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Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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22 de julho de 2011

Dança Global

Esta postagem tem pouco a ver com jogos. E tem pouco a ver com música, também. E, se conseguir ler nas entrelinhas, também tem pouco a ver sobre dança. Ela é sobre felicidade.

Dois meses atrás, foi levantada a polêmica de que a introdução de uma música do Luan Santana seria semelhante ao início da música de outro compositor. Da minha parte, acho que as duas faixas tem muito pouco em comum e que a coincidência pode ser uma excelente explicação, mesmo não sendo eu admirador do gênero professado por Luan Santana. Mas, como eu disse, a música não tem muito a ver com esta postagem. O que chamou minha atenção foi o vídeo que acompanha a faixa "Praan", supostamente vítima de plágio:

Se me permitem um trocadilho, tem um mundo por trás deste bonito clipe. Vamos desvendá-lo.

Choque da Música

"Praan" é de autoria do compositor Garry Schyman, uma lenda viva da indústria das trilhas sonoras, já tendo contribuído com filmes, programas de TV e jogos eletrônicos. Este americano de 57 anos está na ativa desde 1980 quando começou a compor temas para a série de TV Magnum. Schyman também foi responsável por trilhas para Super-Herói Americano, Esquadrão Classe A e alguns filmes pouco conhecidos de cinema e televisão. Mas foi nos jogos que o compositor sentiu que poderia explorar melhor seu potencial.

Schyman foi um dos primeiros a utilizar uma orquestra completa para produzir a trilha de um jogo. No início dos anos 90, a limitação do hardware e o pouco capital circulando na indústria desestimulavam a contratação de compositores profissionais vindos de outras mídias, mas ainda assim Schyman foi chamado para criar a trilha do obscuro Voyeur, carro-chefe do fracassado console Philips CD-i. Outros dois jogos depois, incluindo a continuação de Voyeur e Schyman desistia por quase dez anos. Felizmente, em 2004, através de um convite da THQ, o compositor daria outra chance à indústria dos jogos eletrônicos. Com direito a orquestra e o desafio de criar uma atmosfera de filme de ficção-científica dos anos 50, ele compôs a trilha sonora de Destroy All Humans!  e não largaria mais o meio.

Bioshock

A consagração veio à frente de clássicos como Bioshock, Resistance, Dante's Inferno e Bioshock 2. Todos os prêmios conquistados por Schyman em sua carreira foram através dos jogos eletrônicos, sete deles apenas com a trilha sonora de Bioshock.

Fluxo da Vida

"Praan", também conhecida como "Stream of Life", em inglês, foi composta especialmente para ser utilizada por seu amigo na THQ, Matt Harding, para funcionar como trilha sonora de suas aventuras dançantes pelo mundo. Sua letra foi extraída de um poema do poeta Bengali Rabindranath Tagore, escrito no início do século XX. Mais de cem anos depois, os versos se tornaram uma das dez trilhas mais baixadas no site da Amazon durante uma semana e atualmente ainda está na lista das 100 mais baixadas pela loja virtual. Segue abaixo o poema traduzido para o português:

O mesmo fluxo da vida que corre em minhas veias noite e dia corre através do mundo e dança em medidas rítmicas.

É a mesma vida que explode em alegria através da poeira da terra em inumeráveis folhas de grama e flores.

É a mesma vida que é embalada no berço-oceano de nascimento e morte, no fluxo das marés.

Eu sinto que meus membros se tornam gloriosos pelo toque deste mundo de vida. E meu orgulho vem da pulsação das eras dançando em meu sangue neste momento.

Mas, Quem é Aquele Maluco Dançando?

Aquele maluco dançando em diversos pontos do mundo é o ex-desenvolvedor de jogos Matt Harding. Ele começou a se envolver com jogos como assistente de uma loja especializada, foi redator de uma revista e terminou como designer. Apesar de sua curta carreira na indústria, ele se envolveu no desenvolvimento de títulos como Dark Reign 2, Battlezone e o infame Destroy All Humans!. Em 2003, ele estava desistindo.

Destroy All Humans Com 28 anos, trabalhando dentro da finada Pandemic Studios, na Austrália, escrevendo diálogos para personagens, ele se encontrava saturado de jogos violentos de matança e sugeriu sarcasticamente que a empresa desenvolvesse um jogo chamado "Destrua Todos os Humanos" (Destroy All Humans, em inglês). Para seu espanto, a piada não foi entendida, a sugestão foi levada a sério e a Pandemic desenvolveu o jogo. Frustrado, Harding pediu demissão: "eu não queria passar dois anos de minha vida escrevendo um jogo sobre matar todo mundo". Ainda assim, Harding recebeu o crédito conceitual do título e fatura até hoje royalties pela franquia (sim, Destroy All Humans virou uma franquia).

Sem rumo, Harding resolveu sair por aí, conhecer o mundo e as pessoas. E dançar no meio delas. A princípio, seu site oficial e suas filmagens eram apenas uma forma de manter contato com a família e com os amigos distantes, até um dia em que um deles sugeriu que ele fizesse "aquela dança maluca". Harding atendeu o pedido do amigo e filmou a si mesmo executando os desajeitados passos.

Em quinze países diferentes!

A edição final usava a música "Sweet Lullaby" do "Deep Forest" e era baseada em uma língua quase extinta das Ilhas Salomão. Aquilo que deveria ter sido visto por um pequeno círculo de conhecidos, foi repassado por e-mail e se tornou viral. O vídeo se tornou um sucesso na internet e transformou o desgostoso desenvolvedor de jogos em uma celebridade instantânea, um embaixador da farra através do mundo. Logo, ele viu que poderia levantar uma bandeira: "Eu sinto imensamente que os americanos precisam sair mais e viajar. Nós somos muito isolados e temerosos do mundo exterior; nós somos alimentados com todas estas imagens que simplesmente não são verdadeiras".

Harding acabaria fazendo as pazes com a indústria dos jogos eletrônicos e contribuiria como escritor para a adaptação Pirates of the Caribbean: The Legend of Jack Sparrow. Mas os vídeos se tornaram sua nova vida. Em 2006, ele realizou uma segunda montagem, chamada apenas de "Dancing 2006". E, em 2008, após 14 meses de filmagens em viagens por 42 países (incluindo o Brasil), ele lançou a versão definitiva, com a trilha de "Praan", do mesmo autor da trilha de "Destrua Todos os Humanos", mostrando que a ironia, às vezes, pode dar uma volta completa.

O futuro de Harding não o preocupa agora. "Se estes são os meus quinze minutos de fama, então estou feliz. Não é um jeito ruim de partir."

Dancing 

Ouvindo: Sabotage - Incentivando o Som
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2 comentários:

Danzius disse...

Ótimo artigo. Já frequento o blog há algum tempo sem me manifestar, mas hoje eu precisava dizer ao menos um obrigado.

Vida longa e felicidades, meu caro.

C. Aquino disse...

Eu que agradeço a audiência, Danzius! Seja bem-vindo!

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