Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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4 de agosto de 2011

Violência: Noruega

A estupidez humana tem várias e cruéis formas de se manifestar. Pode ser como intolerância religiosa. Pode ser como fanatismo de extrema direita. Pode ser como xenofobia. Pode até ser como uma loucura inexplicável e sem aviso. Não vou entrar no mérito dos "motivos" do assassino em série Anders Behring Breivik ter feito o que fez na pacata Noruega. Este não é um lugar para discussões políticas ou reflexões sobre a natureza do ódio enterrado na sociedade. Este pretenso "templário", defensor da "raça pura" norueguesa(?) e dos "valores cristãos" assassinou 77 pessoas em um ato de covardia e frieza e merece o total desprezo e a pena máxima por Crimes Contra a Humanidade. Porque um sujeito deste porte não é jogador, não é cristão, não é humano.

Todavia, mais uma vez, a imprensa sensacionalista e torpe tenta jogar lama na indústria dos jogos eletrônicos, tenta associar a imagem de uma forma de cultura consumida por milhões de pessoas aos atos injustificáveis de um indivíduo mentalmente perturbado. Segundo notícia publicada na versão online do jornal O Globo em 03/08/2011, a "Noruega proíbe jogos que inspiraram autor de atentado duplo".

o-globo-03-08-2011

Desta vez, a matéria não é assinada. A covardia impediu seu autor de assumir o excelente exemplo de manipulação de informação que começa pelo título. Qualquer um que examinar o próprio texto perceberá que a Noruega em momento algum proibiu a circulação de qualquer jogo. O governo norueguês, eleito pelo povo para ser seu representante legítimo, não deu nenhuma ordem, sugestão, recomendação ou aviso para que a venda de um único jogo fosse suspensa. A iniciativa partiu dos próprios lojistas (ou nem isso, como veremos mais à frente), em um equivocado gesto de solidariedade.

Segundo, nenhum jogo "influenciou" Breivik a cometer seus crimes. Como bem observado pelo site Rock Paper Shotgun:

  1. Jogos se tornaram onipresentes dentro do cotidiano de adultos entre 20 e 40 anos. Acrescento que Call of Duty: Modern Warfare, citado no texto de O Globo e supostamente removido das lojas, vendeu 13 milhões de unidades até 2009, segundo a Wikipedia.
  2. World of Warcraft é sugerido pelo assassino em seu manifesto de 1500 páginas como uma camuflagem para disfarçar atividades ilícitas. Teoricamente, se você disser para as pessoas que você passa o dia inteiro jogando, ninguém vai estranhar o tempo que você gasta em frente ao computador ou confirmar o que você de fato está fazendo. O MMORPG seria, no máximo, uma desculpa para as reais intenções do criminoso. Ele poderia ter citado o YouTube também. Ou o Facebook. Ou o jornal O Globo. Ou o Retina Desgastada.
  3. Breivik comenta, de fato, ter comprado Modern Warfare e comenta, de fato, que enxerga o jogo como um simulador de treinamento. Isso é assustador, mas fica muito mais assustador quando removido de contexto como a mídia resolveu explorar. Em seu manifesto ele declara com todas as letras que não gosta deste tipo de jogo e que curte mais jogos de fantasia como Dragon Age Origins. E declara que jogava Modern Warfare apenas por ser um treinamento. Em outras palavras, se ainda não ficou claro, o assassino já tinha seus planos formados em mente quando comprou o jogo.
  4. Ainda que o texto do manifesto de Breivik tenha 1500 páginas, jogos são citados em apenas um punhado de parágrafos. Modern Warfare é citado em apenas um deles. A imensa maioria da massa textual de idéias do assassino perambula pelo terreno da xenofobia e da distorção de fundamentos religiosos. Entretanto, criar uma histeria em relação aos jogos eletrônicos vende manchete.

Finalmente, a própria história da remoção dos jogos das prateleiras das lojas também não é 100% verdadeira. O jornal O Globo noticiou que: "A Coop Norge, a maior loja de departamento do país, diz ter tomado a decisão de retirar os games 'em respeito' às famílias das vítimas e outras pessoas afetadas pelo ataque". O jornal esqueceu de informar que a mesma loja, em comunicado oficial, declarou que "nós não alegamos que os jogos são pano de fundo para o evento ou prejudiciais na questão". Mais adiante, o mesmo jornal publica: "A imprensa norueguesa também afirmou que a Platekompaniet, uma das maiores lojas de venda de games e música, também proibiu a comercialização de alguns jogos. A empresa, porém, não comentou o assunto". Não comentou o assunto, porque é mentira. Uma busca rápida no site da Platekompaniet encontra disponíveis para compra Call of Duty: Modern Warfare 2, World of Warcraft, Homefront e Counter-Strike.

Ignorância, preconceito, despreparo, manipulação, sensacionalismo. A estupidez humana tem infinitas formas.

Ouvindo: Inon Zur/Stuart Chatwood - The Mystic Caves
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7 comentários:

Marcos A. S. Almeida disse...

Á quem interessar possa:http://www.techtudo.com.br/jogos/noticia/2011/08/john-carmack-diz-que-jogos-reduz-violencia.html
Nesse breve texto,reproduzido por nosso camarada Dori Prata,vemos ao mesmo tempo a impotência do grande John Carmack e sua opinião indignada sobre esse assunto.Mas também vemos que os responsáveis por essa indústria (com ele incluído) não parecem se importar com esses ataques, o que é uma pena.E quem cala consente , já diz o ditado.Portanto,minha capacidade de indignação por esse assunto está cada vez mais diminuindo.

Anônimo disse...

Ótimo post, é uma realidade onde os meios oficiais insistem em culpar os jogos, é uma pena.

breno disse...

77 pessoas?caramba os psicopatas estão cada dia mais treinados...agora o que eu não entendo é o lobby da midia brasileira contra jogos!A quem interessa sujar a imagem da industria de jogos??Sem contar que se fosse pela influencia,eu acredito que as midias mais tradicionais(filmes,livros..)tem muito mais influencia ao meu ver que jogos...
p.s agora só por curiosidade,qual seria a pena maxima por crimes contra a humanidade(acredito que seja a morte,mas de que maneira?)?

Ipsum disse...

Tive uma professora de sociologia na faculdade que dizia que o grande desafio do século XXI, em termos de recursos humanos, é "categorizar" as pessoas: cada indivíduo é extremamente complexo, e é mais barato e rápido, ao invés de tentar compreendê-los em toda a sua complexidade, criar atributos que de certa maneira englobam todo mundo. Surgiram daí, por exemplo, os termos que se ouve falar com abundância nas dinâmicas de grupo: proatividade, espírito de liderança, dinamismo, etc.
De certa maneira, é isso que a mídia vêm tentando fazer. Explico-me com um exemplo: o rótulo "ditador". Se perguntar para pessoas na rua quais crimes Mubarak, Kadafi, Hugo Chaves ou Fidel Castro cometeram contra seu povo ou a humanidade em geral, provavelmente ninguém saberia dizer sequer um. Mas todos são unânimes em dizer que são pessoas ruins que devem ser levadas para um lugar afastado de onde nunca mais sairão. Afinal, foram rotulados como "ditadores", e ditador é ruim. Não que essas sejam pessoas boas, mas é inegável que os jornais passam todo o tempo defendendo ações militares nesses países e narrando as manifestações populares, quando existem, sem detalhar o que esses "grandes vilões" fizeram para merecer tudo isto.
O mesmo está sendo feito com esses assassinos, tanto no RJ quanto na Noruega: ao invés de tentar compreender o motivo por trás do ato, que pode ser complexo, ou mesmo tentar criteriosamente concluir que são obras de pessoas loucas, a mídia joga um rótulo, diz que jogos violentos destruíram a mente da pessoa, e pronto, está justificado. Agora vamos falar de futebol...

Bruno disse...

Aquino, concordo com vc quando diz que um sujeito destes deve ser punido de forma exemplar, mas sou contra dizer que o cara não é jogador. Não me entenda mal, não estou querendo defender o cara. Pode até me chamar de extremista mas, p/ mim, bandido bom é bandido morto. O negócio é que vc, acredito que inadvertidamente, está fazendo o mesmo que esses "jornalistas" ao dizer que o cara não é jogador por ter cometido tal atrocidade.

Não é necessário ter um bom caráter ou sanidade mental p/ se jogar um jogo. Assim como não é necessário ser uma pessoa sã, consciente, que compreende e se compadece das situações alheias, p/ ser um jogador. Uma máquina, em geral, não pode decidir não ligar dependendo do caráter do usuário. Digo "em geral" pq já existem algumas inteligências artificiais capazes de fazer julgamentos simples, mas divago.

Enfim, meu ponto é: ser jogador é algo que independe de caráter, sanidade mental, crimes cometidos ou boas ações realizadas. Ser jogador depende apenas da pessoa jogar e nada mais.

C. Aquino disse...

OK. Eu me expressei errado. Ele não é Jogador, Cristão ou Humano. Com letras maiúsculas. Ele é humano, nasceu de uma mulher humana, tem DNA humano. Ele é cristão, leu a Bíblia, foi à Igreja (se é que pode existir a palavra cristão em um sentido tão limitado). Ele é jogador, ele compra jogos, ele instala, ele se diverte. Mas, ele deturpa o significado mais profundo de ser Humano, Cristão e Jogador. E no fim das contas, não faz diferença para seus crimes se ele é Jogador, Cristão, Humano, jogador, cristão ou humano. Ele é um Assassino, motivado apenas por seus próprios delírios e não por aquilo que certos jornais querem fazer acreditar.

C. Aquino disse...

Sem querer entrar muito no mérito político-social da questão, basta dizer que Breivik dedica um pedaço bem maior de seu "manifesto" a descrever como teve dificuldades para conseguir armas no mercado negro em Praga. E acabou obtendo todo o seu arsenal LEGALMENTE na própria Noruega. Entretanto, para comprar armas de fogo na Noruega você precisa apresentar um documento comprovando que você tem TREINAMENTO para usá-las (uma exigência que existe para evitar a compra leviana de armas, mas...). Treinamento este que ele conseguiu em cursos autorizados e não em Call of Duty... Mas este tipo de dado não gera clique, nem vende jornal. E o público que defende o porte de armas de fogo é bem mais "barulhento" que nós jogadores.

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