs, sites e outros meios para mostrar e externar nossa indignação e mostrando outro ponto de vista.

Poa Kli-Kluu disse...

Marcos, acredito que a banalização da violência seja uma tendência mundial, com suas raízes embasadas ou não em nossa própria história. Os valores humanos vem mudando, e tem mudado cada vez mais rápido.

Concordo plenamente contigo ao dizer que quem deve escolher qual material temos acesso somos nós mesmos; Sãos e conscientes, e não um órgão regulamentador qualquer. Não sou a favor da representação da violência, mas sou a favor da liberdade de expressão do homem, e jogos são artes: através do qual o homem se expressa. Porém é aí que entra a regulamentação.Pessoas podem ser ofendidas por jogos, assim como podem ser por filmes, músicas, poesias, livros ou qualquer outra forma de arte.

Cabe a nós, e somente a cada um de nós, filtrar o que temos acesso e o que nossos filhos e irmãos mais novos também.

Poa Kli-Kluu disse...

E quero, sem mais delongas, parabenizar Aquino por ter tocado em tal assunto. Ótima iniciativa!

Shadow Geisel disse...

Marcos, discordo de você quando afirma que "quem deve escolher se as vê ou não é o jogador e não um orgão regulamentador qualquer".
Algo que me irrita muito é que games, às vezes, não são tratados como produtos. É claro que deve existir um órgão regulamentador para violência nos jogos. Digamos que você não fale inglês. Se você tivesse um filho de 4 anos e comprasse um game para ele, um daqueles games que não dizem muito pela capa (como God of War 3), e depois descobrisse que no jogo há cenas eróticas (não deixa de ser um tipo de violência contra um menor) e cenas de morte, como você reagiria?
Adoro violência nos games, justamente por saber que ela é de "mentirinha". você já assistiu um vídeo de uma pessoa levando um tiro à queima roupa na cabeça? É bem diferente das cenas dos jogos, e te marca pra toda a vida.
Mas nem todos concordam com esse ponto de vista, de que a violência nos games é fictícia, e games como o citado acima e Mortal Kombat 9 são muito chocantes até pra quem já está habituado...
Desculpem pelo tamanho do post

C. Aquino disse...

Eu acredito que o Marcos queira dizer "órgão regulamentador que proíba os jogos", por que sei que ele é favor do sistema de classificação tanto quanto eu. E o seu exemplo é beeeeem extremo, afinal o sujeito que não sabe inglês, não conhece Kratos e está importando um jogo que traz um cara com um facão nas mãos estampado na capa para seu filho de quatro anos, está pedindo encrenca!
Nunca vi uma pessoa levando tiro de verdade e espero viver sem testemunhar isso ao vivo ou em vídeo. Corro de filmes como "Faces da Morte" e nem "O Albergue" tive vontade de ver. Mas já explodi mais cabeças em Fallout 3 do que uma unidade do BOPE inteira, por que eu sei que é ficção (e cada vagabundo virtual daqueles mereceu! eheheheh).
Bauer foi um gênio de uma outra época, onde brincar com réplicas exatas de armas de fogo ironicamente não causava histeria. Sua geração, porém, não criou apenas as ferramentas mas também a cultura e o modo de encarar os desafios para que a geração seguinte brincasse com armas eletrônicas ou virtuais. Somos todos meninos no pátio da escola fazendo "bang bang" com nossos dedos, mas ele não consegue mais enxergar isso.

Marcos A. S. Almeida disse...

Desculpe Shadow Geisel se não me expressei corretamente e é exatamente o que o Aquino falou:sou totalmente á favor de um orgão regulamentador que recomende a faixa etária de um jogo,colocando no rótulo "sangue, desmembramento, palavrão ,etc,etc".Mas sou totalmente contra quando esse mesmo orgão PROÍBE um jogo.Além de ser uma arbitrariedade é totalmente injusto, visto que os filmes representam a mesma violência de forma bem mais realista e nem por isso são perseguidos.Essa é a bandeira levantada pelo Aquino com a qual eu concordo e assino embaixo.
Á proposito , uma pergunta á todos:você já trocou sua senha do Steam hoje?

Shadow Geisel disse...

Agora entendi, Marcos.
E Aquino, você deve se lembrar que o God of War 3 foi lançado aqui no Brasil oficialmente, não precisando ser importado para que um pai desavisado compre para seu filho.
Citei o exemplo porque, pasmem, uma amiga minha (totalmente desantenada com o mundo do entretenimento) alugou o filme Team America (aquele feito com marionetes) pro seu filho de 6 anos assistir pensando que fosse infantil. Esse tipo de coisa acontece, pode acreditar.

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