Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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15 de setembro de 2011

Os Pais da Fantasia

(esta é provavelmente a postagem mais adiada da história do blog: foi prometida em 16 de agosto!)

O Feiticeiro da Montanha de Fogo Todo mundo tem uma história para contar sobre como começou a jogar RPG. Tem gente que conheceu o RPG através de um amigo que voltou dos Estados Unidos com uma xerox embaixo do braço, tem gente que primeiro descobriu através de um jogo eletrônico antes de ir para os jogos de mesa, tem gente que chegou na roda por amizade e foi ficando. Eu conheci lendo Sandman, na época em que a Editora Globo publicava o personagem. Uma matéria no meio da revista abriu meus olhos para um mundo infinito de possibilidades. Mas esta postagem não é sobre mim ou sobre Sandman. É sobre Steve Jackson (o outro...) e Ian Livingstone, os pais da fantasia.

Sem ter muita opção de jogos e sem muito conhecimento, busquei aventuras na série de livros-jogos Aventuras Fantásticas. Hoje eu sei que não podem ser considerados RPGs autênticos, mas naqueles dias distantes eles traziam para mim guerreiros e dragões, usavam dados e exigiam escolhas. Já era um pontapé inicial. Os livros não eram caros, mas ainda assim eu dividi o custo do primeiro com um amigo e nós nos alternávamos no papel de mestre, o que consistia ler o livro para o outro, que assumia o papel de jogador e tomava as decisões e rolava os dados. Sem saber também, eu estava tendo o primeiro contato com os gênios Livingstone e Jackson.

A dupla, junto com o menos famoso John Peake, fundou a Games Workshop na Inglaterra em 1975, quando tanto eu quanto o Dungeons and Dragons ainda tínhamos um ano de idade. Inicialmente, a empresa tinha o objetivo de produzir tabuleiros de madeira para jogos tradicionais como Gamão e Go. Neste meio tempo, o trio dividia um apartamento e produzia um fanzine, que também funcionava como propaganda dos tabuleiros. Por problemas financeiros, foram despejados e passaram seis meses dormindo na van de Jackson.

Através do fanzine, eles receberam no ano seguinte uma proposta de levar Dungeons and Dragons para a Inglaterra. Livingston e Jackson concordaram em se tornar os importadores oficiais, mas Peake decidiu largar a sociedade já que não estava interessado em trabalhar com fantasia e estava de olho no emergente mercado de jogos eletrônicos. O erro de avaliação de Peake foi a sorte grande dos outros dois: o primeiro de todos os RPGs acabou se tornando um fenômeno mundial. A distribuição de Dungeons and Dragons foi tão bem-sucedida que o próprio Gary Gygax cogitou a hipótese de fundir a TSR com a Games Workshop, mas os ingleses polidamente recusaram. Por outro lado, obtiveram um contrato de exclusividade para todo o continenente europeu. Em pouco tempo, eles se tornaram os importadores oficiais de praticamente todos os RPGs criados nos Estados Unidos. Em 1983, a Games Workshop lançaria sua marca mais famosa: o universo de fantasia de Warhammer. Quatro anos depois seria a vez da versão futurista Warhammer 40K. E o mundo nunca mais se livraria da figura icônica do fuzileiro espacial blindado.

Ultramarines

Em 1981, porém, Ian Livingstone e Jackson não estavam se limitando ao papel de meros importadores, ainda que sua administração milimetricamente precisa tenha garantido a expansão da Games Workshop. Juntos eles escreveram o primeiro livro da série Fighting Fantasy, traduzida no Brasil como Aventuras Fantásticas. O Feiticeiro da Montanha de Fogo teve uma excelente recepção para a época e a editora pediu que novos livros fossem lançados "o mais rápido possível", obrigando a dupla a escrever os próximos separadamente. Steve Jackson acabaria criando cinco deles (e seu homônimo americano, criador do GURPS, seria o responsável por outros 3), enquanto Ian Livingstone criaria a impressionante marca de 12 livros. A franquia, que também teve outros autores, já vendeu mais de 16 milhões de exemplares em todo mundo, em 23 línguas. Calabouço da Morte, o título que foi minha introdução aos mundos de fantasia, vendeu mais de 300 mil cópias só em seu país de origem.

Tomb Raider Anniversary E enquanto a história se esqueceu de John Peake, ironicamente foi Ian Livingstone que conquistou um lugar na indústria dos jogos eletrônicos. No início dos anos 80 ele desenvolveu um adventure chamado Eureka! que se tornou o primeiro jogo publicado pela Domark. Curiosamente, o título era tão desafiador que foi oferecido um prêmio de 25 mil libras para o mesmo jogador que o completasse! Livinsgtone voltaria para a Domark em 1993, desta vez como investidor e membro do conselho diretor. Dois anos depois, a modesta Domark seria assimilada pela Eidos, levando o veterano inglês consigo. Dentro da Eidos, se tornaria o "padrinho" de Tomb Raider e Hitman. Em 2005, nova assimilação, desta vez pela Square-Enix e Livingstone se tornaria o único membro remanescente do quadro executivo da Eidos. No mesmo ano, ele participaria ativamente da produção de Tomb Raider: Anniversary. Em 2009, com a conclusão da assimilação pela Square-Enix, Livingstone foi promovido a Presidente Vitalício da Eidos.

Provando que ironia é algo que pode acontecer duas vezes, Steve Jackson também conseguiu um lugar de destaque no mundo dos jogos eletrônicos. Além de ter criado um par de jogos para a Virgin Interactive nos anos 90 e ter contribuído para o excelente Close Combat: Invasion Normandy, o antigo parceiro de Livingstone se juntou com ninguém menos que o igualmente lendário Peter Molyneux e juntos fundaram a Lionhead Studios. Ainda que Molyneux receba a maior parte dos créditos e funcione ao mesmo tempo como garoto-propaganda e líder, Jackson segue nos bastidores, ajudando no desenvolvimento de títulos como a franquia Fable e The Movies.

Jackson e Livingstone A dupla imbatível (2009): Steve Jackson (esquerda) e Ian Livingstone (direita)

Ouvindo: Veruca Salt - Sleeping Where I Want
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3 comentários:

Breno disse...

Peter Molineux ja perdeu a tempos o toque de midas para criação de jogos.A microsoft lobotomizou o cara,e ele agora é apenas um garoto propaganda que fala sempre as mesmas coisas(exemplo:meus jogos anteriores são uma porcaria,mas o proximo jogo que eu lançar vai ser O JOGO).Ele lembra uma certa classe de jornalistas que eu tive a oportunidade de mencionar por aqui.

C. Aquino disse...

É uma pena que Molyneux tenha se tornado alvo de chacotas hoje. Eu acredito que ele seja um visionário ingênuo, que não consegue convencer a própria equipe a colocar em prática os jogos incríveis que ele tem na mente e que é habilmente manipulado pelo marketing para falar sobre aquilo que poderia entregar. Ele é o oposto do George Broussard, que com seu perfeccionismo adiou Duke Nukem Forever até o jogo ser arrancado de seus dedos incompleto pela força dos tribunais. Quando Broussard tinha um plano maluco, ele jogava todo o código fora e começava de novo, sem nunca ser questionado. Quando Molyneux pede algo para seu time, eles olham para ele de cara feia, mandam ficar quieto no canto e dizem que quem paga as contas é a Microsoft e eles querem o jogo para ontem...

Breno disse...

Acredito que os dois extremos citados são prejudiciais para o desenvolvimento de um jogo.Demorar mais de 10 anos para entregar um fps é sinonimo de loucura adicionado a doses de megalomania.No caso de Molineux,ele mesmo construio a imagem dele e eu acredito que ele tem voz propria para ditar o desenvolvimento de um jogo.Se ele acredita que jogos revolucionarios vão ser concebidos por tecnologias on-rails feito o kinect então o problema e dele.Também não ajuda ele eleger como o jogo da decada um fps acefalo e limitado feito halo.

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