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5 de maio de 2011

Matar ou Correr

Reduzir Killing Floor à posição de clone pobre de Left 4 Dead é uma ofensa ao trabalho da Tripwire Interactive e desconhecimento de suas diferenças fundamentais. Percebi isso da melhor maneira possível, após sete horas de jogatina, cortesia do camarada Marcos A.S. Almeida que me concedeu um acesso de visitante válido por três dias. Foi com tristeza que eu vi a licença expirar na minha lista de jogos do Steam.

Killing FloorAntes de prosseguir nesta análise, é preciso estabelecer de imediato a diferença fundamental entre Killing Floor e Left 4 Dead: matar ou correr.

No jogo da Valve, a jogabilidade está fortemente atrelada à narrativa, ainda que possa aparecer que o enredo é frágil. No fiapo de história dos quatro sobreviventes, nós temos enraizado um profundo desespero, uma fuga desabalada por uma cidade infestada de mortos. Seus protagonistas foram, literalmente, "deixados para os mortos" (Left 4 Dead). A rota é o jogo, uma corrida em busca do refúgio definitivo. Os hábeis cirurgiões da Valve expõem esse cerne através de uma maior empatia com os personagens, sempre fixos, através de mensagens nas paredes, através de um design de níveis orientado para a passagem, para o constante movimento e para a tensão.

Já em Killing Floor, a narrativa está em segundo plano para a jogabilidade. O enredo é totalmente nulo, disponível apenas em textos rápidos que podem ser lidos ou não antes de cada cenário. É irrelevante. Sem precisar se atrelar a questões emocionais mais profundas, Killing Floor se transforma literalmente em um "campo de matança". Sai de cena o medo, a fuga e a tensão e entram em cena o festival de armas de fogo, lâminas e explosivos. O título da Tripwire se reconhece como jogo e como jogo explora ao máximo o fator diversão, a agilidade dos combates e a sensação de poder. O jogador exerce pleno controle sob seu ambiente e sobre seu poder de fogo.

Killing Floor Killing Floor

Em cada missão de Killing Floor você tem um cenário amplo que será atacado por dez ondas sucessivas (e crescentes) de criaturas geneticamente modificadas. Entre cada onda, qualquer possibilidade de imersão vai para o ralo quando se abre a loja, um espaço no cenário onde é possível adquirir novas armas, reparar a armadura pessoal e abastecer a munição. Imersão? Quem quer imersão! Em nome da diversão, a Tripwire deixa para trás os elementos desnecessários e se concentra na carnificina. Momentos especialmente sangrentos do combate desaceleram a câmera e isto vale para todo mundo que está conectado, oferecendo uma chance melhor de apreciar a plasticidade da violência. Aqui, a seleção de armas é muito maior e mais devastadora do que em Left 4 Dead. Aqui, a quantidade e a variedade de inimigos não deixa ninguém entediado. O importante é manter o tiroteio ativo e o sangue voando. Ao final das dez ondas, surge o Patriarca, o chefe final, o último desafio do cenário. E então, troca o cenário e repete tudo novamente.

Conhecendo a mecânica do jogo, isenta de surpresas, é possível ao jogador estabelecer uma série de estratégias. Seu avatar, por exemplo, pode destravar e acumular habilidades que vão acompanhá-lo para sempre. Não é um sistema tão rígido como o sistema de classes de Team Fortress 2, está mais parecido com as perícias de um RPG como Risen, onde o jogador pode decidir no que irá se especializar. Se eu quiser ser um médico que maneja bem explosivos, isso é problema meu. Outro grande destaque de Killing Floor é a capacidade de soldar portas no cenário, bloqueando o acesso das criaturas, algo impensável em Left 4 Dead, onde os protagonistas estão sempre em movimento. Sabendo que as hordas estão chegando e que você terá que sobreviver por um longo tempo, você pode criar uma boa posição defensiva no canto do cenário que achar mais aprazível. Some a isto as minas explosivas e temos uma combinação tática infalível.

Killing Floor 09

Com um amplo arsenal e um leque de estratégias, Killing Floor acaba sendo um jogo fácil. Pelo menos no nível que eu joguei ("Beginner"), mesmo com todas as minhas habilidades lá embaixo, a sobrevivência não foi complicada e todas as minhas mortes foram causadas justamente por excesso de ousadia. Ao contrário de Left 4 Dead, você não é forçado a ficar com os nervos à flor da pele, temendo o momento do Tank ou esbarrar em uma Witch. É festa de tiros e vísceras, o que pode fazer com que você cometa um descuido ou outro. Ainda mais que, enquanto você está recarregando uma arma, não é possível dar coronhadas, como no jogo da Valve. Mas tive a impressão de que um time bem organizado de seis pessoas pode vencer muito facilmente qualquer cenário. Graças principalmente ao Diretor, quatro pessoas bem organizadas em Left 4 Dead vão suar a camisa sempre.

Killing Floor

No momento em que eu testei, Killing Floor ainda estava sob a influência da campanha publicitária de Portal 2. Além de ter um mapa ambientado no Aperture Laboratories, o dono da loja em todos os cenários foi substituído por GLaDOS! A inteligência artificial que todos amam odiar não perde a oportunidade de tripudiar dos jogadores... No dia primeiro de abril, a libra, moeda corrente da loja, foi substituída por batatas! Uma atualização futura vai remover GLaDOS, mas vai deixar o cenário. Esta não é a primeira homenagem a outro jogo feita pela Tripwire. Existe um mapa que reproduz o E1M1 de Doom, mas não é muito interativo, nem muito empolgante, devo acrescentar. Eu imagino como seria se a desenvolvedora aproveitasse o bom relacionamento com a Valve e conseguisse recriar um dos mapas de Left 4 Dead, talvez o mapa final de Sacrifice?

Killing Floor Killing Floor

Infelizmente, uma triste notícia para os jogadores solitários. Killing Floor é monótono jogando em single-player. Na ausência de bots, você navega sozinho pelos cenários enfrentando quatro ondas de monstros, antes do conflito final. Sem uma narrativa que o impulsione e com a matança limitada a poucos inimigos, não empolga. Este modo de jogo só é recomendado para quem (como eu) está conhecendo o jogo e se familiarizando com os mutantes e com as armas. Dificilmente você se sentirá motivado a jogar mais de um mapa sozinho.

Dedicado a um público diferente de Left 4 Dead, Killing Floor é uma injeção de frenesi naqueles que preferem matar a correr. Com poucas horas de jogo, não me atrevo a dar uma nota final, mas é um jogo que eu comprarei com certeza na primeira promoção que aparecer.

Killing Floor 04

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Um comentário:

Marcos A. S. Almeida disse...

Aquino, uma das melhores partes do jogo ( se não a melhor) é você acompanhar a evolução do Perk escolhido;Nos diferentes níveis de evolução as diferenças REALMENTE existem e percebe-se isso de forma nítida.As armas ficam mais potentes,as recargas mais rápidas , solda-se as portas com maior rapidez, e assim por diante.E a Tripwire fez uma trabalho muito bom não só nessa evolução mas balanceou muito bem os Perks, não existindo á meu ver um melhor que o outro , pois todos têm vantagens e desvantagens.O único problema é que o que nos serve de incentivo á jogar ( a evolução plena ) é o que nos desmotiva quando atingida.Ao se chegar no nível 6 (confesso:já joguei o pirata pelo GARENA), tudo fica mais fácil, desde adquirir armas até matar os "mutantes".A alternativa é jogar no nível mais difícil.Duas coisas que me fizeram indicar esse jogo á você talvez não tenha dado tempo pra você perceber nesses 03 dias: a evolução já comentada (no estilo RPG que você aprecia) e o Rock que toca ao fundo , diferente á cada mapa.Espero que um dia você tenha a oportunidade de apreciar de maneira completa essas qualidades do jogo.
Uma última observação:se jogar num modo mais difícil você verá que o maior vilão do jogo não é o Patriarch e sim o Fleshpound...

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